quarta-feira, 20 de abril de 2011

Recomeçar

A vida é feita de fases. De ciclos. Acabo de recomeçar do zero. Do zero, não. Minto.

Confesso que não sei muitas coisas da vida. Sempre me considerei além da minha idade, mas agora, com vinte anos, talvez eu seja só mais uma cabecinha ambulante que o vento bagunça os cabelos. Talvez eu não seja tão madura mesmo. E fiquei me perguntando, se eu não tivesse passado por todas as dificuldades e desilusões será que eu seria ainda menos? Provavelmente. Isso me dá a certeza de que ainda vou quebrar muito a cara, de que vou me iludir, ficar com o pé atrás e me desiludir muitas vezes ainda. Porque sinto que a vida ainda tem muito a me ensinar. Da maneira difícil, aquela doída mesmo, que parece que vamos ficar sem ar. Porém, talvez seja a maneira mais eficaz no final das contas de aprender a lição. E a lição que eu aprendi nessas últimas semanas é que gostar da gente é muito melhor que gostar de qualquer outra pessoa. Valorizar-me foi o meu melhor remédio. E isso deu resultado. As pessoas perceberam - mesmo aquelas que eu não conhecia ou não notava. Fazia séculos que eu não me sentia apreciada e cultivada. E eu vi que minha companhia e só ela é uma das melhores coisas da vida. Desfrutar dos pequenos prazeres quando se está em paz consigo é maravilhoso. E ter consciência que nada está acabado. Está apenas começando.

p.s. Voltei para o blog. Sim. Por quê? Cansei de anular meus sentimentos e pensamentos. Preciso falar, gritar, desabafar. Mesmo que ninguém leia. Mesmo que ninguém ouça. É melhor do que o meu silêncio. Esse luto sufocou minhas idéias e minhas emoções.

domingo, 17 de abril de 2011

A capa verde

A coletânea de Vinícius da capa verde se mostrou bem ao meu lado enquanto passo os olhos sobre as nossas pilhas quase imensas de livros esparramados pelo chão da casa, enquanto as estantes não chegam. Eles estão desordenadamente dispostos, indispostos, dividindo espaço com as minhas almofadas, meu computador e minha desorganização particular. No meio de tantas pilhas, de tantas aleatoriedades, encontro alguma razão na ordem da disposição: há sempre uma poesia, uma história, um clássico em quase cada uma das pilhas, como um convite silencioso a saborear cada um desses, intencionalmente organizados por ti para me enganar e me fazer crer que nada tens a ver com os meus favoritos estarem sempre no topo dos escombros literários da nossa sala de jantar. 
Vinícius veio parar no meu colo e imediatamente me fez pensar em te escrever, relembrando os dias que andavas pela faculdade com ele embaixo do braço, sem que ninguém pudesse encostar. Até que roubei ele de ti, abri em uma página qualquer e te li uma poesia, naquela sala do canto em que costumávamos jogar horas pela janela conversando trivialidades e nos perdendo em nós mesmos, mesmo que nunca tenha havido um toque, nem um abraço, nem um encontro de mãos por mais sutil que fosse. Tocar aquela capa verde, naquela manhã nublada, foi como poder tocar o teu rosto sempre intocável pelas nossas manias de distância e de preservação que nos aproximaram muito mais do que jamais poderíamos imaginar, foi como percorrer com os meus dedos o desenho da tua barba, como afastar todas as cadeiras e a comprida mesa da sala para te tirar para uma dança.
Vou confessar que, vez ou outra, abro o Vinícius na minha frente para tocar as laterais já envelhecidas e percorrer as páginas amareladas como quem acaricia teu corpo. Abro naquelas páginas marcadas, orelhas dobradas e encontro a poesia que te recitei naquela vez. Ela está duplamente marcada, a orelha dobrada e um papel rabiscado no meio da folha. Lembro dela, "Poema dos olhos da amada". Lembro que comentasse meus olhos verdes, que achei graça e mudei de assunto. Lembro de ficar ligeiramente envergonhada e de quase não conseguir conter um riso largo. Vou confessar que releio esse poema algumas vezes por semana e sempre te encontro lá, dizendo que eu te olho sempre pela linha superior dos meus óculos. Vou confesar que me encontrei em Vinícius e que, já naquele dia, me perdi em ti. E se isso for se perder, não quero me encontrar nunca mais.

sábado, 16 de abril de 2011

A Pedra

Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a - Eu irrito o silêncio dos insetos.
b - Sou batido de luar nas solitudes.
c - Tomo banho de orvalho de manhã.
d - E o sol me cumprimenta por primeiro.

(Manoel de Barros)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Felicidade

“Era uma vez uma senhora que desde menina tinha uma vontade enorme de possuir um desses copos antigos, todos trabalhados a ouro e salpicados de florinhas multicolores que trazem desenhada em letras finas a palavra Felicidade.
Um dia ela descobre na Casa Rola, um local em desordem, o tão desejado copo, entretanto não pode levá-lo porque o proprietário da loja queria muito pela raridade. Decepcionada volta para casa e pára de pensar no copo, até que um dia um incêndio destrói a Casa Rola. Ela, então, passando pelo local descobre que uma loja vendia os restos do incêndio e lá encontrou o copo, por uma ninharia o comprou. Em casa, constatou que havia uma rachadura no copo bem sobre a palavra felicidade. “A senhora guardou o copo assim mesmo, conserva-o com carinho e teme que possa quebrar-se de vez. Mas sempre que perto dela se fala em felicidade, se existe ou não, se é questão de sorte ou luta, recompensa ou acaso, se dura ou é efêmera, e se qualquer um pode obtê-la, a senhora de minha história não diz nada, e suspira pensando no copo.”

Maluh de Ouro Preto, descoberta ao acaso na noite de ontem, pelo aniversário da doação do seu acervo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Vem!

Sou possessiva, sou mandona, ciumenta e chata, muito chata. Mas sabes muito bem que eu sei ser doce. Que eu sei olhar com olhos de bem-querer. Sabes, acima de tudo, o quanto sempre te quis. Sabes manobrar - que palavra terrível - meu corpo e meu coração como ninguém mais sabe. Sabes me fazer parar de reclamar compulsivamente, seja por rabugice ou por hábito mesmo. Sabes rir e contemplar os meus defeitos, elogiar minha comida, cozinhar para mim. Sabes que desejo e preciso ser mimada e executas teus planos de surpresas e mimos com maestria e precisão. Sabes que gosto das flores pequenas e que não gosto de cor-de-rosa. Sabes apreciar a rotina e admirar a paisagem. Sabes me fascinar e me reconstruir todos os dias. Vem, que sabes respeitar meu temperamento explosivo e minha contrariedade. Algumas horas longe são o suficiente para que eu precise mais uma vez do teu cheiro, da tua boca, os pelos arrepiados na nuca, as unhas que lentamente me arranham as costas num carinho que doma minha ira, os dentes que mordem meus dedinhos do pé enquanto durmo e os dedos que me acordam percorrendo meu rosto num leve carinho que me tira do sono de um jeito leve e irresistível. Foi o teu despertar que me fez escrever hoje, o teu acordar que me acordou não para um dia mas, mais uma vez, para o fascínio que essa rotina me causa todos os dias. Tua leveza me faz pedir "Vem!", meu amor me faz pedir "Fica!" e essa felicidade toda me faz te dizer "Não te deixo jamais!".
Me tens inteira, sem medos, sem receios, sem dúvidas, sem passado.
Te fizesse presente e futuro. Te fazes minha vida a cada dia que passa.

P.S.- Vem logo, hoje é teu dia de cozinhar!

terça-feira, 12 de abril de 2011

a porta aberta

Deixei a porta aberta. A música está tocando, o sofá está no mesmo lugar com a mesma colcha, eu ainda uso o mesmo perfume e podes me reconhecer facilmente pelo olfato de um pouco de sede, aquele mesmo aroma que sempre guardo na boca quando vou dormir, daquele copo que nunca abandona a minha cabeceira. Deixei a porta aberta. Não demore, eu disse para levar um guarda-chuva, o tempo está se armando e as nuvens pretas vão em breve se expressar em pingos. Às seis eu tomo o meu café, por favor esteja de volta até lá para temperar as minhas torradas que não sei mais temperar sozinha. O sol sufocando por entre as nuvens reflete na janela e bate bem aqui na minha janela, não se preocupe ao encontrar as cortinas fechadas ao chegar, é só para evitar o sol que insiste em se infiltrar pela sala mais do que já faz habitualmente, pela manhã, na janela do quarto que sabes que é minha mania secreta de dormir observando as estrelas. Ainda são cinco e quinze, o tempo se arrasta nessas tardes cansativas, meu livro está aberto naquela mesma página que venho me enrolando para ler, espero que ao chegar tenhas o cuidado de marcar a página antes de tirá-lo do meu colo, não leria todo o capítulo de novo. Deixei a porta aberta. E não acredito que mais alguém entenda o que isso quer dizer.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Manhã Branca

Hoje acordei com frio. Acordei e fui refazer teus passos na procura de algum vestígio de calor ou de amor que ainda tenha ficado caído pelo corredor. Desenhei teu caminho, percorri tua trilha buscando algum carinho esquecido atrás da porta que fosse capaz de me aquecer nessa manhã branca, sem sol, sem nuvens, sem graça. Acordei junto comigo as tuas roupas, os teus traços, teu travesseiro e os teus cheiros esparramados, carinhosamente juntei teus pedaços esparsos e em momento algum me senti menor por buscar nos teus resquícios algo suficientemente caloroso para me fazer suportar essa manhã quase insuportável. Não me senti menor pois não catei teu amor como sobras, não te peço o amor, não te imploro, como nunca ousaria te pedir ou implorar ou exigir algum amor - inexigível por natureza; esse amor é dado de graça todos os dias através das tuas pequenas demonstrações cotidianas, as marcas de um corpo que faz questão de me mostrar que esteve ali, que faz seu rastro para que eu o percorra e o desfaça quantas vezes forem necessárias para que seja notado. 
Teu amor se mostra no cheiro do café que me espera na borda da cama todos os dias, as mãos cuidadosamente aquecidas antes de se aproximarem do meu corpo sempre frio ao acordar, na escolha das minhas unhas e das frutas da tarde, na casa preparada para me ver despertar no domingo, sempre tarde, sempre cansada. Se mostra quando se esconde, faz questão de se mostrar quando nem te vejo sair.
Não me sinto menor por procurar os teus sinais quanto tu sai pela porta; ao contrário, levanto correndo para que as xícaras não esfriem, os dedos ainda estejam marcados na superfície gelada do banheiro, a cama quente, o travesseiro largado, a chave balançando na fechadura, a toalha sempre pendurada em alguma das portas. Teus sinais são preparados cuidadosamente por ti e seria menor, aí sim, ao desprezar a forma mais bonita que um amor pode tomar: o apreço pelo cotidiano. É a rotina que engrandece o nosso amor.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Tatuagem

Alguém consegue nos marcar para sempre. Alguém consegue dizer as palavras certas, fazer o gesto correto, segurar a nossa mão com a força e a leveza ideais no momento exato, sussurrar no tom de uma melodia, dedicar a música inesquecível, beijar com o sabor doce e azedo na medida certa. Sempre há alguém que nos marca como tatuagem, que faz do nosso coração latifúndio, que dispara a ansiedade e afeta a respiração. Por sinal, esses dias ela me ligou para saber qual era a música deles dois e, nesse momento, só pude dizer a ela que acabara de me comprovar que jamais havia lhe amado. Esquecemos as datas, as feições e os traços do rosto, mas de quem nos marca jamais esquecemos o cheiro, a respiração e a trilha sonora. Ela não entendeu nada e me demorei no telefone para explicar melhor, para dizer que o perfume funciona como um gatilho das memórias adormecidas, das sensações quase esquecidas. O cheiro nos faz sentir aquele ar quente da respiração do outro na parte superior dos nossos lábios, faz a mão suar com a memória da pressão exata daqueles dedos entrelaçados aos nossos, faz o coração entrar em descompasso. A música nos joga de volta às nossas memórias, nos deixa nus diante dos sentimentos que pensávamos ter esquecido já há muito tempo. A música nos arremessa para o passado, joga com o peito e com a alma de modo quase desleal, não nos permite escolher se desejamos ou não reviver o cheiro da tarde de outono, as flores de primavera e os perfumes das frutas do verão.
Disse a ela que não diria qual era a música. Ainda sem entender, contestou. Se não foi capaz de marcá-la, não sou eu quem vou dar a ele a segunda chance. Nananinanão.

terça-feira, 5 de abril de 2011

para as paredes 008

Minha tia uma vez disse que eu escrevia para o meu primeiro namorado. Ela sabe, mas talvez comigo não tenha percebido, que nós escrevemos para aqueles com quem nunca tivemos nada. Não que nada seja a palavra certa, muito pelo contrário, talvez nada nunca represente - nem passe perto de representar - a proporção das coisas com quem não tivemos "nada", porém é errado acreditar que dediquei muitas das minhas nostalgias àquelas pessoas com quem me relacionei. Escrevi sobre aquilo que vi mas, muito mais que isso, sobre tudo aquilo que sonhei.
Minha tia talvez achasse que eu sentia dor daquilo que vivi; mal sabia ela que o que me doía era exatamente tudo aquilo que deixei de viver, cada palavra não dita, gesto não saboreado, sentimento sonegado. Minha tia entende muito bem que a saudade do que vivemos não machuca tanto quanto o ressentimento daquilo que não nos permitimos viver. Ela sabe, sabe muito bem, sabe assim como eu que o Roberto Carlos que nos toca não é aquele dedicado a nós, mas aquela canção que ficou no lado B dos nossos corações, esperando que o disco fosse virado e ele nunca foi. Ela sabe que o que foi vivido não provoca um vazio tão intenso como aquele espaço que fica quando deixamos de viver.
O que sinto é saudades. Mas não, tia, não é saudades de nada que eu já tenha vivido. É uma saudade vazia, é do que eu encontrava em mim, das histórias que fantasiava, dos sonhos que pensava e os planos que concebia. É uma saudade sem objeto, uma saudade que sempre existiu e sempre existirá, necessária para que o meu coração permaneça batendo. Preciso daquele espaço vazio, daquele espaço saudoso, todos nós precisamos de um pouco de amor reservado a ninguém.
Roberto já dizia que "das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter". E a minha saudade é assim: sem cara, sem nome, sem rumo. É a saudade de tudo que eu jamais vou viver.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Up Where We Belong


Lembro sempre da minha mãe com essa música, aqueles olhos que não se contiam.


"Time goes by
No time to cry
Life's you and I
Alive today..."

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Trocando em Miúdos



"Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde."

(Chico Buarque)

terça-feira, 29 de março de 2011

Mãe...

Sabe mãe, eu arrumava a minha pequena coleção de dvds quando lembrei de ti. Lembrei exatamente da pose com as duas mãos na cintura que fazias atrás de mim, admirando aqueles que eu já tinha na estante, dizendo que sempre quis que eu tivesse muitos e muitos de música. Acho que fiz do teu desejo um pequeno altar na minha casa, na minha sala, na minha estante. Hoje aqui contei trinta, enquanto limpava um por um do pó que lentamente se assenta como a saudade que lentamente dói e te vi atrás de mim, mãos na cintura, dizendo como é legal ter muitos desses em casa para assistir quando quiser.
Deixei por aí alguns já repetidos, mas que gostaria de ter por perto hoje. Mentira, eles não fazem falta alguma, mas queria estar perto deles só para estar perto de ti. Sentir o teu cheiro de casa, teu cheiro de mãe, aquele cheiro inconfundível que tens, que não é nem da pele nem dos cabelos, nem é dos cremes e muito menos de perfumes: é o teu amor que exala perfumando a roupa e a casa inteira. Te queria batendo à porta do quarto, pedindo para que eu baixasse o volume do último da coleção. Coloco algum para ouvir: a saudade alivia como se tu entrasse para ouvir e dançar comigo. A falta dá lugar à felicidade de te ter por perto.
Tu me ensinou a gostar de música, mãe. Tu me ensinou a amar. 
Cada um que compro, cada um que ganho, abro alegremente e disponho na ordem que já é habitual. Cada novo que ouço, ouço contigo aqui. Faltam alguns que desejo, faltam outros que só tu gostaria de ouvir comigo, mas encontrei meu modo de te amar. À distância, teu desejo de som se fez meu pequeno altar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Onde

Para onde vai o amor depois que o amor se vai? Ou melhor, para onde vai o amor depois que o relacionamento acaba? A relação e o amor não terminam ao mesmo tempo, mas não é isso que parece quando o fim bate à porta. 
Depois do fim, as juras, as promessas, os sonhos e principalmente o respeito já não têm valor algum, a história é rasgada e jogada no lixo, condenada ao esquecimento, às fotos encaixotadas e às velhas cartas abandonadas em algum canto esquecido. Depois do fim, não olhamos mais nos olhos do outro. Criou-se (ou criamos nós mesmos) a ideia que, depois do adeus, não há nem deve haver mais nenhuma ligação entre aqueles que até ontem eram principais amigos e confidentes. Modernos que me perdoem, eu não consigo compreender isso. Não consigo conceber que amanhã tenhamos que atravessar a rua para negar um olá à pessoa que ainda hoje nos deu um beijo de bom dia. Não consigo entender porque tentam nos convencer que temos que demonstrar indiferença ou superação, já no dia seguinte à separação. Não entendo o porquê de negar uma história, negar um sentimento que muitas vezes ainda não se foi - e que, em algumas vezes, nunca irá -, negar a mão estendida a quem muitas vezes nos segurou e esteve ao nosso lado.
Depois do fim, nos ensinam que devemos ser indiferentes, que devemos virar o rosto, fingir que esquecemos, demonstrar felicidade, forçar felicidade, forçar uma risada que nos ensurdece e cala o que nossos sentimentos desejam falar. Mais do que um motivo para o fim, precisamos perceber que para o início também houve um motivo, igualmente importante, igualmente comovente, igualmente extasiante. O fim nem sempre é fácil, nem sempre é pacífico, nem sempre é aceitável. As razões muitas vezes não nos parecem claras, as justificativas soam injustificáveis, os sonhos se quebram até se recompor outra vez por um novo começo. Pode haver raiva, tristeza, mágoa, amor, ressentimento e é justo que haja. O que não pode haver é negação. Negar o outro, um outro tão íntimo, é como negar a si mesmo. É virar a cara à própria história. É rasgar grande parte da nossa identidade.

domingo, 27 de março de 2011

Rotina

Caso algum dia eu deixe de me encantar com teus pequenos e grandes defeitos, posso te dizer com certeza que meu amor morreu. Pequenas marcas que deixas no nosso cotidiano, na nossa vida comum, naquele rastro da rotina que sempre desejamos para nós dois. Há alguns detalhes que me encantam, há sempre uma roupa esparramada pela casa, um livro entreaberto ou marcado com qualquer coisa, uma beirada da cama que não foi arrumada, um perfume fora do lugar, uma toalha pendurada em alguma das portas da casa, uma surpresa ou uma flor escondida me esperando voltar... Sempre algum sinal claro de que estamos, estivemos e em breve voltaremos para o nosso lugar. Não é a tua arrumação que me dá certezas, mas as tuas bagunças. Onde fica algo por fazer, tenho certeza que voltaremos. Onde ficar algo por fazer, terei sempre a oportunidade de te reencontrar no final do dia. A bagunça me dá a certeza de que a única organização que preciso está dentro do meu coração. O que assenta meus sentimentos é te espiar no fim da noite, dobrando vagarosamente as roupas, atirando os tênis para o lado da porta, os jornais pelo tapete, as surpresas pela mesa, as cobertas pelo chão. A bagunça ao redor me garante que amanhã será mais um dia. Mais um dos nossos dias.

A rotina é o combustível do nosso amor.

quarta-feira, 23 de março de 2011

para as paredes 007

Eu queria te escrever, queria te contar aos outros, queria descrever as minhas expectativas e a tranquilidade que surpreende até a mim mesma, nunca me imaginei dessa maneira. Queria encontrar as palavras exatas das sensações que eu sinto e verbalizar as emoções que me proporcionas. Queria te imaginar e dividir as minhas imaginações, mas não encontro palavras que sejam o suficiente ou termos que não sejam equivocados ou abrangentes demais. Queria um termo que só definisse a ti, que abarcasse o que eu sinto, espero, desejo, sonho e acredito. Queria te dizer algo, te definir em alguma palavra além da definição óbvia, muito mais que óbvia, da palavra amor. Me acordo todos os dias apaixonada, mas esse sentimento ainda não tem nome exato.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Recorte


"It's hard for people to comprehend that someone can be born a cartoonist but I believe I was. Why do musicians compose symphonies and poets write poems? Because life would have no meaning for them if they didn't. That's how I feel about drawing cartoons. It's my life."
(Charles M. Schulz)

Depoimento extraído do livro Celebrating Peanuts 60 Years. :)
Não conheço nenhum poeta famoso pela sua felicidade nem nenhum escritor conhecidíssimo pela sua alegria de viver e sua estabilidade emocional. A inconstância que faz o artista. É o surto, o choro, a crise, a raiva, a saudade, a depressão, a oscilação que fazem com que a poesia brote, com que as linhas e os romances pulem dos punhos para as folhas. Quando fora da zona de conforto, é a emoção que toma as rédeas e que delimita as palavras. É o sentimento de estar fora do normal que motiva a escrever, a sensação de que algo não está no seu devido lugar, a impressão de que batendo nas teclas ou lentamente marcando o papel com a tatuagem da caneta as marcas, euforias e as dores sairão de nós e se transmitirão a eles. Tatuados eternamente com a marca de nossas palavras.
Desaprendi a ter crises. Desaprendi a questionar. Desaprendi a escrever. Não sei mais manejar as palavras, não consigo mais fazer com que elas fluam ao meu modo quando fazia enquanto a raiva tomava conta de mim, ou a saudade, ou a solidão. Só consigo diagnosticar que estou feliz.
E quem sabe só conhecemos poetas tristes por não haver termos suficientes para descrever a felicidade.

terça-feira, 15 de março de 2011

A Mochila

A mulher na minha frente estava com a mochila aberta. Hoje, no ônibus, ela se perdia nos pensamentos e a única coisa que não enxergava  - ou que não via, pois não conseguia imaginar que ela enxergasse algo - era aquele zíper aberto que deixava à mostra uma parte das suas coisas - e parte da sua ferida também. Lembrei imediatamente do que uma vez contou Carpinejar, ao falar do sofrimento da mãe logo após o abandono do pai, quando ela saiu com um pé de cada sapato e caminhou por horas com o pequeno e ele, angustiado com os diferentes pares e sem saber exatamente se diria à mãe que ela havia se enganado na hora de se calçar, permaneceu calado. Fiquei igualmente calada enquanto via a parte exposta daquela mulher, que também segurava o seu filho pela mão. Não consegui esboçar uma reação, não consegui tocá-la, não consegui avisar que ela havia cometido um pequeno descuido - que me pareceu uma demonstração clara de 'não perturbe'. Ela encostava o filho no peito e apontava, com o olhar perdido, coisas que nem ela enxergava, talvez tentando evitar que os olhos do pequeno se encontrassem com os seus. Às vezes deixamos parte de nós mesmos para fora como grandes feridas expostas e nem percebemos que as exibimos tão claramente como essa mulher se mostrava hoje. Os pequenos descuidos, as bolsas abertas, os livros caídos, os anéis e os olhares perdidos são, para mim, são a expressão desesperada de quem diz em silêncio "me ajude, me perdi em mim mesmo".
Ela pode ter descido do ônibus e nada ter realmente acontecido. Ela pode ter se atrasado. Ela pode ter pego um casaco na bolsa para entregar ao filho e, dispensando atenção a ele, esqueceu de fechá-la. 
Mas ela pode também ter dado esse sinal quase imperceptível, essa mostra de desespero e desapego de quando nada mais faz sentido. Não importa mais se perdermos os pertences pelo caminho, se deixarmos as carteiras e os documentos espalhados pelo meio da rua, nada mais importa quando o olhar e o coração se perdeu. E o nosso coração sempre faz questão de dar um sinal quando tudo dentro de nós está perdido.
 Até que alguém, quem sabe, nos reencontre e nos reorganize. Alguém que nos faça dar bola novamente aos fechos da mochila. Alguém que feche, bem fechado, o zíper doído e muitas vezes emaranhado do coração.


domingo, 13 de março de 2011

Confissões do Amor Distante

É fácil conviver com alguém. Dividir a casa, compartilhar os móveis e a vista do céu estrelado que a posição da cama proporciona. É fácil esperar para ler o jornal, recolher duas em vez de uma toalha no banheiro, assim como é fácil ter alguém para lavar dois pratos na hora do jantar. É relativamente fácil dividir uma casa e, muito mais do que dividir as contas e as tarefas, dividir os planos e os sonhos, a intimidade e dividir o sono. É quase fácil entrar em consenso nos móveis, é quase fácil ser feliz o tempo inteiro. É fácil se acostumar a encontrar uma luz acesa e um agrado ao chegar em casa, é facílimo se divertir e se deliciar com uma vida a dois.
Difícil é se acostumar com a ausência de quem se ama. Difícil é não sentir falta das roupas esparramadas, do lado da cama preenchido, do barulho logo cedo, que vai fazer falta a semana toda. Difícil é não se sentir metade, quando claramente falta outro pedaço. Difícil é entender que é só uma semana, que logo logo passa e que o amor volta pra casa, enchendo de luz a casa que fica cinza enquanto ele se vai. A nossa casa só faz sentido quando é preechida de amor. Não importa onde estivermos, nem com quem, nem como. Não importa se está pronta ou sendo lentamente construída. Não importa se já tem sala de janta ou estantes suficientes. O amor é que deve se fazer presente em todos os ambientes, em cada uma das caixas abertas, em cada dos móveis escolhidos, em cada das comidas preparadas. O amor é que faz a casa da gente ter sentido, ter ar, ter chão.
Sinto que meu coração morrerá sufocado ao longo da semana. Sufocado de saudades, sem o ar que só o amor poderá me devolver.
Esperarei ansiosa pelo final de semana e deixarei, propositalmente, as coisas esparramadas para que o amor refaça minha trilha e organize minha pequena bagunça como só ele é capaz de fazer.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Be My Baby




:D

quinta-feira, 10 de março de 2011

Rock'n Roll Lullaby


"And she'd sing
Sha-na-na-na-na, na-na-na-na
It'll be all right
Sha-na-na-na-na, na-na-na-na
Just hold on tight
Sing it to me, mama
My, my, my, my, mama
Sing it sweet and clear
Oh mama, let me hear
That old rock and roll lullaby..."
Eu poderia dizer que sinto falta das coisas que vivi. Eu sei que depressão e saudosismo causam mais vontade de ler e mais curiosidade do que uma felicidade aparentemente sem razões. Poderia ouvir mais uma vez a música que estou ouvindo agora e dizer que me identifico com o Roberto Carlos desejando sentir "você bem perto de mim, outra vez". O problema - ou solução, como preferir chamar - é que não há ninguém de quem sentir saudades. Não há nada que eu queira reviver. Hoje me parei a pensar nos casos da vida, nos meus amores, nas minhas histórias, e eu relembro tudo de uma forma tão doce, tão serena, que eu não vejo fundamento algum de querer viver novamente nenhuma daquelas sensações. E hoje me encontrei absolutamente satisfeita com a vida que eu escolhi, com a felicidade que construi. Construi algo tão sólido, tão delicioso e sublime que me completa e que preenche todas aquelas lacunas que eu vivia acreditando serem impossíveis de serem completadas. Construi, com meu coração e minhas duas mãos, uma felicidade tão verdadeira que me fez esquecer as angústias que me tomavam. 
Sei que tristeza faz sucesso. Sei que quem ainda acompanhava o meu blog deve ter perdido muito do fôlego por me ver feliz. É muito bom escrever com raiva, é muito bom escrever triste, angustiada e deprimida. Mas eu não me sinto deprimida. Não sinto, nem de longe, nada que pareça com qualquer um desses sentimentos. Só tenho a pedir desculpas, então, pois a minha felicidade é sincera, leve, daquelas que não incomoda e que tenho certeza que não vai acabar tão cedo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

para as paredes 006 - bailes

Como a vida é bela e como as coisas se encaixam sempre perfeitamente. Não cansarei nunca de me admirar com a beleza e com a maestria com que o mundo se guia e acaba nos guiando. Bailamos junto o baile da vida, bailamos no ritmo do universo as músicas que ele dita com os poucos passos que escolhemos e sabemos dançar. São muitas as chances, muitos os tons, as melodias, muitas as vozes que entoam os cantos e muitos os balés que dançamos vida afora - algumas vezes escolhidos por nós, muitas outras mais escolhidas pelo mundo que nos rodeia. Mas acontece que, quando nos deixamos levar pela música que a vida escolhe para cada um de nós, somos sempre surpreendidos. E (quase) sempre para melhor. Nunca poderíamos acreditar que acasos que pareciam tão desconexos se uniriam de forma tão sutil e ao mesmo tempo tão firme nas valsas e nos bailes da nossa jornada. É muito maravilhoso se deixar levar pela música. É um presente aprender a ouvir e a dançar conforme o som que toca, sem exigência de par, de iluminação, de confete e serpentina ou de banda a tocar o que desejamos bailar. É maravilhoso olhar para trás e ter a sensação aliviada da decisão acertada, de ter orgulho de cada uma das pequenas construções diárias.
Acho que nunca cansarei de me fascinar, de me pegar abobada com a perfeita condução que a vida mostra enquanto nos atira pelo salão, ora aqui, ora lá. Nunca cansarei de agradecer à vida pelos bailes inesperados que me deu e pelas felicidades imensuráveis que cada um deles me proporciona a cada dia.
Talvez seja o carnaval que me faz pensar na vida como música, como um baile. Talvez seja o batuque da avenida, o clima carnavalesco, a festa da época, ou talvez seja apenas mais um momento de estalinho. Talvez a vida me arraste mais uma vez para um ritmo que nunca soube dançar, mas ela é ao mesmo tempo tão magnífica que me oferece a oportunidade de aprender a coreografia enquanto me preparo em um cantinho do salão. Para algum dia, quem sabe, ser digna de brilhar no meio do palco, cheia de orgulho e da experiência que só as danças inesperadas podem nos trazer.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Isso

Isso que não tem nome é o que me move. Isso, tão indefinido quando a determinação que recebe mas internamente tão delimitado que não sobra espaço para dúvidas. Não sei dar outro nome a isso, a não ser isso. Não há significações suficientes nem correspondências das quais pudesse me apropriar para designar o devido nome e a devida importância ao que sinto, às proporções que isso toma dentro de mim, não somente fisicamente, mas sentimentalmente, é como um novo sabor de amor, de prazer, cuidado, saudades, um misto indissolúvel de diversas sensações que culminam n'isso'. Chamar de isso pode significar que nada signifique, mas também pode significar tanto, mas tanto, que não tenhamos palavras suficientes nem adequadas para descrever o que sentimos. Sinto, simplesmente, isso. Dentro de mim.

quarta-feira, 2 de março de 2011

para as paredes 005

Eu me sinto muitas vezes perdida. E acho que não estou sozinha. Encaro as pessoas nas ruas como se todas estivessem em busca de algo, como eu passo os meus dias inteiros à procura dos itens que ainda faltam, dos móveis que não foram escolhidos, dos lugares onde não sei bem como chegar e muito menos como voltar. Mas não é quando me perco das ruas ou dos móveis ou das chaves da casa que eu me desespero, nem é nesse momento que me atrevo a olhar para os outros buscando neles a mesma apreensão que encontro em mim. Penso que não estou sozinha, tento me consolar acreditando que não estou sozinha quando me sinto perdida dentro de mim mesma, quando não encontro muito sentido nas coisas que eu faço nem nas experiências que eu vivo. Faço tudo em nome do amor, mas o amor sobrevive da dúvida e essas dúvidas algumas vezes não me deixam ficar em paz enquanto cato nos olhares estranhos o mesmo distanciamento que algumas vezes encontro quando me vejo no espelho. Mas essa dúvida me perde e me acha, me faz reencontrar as chaves na bolsa, o mapa da cidade, o caminho de casa, a mobília faltante. Essa dúvida aquece meu coração e me traz de volta para mim, cada uma das vezes em que me perco. É como uma mão invisível que consegue me resgatar de mim mesma, de cada um dos labirintos que o medo é capaz de criar. Essa dúvida, que me consome e me alimenta.

De todas as dúvidas que constroem meu amor, minha única certeza é a felicidade.

terça-feira, 1 de março de 2011

Pause

Algumas vezes eu consigo silenciar o que me rodeia. Foi o que aconteceu hoje. Era tanta, mas tanta bobagem que eu consegui, por um pequeno e contente espaço de tempo, tornar mudo tudo ao meu redor. Ou me tornar surda, como preferir enxergar. Algumas vezes eu consigo pausar o tempo e flutuar num pequeno instante, por mais efêmero que ele possa ter sido, fazer com que possa ser saboreado um pouco mais, com maior intensidade, por um pouquinho mais de tempo. Mas eu não consigo trazer ao meu redor o brilho das pessoas que eu amo e que me fazem falta todos os dias. Não consigo silenciar o exterior e apenas maximizar o volume daquela risada saborosa e daquele abraço amigo que me aguardava todos os dias. Não consigo voltar no tempo nem pausar os pequenos instantes já vividos e fazer com que eles me acompanhem sempre, aonde quer que eu vá. Não consigo suprimir a minha tristeza com a alegria dos momentos já vividos, das lembranças que eu carrego e com a certeza do amor que eu certamente cultivei. Esse amor me faz falta e me dói todos os dias.
Algumas vezes eu consigo pausar a mim mesma para saborear o que me rodeia. O que eu não consigo, infelizmente, é pausar dentro de mim o sentimento de saudades e de falta, daquela falta cotidiana, que me fazem as pessoas que eu amo. E que me amam de volta. E que certamente teriam dado muitas risadas de tudo o que aconteceu hoje. Elas riem, dentro da minha memória e do meu coração. Eu quero sorrir, mas a distância abafa o sorriso e o som se cala diante de tanta estrada.
Sinto falta de todos os dias que ainda não vivi.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Domingo

Corre o vento. É domingo. Brilha o sol.
Vou passear com meu amor.
Como é bom ver os dias por outro ângulo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Lanterna dos Afogados



"E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar..."

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Maioridade Sentimental

Sempre imaginei que, ao fazer dezoito anos, teria as condições e a vontade para sair de casa. Imaginava que na data eu já teria um emprego fixo, apartamento encaminhado, móveis novos e um guarda-roupa cheio de novos sonhos para me vestir. Assim como a maioria dos adolescentes, me enganei. Pensava que no dia em que eu completasse dezoito anos, iria correndo encher a cara, afinal agora já era permitido beber - e não bebi nenhuma gota. Imaginava que no outro dia já estaria nas aulas de direção para a cobiçada carteira de motorista - que não tirei até hoje. Tinha a certeza que iria para alguma festa, para poder mostrar a todos que eu já era maior de idade e não era mais ilegal sair à noite - e ninguém nunca pediu a minha identidade.
Hoje tenho dezenove e meio e finalmente sinto como se estivesse fazendo dezoito anos. Estou saindo de casa, arrumando as últimas coisas para amanhã e olhando nostalgicamente para as paredes que me guardaram nos últimos dez. Estou fazendo as bolsas e curtindo a que pode ser a última tarde de adolescência, o dia inteiro no computador e a música alta com a mãe batendo à porta para pedir que eu diminua o volume do som. Hoje tenho que me preocupar com as contas, com os novos móveis da casa, com as compras que ainda faltam, com o carro que ainda não saiu, com o maldito vizinho que estaciona o carro na minha vaga, com quem vai me ensinar a fazer canjas quando eu precisar. Vão ficar aqui os meus bichos de pelúcia, a minha colcha da Mônica, a minha cama de solteiro, as conchinhas que eu catava quando era criança, a ampulheta que eu virava o dia inteiro quando tinha doze anos. Mas, mais do que isso, vão ficar guardados aqui os momentos mais importantes da minha vida, as coisas que eu nunca valorizei o suficiente e as coisas que eu valorizei como mereciam.
Só completamos dezoito anos quando conseguimos criar coragem para virar as costas para a nossa casa, para o nosso quarto, para (re)fazer uma vida inteira num novo lugar, com uma nova pessoa, sem aquelas pessoas que foram sempre referência na vida. 

Finalmente cheguei aos meus dezoito anos. E desejo mais do que nunca voltar aos quinze.
Só quero o colo da minha mãe e ter hora marcada para voltar pra casa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Janela

Poderia ir a qualquer lugar. Poderia fechar o que restou das bolsas ainda desorganizadas pelo chão dos últimos tempinhos do nosso espaço aqui e me contentar com qualquer outro lugar. Poderia ser feliz em quase qualquer circunstância. Só faço uma pequena exigência, mesmo sem conseguir exigir. Queria poder levar a janela. É, os vidros e as nuvens que a preenchem todos os dias pelo lado de fora e que sempre me preenchiam de felicidade por ter um observatório particular. Assim como a criança faz manha para ganhar o brinquedo ou o doce ou o salgadinho ou o colo dos pais durante o passeio na Avenida, eu queria fazer manha para carregar a janela. Queria que ela fosse comigo, para que eu não me sentisse assim tão longe de tudo nem tão triste por abandonar uma das coisas mais gostosas do meu dia. Mas vou a qualquer lugar, não sou criança teimosa. Vou mesmo, apesar de deixar, a cada novo dia, crescer a saudade daquela janela que me acordava com algodão enfeitando os olhos.

Mas um dia eu volto. E aí me atiro no chão. Vou aprender a ser criança teimosa e ter, someday, minha janela de volta. Quem sabe em outra janela ou em um novo lugar, mas ainda assim uma para chamar de minha. Para acreditar que o céu é todo pra mim e que as nuvens só se desenham para me acordar. Bem bonitas, como me acordaram hoje. Pela última vez.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Estrada do Sol

"É de manhã, vem o sol
Mas os pingos da chuva que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre que me traz esta canção

Quero que você me dê a mão
Vamos sair por aí sem pensar
No que foi que sonhei
Que chorei, que sofri
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão vamos sair
Pra ver o sol"


(Dolores Duran e Tom Jobim)

Poesias

Hoje eu queria te escrever uma poesia. Eu não nasci com o dom de ser poeta, mas eu sei exatamente o que eu gostaria de te dizer. Queria te dizer que a minha inspiração é teu toque, teu cheiro, meu arrepio, tua pele, meu suor, teus lábios, a carne macia da tua língua e o sabor das minhas unhas esfregadas na tua barba. O cheiro das roupas espalhadas, o cheiro de casa, de creme, de uvas, de cama, do amor. O sabor do ventre, das bocas,  dos pés e dos olhos, da respiração úmida e do beijo ofegante. Minha inspiração é o meu desejo de me tornar melhor a cada dia para te surpreender. O que me reinventa a cada manhã é a certeza de poder me tornar uma nova mulher ao despertar; o que me faz adormecer tranquila é a felicidade de ser livre para viver verão, outono, inverno e primavera num só dia. Sou tua mulher inconstante, e a constante da tua presença mesmo diante de toda minha impermanência é o que me inspira e me faz te escrever sem que eu saiba direito onde chegar com tantas sensações perdidas e reencontradas sem alguma lógica. Talvez porque o amor não tenha mesmo lógica alguma, seja sempre esse emaranhado de sentimentos e furtos e incompreensíveis sentidos aparentemente desconexos mas no fundo, bem no fundo, conectados por um único e grande desejo denominado amor.
Gostaria de te escrever uma poesia. Sei te escrever tudo o que em ti me inspira, sei te descrever em tudo o que me encanta, sei te admirar a cada dia sob uma nova perspectiva. Mas não sei rimar. E, quem sabe, poesia não seja necessariamente a rima. Poesia talvez seja mesmo esse emaranhado de palavras - que não colam, não batem, não rimam - ordenadas e dispostas de acordo com um único ritmo: o tum-tum do meu coração. Coração que bate forte.
Que não sabe te escrever poesia.
(Acho que com meus tum-tum acabo de te escrever uma música)



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Mais uma vez, A carta

Engraçado uma música que faz lembrar diferentes fases, diferentes épocas e sentimentos. Engraçada essa música que, quando toca, parece abrir uma caixa sem fundo de memórias empoeiradas e misturadas, sem data, sem nome, sem lugar. Essa música é "A Carta", do Erasmo Carlos, que já repeti no mínimo uma meia dúzia de vezes aqui e que poderei passar o resto da vida repetindo e lembrando, a cada vez, de algum momento diferente. É incrível pensar que uma música resistiu ao tempo, aos amores, às decepções e se perpetuou como um hino de lembranças - boas, ruins e indefiníveis -, sem que ficasse presa a um rosto ou a um nome. Ao ouvir, consigo lembrar de mim em vários momentos, consigo sentir o coração doer ou se alegrar, mas não consigo conectar sua melodia a alguma das faces que passou por mim. Talvez seja por isso que ela se mantém na minha lista, talvez seja por não ter rosto, nome, lenço nem documento, que ela continue sendo repetida e repetida e motivo de despertar tantos momentos e aquela sensação de estar viva. De já ter vivido. De estar melhor.

"do sempre, sempre teu..."
É bom ver que temos amigos. É bom ver que a nossa felicidade é também a daqueles que nos querem bem. É bom trazer boas notícias a quem nós amamos.
Prevejo um final de semana ensolarado de felicidades.
Das sutis, das verdadeiras.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Stop Crying Your Heart Out

Get up
Come on
Why you scared?
You'll never change what's been and gone

'Cause all of the stars
Are fading away
Just try not to worry
You'll see them some day
Take what you need
And be on your way
And stop crying your heart out

(Oasis)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Mãos

Tuas mãos gesticulam de forma engraçada. Pressiona os dedos e tenta apalpar as palavras que te fogem da boca enquanto conversas comigo. Tua aliança salta do dedo com o polegar apoiando por baixo, como eu já te fiz perceber antes. Tuas mãos voam destinos, voam livros, contam histórias. Tuas mãos me contam muito mais do que tua boca poderá algum dia dizer.
Tuas mãos se rendem ao toque leve dos meus dedos, adormecem quando eles passeiam vagarosamente saboreando cada esquina da tua pele e das tuas unhas. Me seguram a cintura, me acariciam o ventre e invadem timidamente o meu umbigo. Me perfumam, seguram os meus cabelos, massageiam e desvendam a minha pele e os segredos que ainda guardo para serem revelados a cada encontro sutil e desejado das tuas com o meu corpo.
Tuas mãos encontram as minhas nos momentos mais raros. Tuas mãos contam comigo os dedos que virão, apontam as estrelas e a ponta do meu nariz. Tuas mãos me dizem aonde ir. Tuas mãos me levam contigo aonde quer tu vá.
Tuas mãos são a minha certeza da felicidade. O guia perfeito de um caminho junto com as minhas.

"Me dê a mão
vamos sair por aí
sem pensar no que foi que sonhei, que chorei, que sofri
pois a nossa manhã
já me fez esquecer
me dê a mão
vamos sair pra ver o sol
o sol
o sol..."

te amo.

P.S. texto pensado e escrito a quatro mãos. E um coração a 160 bpm.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Moving

Mudar é sempre um saco. Mas é a oportunidade de poder recomeçar em um novo lugar, novos ares, novas pessoas e coisa e tal. Quando tudo se arranjar, eu volto para publicar os rascunhos que deixei pra trás nesses dias.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pequeno Detalhe

Quando não estás, fico cercada de ti. Nas músicas, no pensamento, no cheiro da cama e das roupas, no rastro das camisas dobradas em cima do sofá, na caixa de lápis de cor com as tuas cores favoritas espalhadas fora da embalagem, na pilha de livros que se amontoam em torno do meu computador e na nossa mesa, sobre o som, sob a mesa, sobre as folhas e os fios. Por sinal, foram os livros que me fizeram escrever hoje. Esses livros abertos, dispostos desordenadamente sobre todas as nossas coisas são o pequeno lembrete que me deixas a cada vez que és obrigado a sair de madrugada para enfrentar mais uma das viagens que nos desagradam tanto. São os pequenos detalhes da nossa vida cotidiana, das páginas ainda não devoradas, dos trechos ainda não riscados, das obras ainda inacabadas, dos sonhos ainda esboçados, da vida construída dia-a-dia na simplicidade de um marcador de página feito de controle remoto ou de papéis dobrados ou notas de supermercado - ou toda a sorte de utensílios que são dispensados para essa finalidade, basta para isso caírem na tua mão. Contei vinte e seis livros e uma infinidade de marcadores improvisados. Li cada uma das vinte e seis páginas que ficaram por terminar. Não tive coragem de mover nenhum deles do seu lugar. E finalmente pude perceber que somos um marcador do outro. Improvisados, como o controle do aparelho de dvd que divide grosseiramente as páginas de um dos teus (tantos) Alexy.  Mas marcadores, ao relembrar um ao outro de onde continuar essa história a cada dia, marcadores ao permitirmos dividir as muitas cenas de uma mesma história, marcadores por permanecermos dançando - juntos - pelas páginas dessa vida inacabada.
Descubro um pouco mais sobre nós cada vez que sou obrigada a encarar sozinha esse que é o nosso lugar. Revelo em cada cantinho pequenas pistas, pequenas marcas deixadas ao acaso, pequenas demonstrações dessa vida a dois. Roupas dobradas do teu jeito, as toalhas penduradas, a vela aromatizada que acendi hoje para aliviar a saudade daquele final de semana às escuras, bilhetes, o casaco despretensioso no encosto da cadeira, a caixa de cereal e a embalagem do leite que te aguardam pela metade até a sexta-feira. Assim como eu. Pela metade nessa casa. Inteira nessa história. Dividindo sonhos, teu marcador.


Os teus livros dizem para mim: espera amor, eu estou voltando para terminar de ler as páginas que marquei.
Eu digo para ti: volta logo amor, para terminar de me escrever.
Tenho mil páginas em branco e um coração preenchido de sonhos.

felicidade

Não faz quase nenhum sentido que agora que eu estou bem eu quase não tenha vontade de escrever. A escrita me motiva quando preciso desabafar, quando angustio, choro ou quase morro. Pouco me serve descrever a felicidade, já dizia Tolstói que "todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira". Talvez seja por isso que minha criatividade esteja mais parada do que nunca. Talvez seja pela sensação maravilhosa de completude que vem me invadindo lenta e gradualmente nos últimos tempos, aquela sensação de que tudo está dando certo e se encaixando, que as coisas funcionam e que a vida é realmente maravilhosa. Talvez seja essa tal de felicidade mesmo.
Quando tudo deixar de ser um grande segredo, abrirei um refrigerante para comemorar e compartilharei minhas alegrias. Um diário de bordo da felicidade. Afinal, é assim que venho me sentindo diariamente. Feliz, serena e completa. Mesmo que sem ter nada muito importante para escrever.

sábado, 29 de janeiro de 2011

To Zion

"Unsure of what the balance held
I touched my belly overwhelmed
By what I had been chosen to perform
But then an angel came one day
Told me to kneel down and pray
For unto me a man child would be born
Woe this crazy circumstance
I knew his life deserved a chance
But everybody told me to be smart
Look at your career they said,
"Lauryn, baby use your head"
But instead I chose to use my heart

Now the joy of my world is in Zion
Now the joy of my world is in Zion

How beautiful if nothing more
Than to wait at Zion's door
I've never been in love like this before
Now let me pray to keep you from
The perils that will surely come
See life for you my prince has just begun
And I thank you for choosing me
To come through unto life to be
A beautiful reflection of his grace
See I know that a gift so great
Is only one God could create
And I'm reminded every time I see your face

That the joy of my world is in Zion
Now the joy of my world is in Zion
Now the joy of my world is in Zion
Now the joy of my world is in Zion

Marching, marching, marching to Zion
Marching, marching
Marching, marching, marching to Zion
Beautiful, beautiful Zion"


(Lauryn Hill)

P.S.sempre quis poder dedicar essa música.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Cheiro

Adoro ser acordada de manhã com o cheiro leve do sabonete de uva que perfuma a casa inteira quando ele sai do banho, depois de ter pulado da cama dez minutos mais cedo só para poder se arrumar sem atrapalhar o meu tempo. Adoro os inícios de manhã com o sol encoberto pelas nuvens de algodão-doce lilás que logo dão espaço ao céu alaranjado que observo pela fresta da janela que fica sempre aberta. Adoro chegar na cidade quando ela ainda desperta e os barulhos vão crescendo gradualmente, como se uma fina camada de preguiça fosse evaporando e dando lugar ao perfume do pão quentinho e aos movimentos de um centro que começa a dar os ares do trabalho. Adoro o barulho metálico que rasga o canto dos passarinhos no meio da praça quando as lojas abrem, adoro os minutos que ainda restam de silêncio na rua movimentada que dá para a minha janela, adoro a sensação de friozinho do início da manhã.
A única coisa que não gosto é o cheiro de combustível que vai substituindo o cheiro fresco da grama ainda molhada, esse cheiro que vai sufocando o respirar e tensionando a rotina. O cheiro de cidade. O cheiro que me lembra que o melhor perfume é o despertar de uva e pão. Que me faz agradecer por ter alguns minutos para devorar o algodão-doce do meu céu.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

No Recreio


"Só é possível te amar..."
(Composição do Nando Reis, interpretação da Cássia Eller)

Poemas Diversos

Tem aquele poema do Paulo Leminski que começa dizendo que nascemos em poemas diversos, e que o destino quis que a gente se achasse. E nascemos em poemas diversos, nos livros mais distantes, passamos por muitas outras histórias para chegarmos onde hoje estamos. Somos como as poesias que encerram os livros, só que sem a minha mania de ler de trás para frente, fui obrigada a esperar passar os dedos sobre todas as poesias anteriores, seus dedos manchando, dobrando e rabiscando as folhas com aqueles traços tortos e característicos, chaves e comentários, remissões, aprendizados e viradas de páginas. Passei pelo mesmo ao encontrar contigo. Deixei passar por mim os mais diversos poemas, dos mais apaixonados aos dramáticos, dos cômicos aos trágicos, sempre sem riscar as páginas, com minha mania de nunca dobrar uma folha para me obrigar a reler a obra inteira na busca de uma única passagem; deixei passar por mim todas as poesias a que poderia ter me agarrado com as duas mãos. Passamos por muito e hoje nos encontramos aqui. Na mesma estrofe, mesmo verso, mesma frase. E "mistas, a minha, a tua, a nossa linha". 

És o último dos poemas. E creio que o autor tenha, realmente, deixado o melhor para o final.

Música para cortar o coração

"Nunca pensei um dia chegar
E te ouvir dizer:
Não é por mal
Mas vou te fazer chorar
Hoje vou te fazer chorar

Não tenho muito tempo
Tenho medo de ser um só
Tenho medo de ser só um
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar

Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais

Deixei que tudo desaparecesse
E perto do fim
Não pude mais encontrar
O amor ainda estava lá
O amor ainda estava lá

Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais"

Uma música que fala de morte mas me lembra de alguém vivo. O único assunto que me recuso a falar aqui.
Faz um tempo eu quis fazer uma canção pra você viver mais (pelo menos dentro do meu coração).

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Frase Acidental

Dei de cara com uma frase do Saramago agora, enquanto cavava algumas para alimentar o hábito incansável da minha agenda preenchida de ilustres e me parei a pensar numa porção de coisas. Como quando nos decidimos a fazer (ou não fazer) algo, não adiantam justificativas, das plausíveis às absurdas, que nos façam mudar de ideia daquilo que, bem no fundo, já escolhemos fazer.
Alimentamos pretextos, falsas prerrogativas que justifiquem as nossas intenções mais injustificáveis. Mentimos para nós mesmos buscando enganar os outros e fazê-los crer que não escolhemos verdadeiramente o que estava já há muito escolhido. Minha decisão já foi tomada há tempos. Agora encontrei os motivos perfeitos para justificá-la.

"De que adianta falar de motivos, às vezes basta um só, às vezes nem juntando todos." (José Saramago)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Com carinho, fulano

Mais do que uma questão de respeito e bom senso, deveria ser proibido ler as dedicatórias dos livros dos outros. Desrespeito a isso deveria ser caso de polícia. De pedir indenização por danos morais. Prisão perpétua. Pena de morte. As dedicatórias são as poucas linhas de muitos sentimentos que não foram escritos, são sentimentos exteriorizados com uma assinatura, sigla ou letra indecifrável que deveria ser inacessível a um terceiro. Dedicatórias são as cartas que não foram enviadas, os "eu te amo" silenciados, as piadas íntimas. Invadir a dedicatória do outro é mais grave do que violar a sua nudez mais pudica.
Certa vez não resisti à curiosidade de uma letra num fundo vermelho. Foi caso de prisão perpétua, caso de morte: para mim. Morri de ciúmes, nas entrelinhas daquelas palavras rabiscadas e das palavras sem sentido senão para aquele a quem elas foram endereçadas, se confessavam sentimentos e intenções e se escondia o remetente dos terceiros curiosos através de uma assinatura ininteligível; morro na minha prisão perpétua, ao relembrar aleatoriamente daquele papel grosso e vermelho riscado com força, na demonstração de uma vontade que eu nunca compreenderei bem qual era. Confessei meu crime e fui absolvida. Ouvi uma história, o presente, o contexto, o remetente, a assinatura. Mas de (quase) nada adiantou. A memória de invadir algo que não deveria ter feito, encontrar algo que não queria ter visto e aquela assinatura com um ponto perfurando o papel cartão, mesmo que não significasse mais nada, para mim era uma assombração de uma derrota perante eu mesma.
Hoje fujo das dedicatórias alheias.
E, só para constar, não empresto livros com dedicatórias. Já dizia a minha vó: curiosidade mata.
Minhas dedicatórias são o secreto da minha biografia.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Pequenas Sensações Cotidianas

Algumas sensações invadem nosso cotidiano de forma quase imperceptível mas, ao mesmo tempo, de um modo que alteram completamente o dia, o jeito de ver as coisas, as pessoas, de enxergar o mundo. Hoje tive que descrever uma das coisas que mais gosto no meu trabalho; percebi que, em todas as pessoas com quem convivo, gosto de coisas que não as mais óbvias. Gosto da risada de uma das minhas chefes: é leve, gostosa, parece uma gargalhada de criança, é um dos melhores sons para se ouvir durante o dia, forma quase uma melodia com os carros passando com seus motores rosnando em bom tom. Gosto do cheiro de esmalte que invade a sala quando outra delas sempre traz uma novidade para experimentarmos. Gosto do tom sereno como uma delas fala; gosto do rosto de saudade de quando uma conta dos seus sobrinhos e da irmã que mora longe. Gosto do barulho do salto alto em contraste com as teclas que digitam manhãs inteiras. Gosto do cheiro do café que perfuma a cozinha bem cedo, logo quando chegamos, e promove sempre o primeiro assunto do dia... "Quem vai querer café?". Gosto da voz nasalada e do jeito que lembra muito a minha dinda; gosto dos antúrios e os cactos que ficam perto das poltronas que pegam sol através das telhas de vidro. Gosto do cheiro do sabonete líquido, sempre o mesmo cheiro, sempre a lembrança da água gelada escorrendo pelos pulsos nos dois ou três minutos em que me tranco no banheiro quando o cansaço bate forte.
Saio do trabalho e experimento talvez a melhor sensação do dia quente no centro da cidade: sento durante um ou dois minutos na beira do lago com um chafariz, no meio da praça, no meio do centro, no meio de tudo, fecho os olhos e deixo que a água seja borrifada lentamente pelo vento nas minhas costas, no meu rosto, nos meus braços meio ardidos pelo caminho pouco protegido do sol do meio-dia. Chego em casa e gosto de tirar os sapatos, gosto de sentir o piso frio da casa fechada; corro para a cozinha, ouço o ranger das portas do armário meio velho, abro a geladeira sem procurar nada específico, é pelo puro prazer do gelado nos pés com o gelado no corpo. Deito no sofá, nada mais delicioso do que um sofá gordinho de almofadas para nos recepcionar depois de uma manhã trabalhada e o início de uma tarde preguiçosa.
Gosto de encontrar o meu bem, me esperando em casa, cheiro sua pele e desvendo nos seus dedos tudo o que tocou durante o tempo que estive ausente. Meio maluco, mas gosto das impressões que o olfato nos permite, dos registros que as mãos fazem, muitas vezes apenas pela delícia de tocar. Gosto do jeito como ele segura a aliança, firmando o polegar por baixo, fazendo o anel saltar por cima do dedo marcado de compromisso. Gosto das golas das camisas, sempre esgaçadas (ou seria esgarçadas?, não sei) e com um cheiro inconfundível. Gosto da barba por fazer, do barulho que as unhas fazem ao percorrê-la. O cheiro da comida. 
Descrevo minha rotina sob outra perspectiva, meu cotidiano com outros olhos.
Descubro o novo no velho, o prazer na rotina, o amor na simplicidade de um abraço no último gesto da noite. Teus braços, sempre me esperando abertos para que eu possa dormir tranquila. Lá se conjugam o riso, o banho de chafariz, o perfume, o cheiro, a unha, a barba, o esmalte, o café, o gelado, os estalares, a doçura, o açúcar, o afeto.
E encontro, em cada dia, uma nova delícia diante dos mesmos verdes olhos.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Coberta de Lã

"Não é um jantar iluminado, não é o cinema de mãos dadas, não é sentar na praça observando os aviões recortando as nuvens enquanto as crianças buscam enrolar as correntes do balanço no arco com pulos cada vez mais altos.
Não é o medo de perdê-la para outro homem. Nem o medo de me perder par aa infância. O amor se resolve na banalidade. São os cílios, os farelos, os botões, os brincos, os cabelos que não enxergamos cair no chão. São as quedas mudas, as gentilezas brandas, o costume silencioso de seguir procurando um ao outro mesmo depois do casamento.
Minha mãe, por exemplo, antes fazia a bênção em minha testa quando pequeno, nas saídas de madrugada paraa escola. Hoje ela faz questão de abrir e fechar o portão ao partir de sua casa. Tenho o controle, mas ela não me permite. Apertar o botão vermelho é seu jeito de continuar mantendo o sinal da cruz. Agora no rosto da estrada. Com as grades levantando lentamente.
Sei que você me ama quando deito no sofá para assistir televisão. Estou sozinho, desmantelado, nem escuto o que vejo, pouso em um canal, estável, deitando a cabeça no encosto duro. A altura desajeitada, imensa, mal cabendo naquele engradado de molas. As pernas balançando perto do abajur.
Não conversamos, suspiro sem cópia carbono. É nesse momento em que não estamos juntos que nos amamos. Porque não a vejo provando que me ama, nem me vejo confirmando que a amo.
Vacilo as pálpebras algumas vezes até desistir. Tento comentar notícias, mas guardo para amanhã. Não tomei banho, não escovei os dentes, sentei um pouco para respirar e fiquei. Acabei de chegar do trabalho, das aulas que permaneço de pé.
Não me acorda, não me empurra a cumprir horários. Me deixa ali. Até amanhecer.
Não duvido que muitos pensem que me abandonou para desfrutar os dois lados da cama. E ler tranquila, longe da minha insistência, não precisando explicar a história do livro.
Pareço um morto. Um morto que pode nascer de novo. Um morto obediente.
O morto só será de uma mulher quando ela o velar em vida. Tenho certeza disso. Feliz da viúva que pode dizer: meu morto! Sem ter que dividi-lo. Na dor, não queremos dividir, queremos não competir com mais ninguém. A morte é a única liberdade para sofrer.
E acordo assustado, procurando fixar o horário e o dia da semana. Olhos em remela, boca em ressaca. Seca. Vejo que estou amorosamente acomodado. Diferente do estado em que adormeci.
Alguém pôs um travesseiro, alguém retirou meus sapatos, alguém me livrou do cinto. Alguém colocou uma coberta de lã para não tremer com as janelas.
Esse cobertor, não há dúvida, ainda é seu corpo."

Crônica extraída do livro "Mulher Perdigueira", de Fabrício Carpinejar. 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Outros

Um dia teu cheiro decidiu que iria me sufocar. Lentamente, os teus traços tomavam conta do armário e de todo o espaço do meu coração. Teus gostos soterraram o que me restava de mim e fui, como um processo arrastado e quase imperceptível, perdendo o espaço dentro daquilo que chamava de mim. Um dia teu coração decidiu que não viveria mais sozinho e teus passos decidiram que precisariam dos meus passos para qualquer caminhada à beira-mar. Um dia teu sono se viciou no meu. Teu corpo dependeu de mim, teu alimento, teu sono, teus planos, teus sonhos se tornaram uma extensão daquilo que antes tinha por meu; tua fome era de mim, tua sede de mim, tua vontade de mim, tuas mãos precisavam de mim, teu equilíbrio, tua força. Não sobrava quase nada para que eu pudesse dedicar àquele eu perdido em qualquer pedaço dessa conjunção. Teu corpo, teu tempo, teus dias, tuas noites, tudo me sugava e terminava com qualquer plano, sonho, desejo, vontade que eu pudesse sentir por mim.
Um dia teu cheiro decidiu que iria acabar com o meu; não suportava mais viver dividindo o corpo com outro cheiro estranho a ele. Um dia teu corpo decidiu que engoliria o meu. Teus sonhos decidiram esganar o que restava dos meus. Tuas forças acabaram com as que me sobraram. Tua vontade resolveu abandonar o teu corpo e se possuir do meu. Tuas fomes e tuas sedes só se saciavam em mim. Teus gestos não se expressavam mais no teu corpo. Tuas expressões eram formas claras de mim, teus traços se foram e se renderam a mim, mesmo querendo me dominar. Teus dedos não queriam mais te tocar; desejavam meu corpo, minhas vestes. Pensando que queria me dominar, teu eu só queria sucumbir. Não viveria mais sem mim.

Um dia juntei as malas dos meus sentimentos. Me mudei de mim.
Aqui dentro não cabíamos nós dois.

Saudades

Minhas amigas fazem muita falta. Não sei onde foi que eu perdi o contato com aquelas que estão longe, não sei onde foi que me distanciei das que estão perto. Hoje parei para ver as fotos de uma delas, mora longe, e nunca mais tive notícias. As vidas seguem rumos diferentes, estamos separadas por algumas dezenas de centenas de quilômetros, mas nenhuma justificativa é suficientemente boa para entender porque ela não está mais presente na minha vida. Algumas coisas que eu faço, talvez só ela fosse entender. Ou rir. Algumas coisas só ela mesmo achava graça. E assim cada uma das minhas amigas, particulares, especiais, diferentes. E assim nos distanciamos todas, seja pela distância geográfica ou por aquela que implantamos nas nossas convivências. Sinto falta das minhas amigas.
Parece que um grande pedaço de mim não está aqui. Parece, às vezes, que o coração vai cair do peito.
Amo vocês.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Férias!

Estou tirando férias de mim mesma: férias forçadas. Acordando muito cedo, minha cabeça não trabalha muito bem durante o dia inteiro e todas as coisas que eu penso em escrever acabam sendo engolidas pelos meus bocejos matinais e pelo cochilo da tarde. Tô desmontada. A boa notícia é que nos sábados ainda consigo ouvir Beatles, e num volume muito alto (agradecimentos ao amor que trouxe finalmente pra nossa casa um som que esbanja decibéis), ainda consigo dormir até as onze e ainda sei cozinhar e comer algo além de leite e frutas e sopas Vono (meu desagradável almoço de segunda a sexta). A boa notícia é que ainda tenho 2/7 dias para me sentir viva. A má notícia é que estou desaprendendo o português, mas pretendo resolver meus problemas, até então inéditos - com vírgulas -, em breve. Estou apaixonada por Carpinejar, ele rouba todos meus sentimentos e transforma em palavras sensíveis, doces, sinceras. Estou apaixonada por mim, já que apenas me encontro comigo nos finais de semana, diminuí assim, consideravelmente, o número de conflitos internos. Já descobri a equação: meus dois 'eu' não podem, nem devem, se encontrar. O pensador e o trabalhador devem ficar cada um no seu lado da muralha. 
Essa é a fórmula da minha (instantânea) felicidade.
Felicidade é o pôr-do-sol da minha sacada.
Felicidade é passar o dia sem fazer nada.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Temo / Te amo

Hoje é mais um daqueles dias que eu escrevo, apago, escrevo, apago e nunca consigo chegar exatamente onde eu queria chegar, nas palavras que eu queria usar, nas coisas que eu queria dizer. Tenho as ideias circulando pela minha cabeça sempre bagunçada, em 2011 usarei uma agenda para tentar acabar com essa desorganização generalizada em que se transformam os meus pensamentos cada vez que me descuido por um pequeno segundo de vigiá-los, parece que têm próprias pernas, próprias vontades e seus meios caprichosos e egoístas de me confundir e me fazer acreditar que cada um deles é mais importante do que todos os outros e que, por isso, deve ser mais destacado/valorizado/pensado/sei-lá-eu. Dá um desespero tentar organizar a cabeça e não conseguir, mas já houve um grande avanço nesse ano que se encerra: em 2010 organizei os meus sentimentos. Coloquei nas gavetas certas as vontades, os ímpetos, as certezas e consegui, inesperadamente, vencer alguns dos meus medos e dos meus determinismos - com eles comecei a escrever, umas duas ou três vezes, o texto de hoje, pensando que consegui vencer as coisas que eu acreditava que determinavam a minha vida, quando na verdade a única coisa que determina a vida, descori tardiamente, é a minha vontade -, consegui vencer a mim mesma e nada melhor do que a sensação de vitória e derrota ao mesmo tempo, nada melhor do que ser superado por si mesmo e se descobrir algo além do que se imaginava possível. Nada melhor do que a vitória e o fracasso no mesmo sentimento, na mesma ocasião, acredito eu nessa situação.
Ontem assisti, mais uma vez, O Segredo Dos Seus Olhos, e não pude deixar de perceber novamente o caderninho de Espósito, o temo anotado em letras grandes, o temo que se transforma lentamente em te amo. O temo que se divide em dois, se parte ao meio e permite à sua segunda parte mais uma letra para tornar nobre todo o seu sentido. E o não mais temo, o te amo, trasnformou todo o meu jeito de pensar o mundo e de pensar sobre mim mesma. O não mais temer fez de mim alguém mais leve, mais entregue e hoje me sinto satisfeita por saber que se hoje estou aqui foi porque eu quis e não porque tive medo de levar adiante algo que desejei ou a sensação de estar aqui porque cheguei. Estou orgulhosa por chegar ao fim deste ano exatamente onde queria estar, com todas as coisas que queria fazer; estou orgulhosa por, no fim deste ano, ser exatamente aquilo que tanto pedi para que eu pudesse me tornar: alguém que tivesse coragem de fazer aquilo que sentisse vontade. Ouvi meu coração e não me arrependo. E com certeza o mérito não é todo meu.
Por transformar temo em te amo.
Love is all, love is you.

P.S.- Em 2011, eu prometo que vou tentar ser mais gentil, mais legal e até mais simpática. Em 2011 eu até tentarei fazer alguns novos amigos.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Poesia

" Fazer as coisas pela metade
é minha maneira de terminá-las."

Fabrício Carpinejar, em Cinco Marias.

Por sinal, o blog dele aqui.
Em alguma outra vida, quem sabe, serei uma baita escritora, assim como ele.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal

Só passei para desejar um Feliz Natal. Eu adoro Natal, família reunida e a coisa toda. O que menos dou bola, de verdade, são os presentes. Os presentes são a coisa chata do Natal, é o que enche o saco, desperdiça tempo e dinheiro. Pena que só um evento assim, uma vez por ano, seja capaz de cultivar em nós a vontade de nos reunirmos, juntar a família em torno da mesa e celebrar as alegrias. Uma pena que seja só uma vez ao ano. Queria eu ver a minha família assim todos os dias.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Let's Talk About Love

Quase madrugada de uma quase segunda-feira, ao som de chuva e ao som de Chico.
Impossível não querer falar de amor.
Mas hoje as palavras me fogem e, se escrevesse, não saberia mais escrever sobre um amor genérico. Tenho um tipo de amor único que me acomete, amor primeiro em sua forma e conteúdo, primeiro em substância e primeiro em intensidade, que me mantém suspensa em um êxtase constante que já fico muda aos outros amores e às outras relações, fico muda, surda e cega aos outros amores, às outras situações, aos outros sambas que não esses que me embalam nesse sentimento que parece nunca mais ter fim, que me parece tão vasto que chego a perder de mim mesma as pontas desse amor que já se tornou um emaranhado de sensações e metáforas e hipérboles e outras diversas figuras de linguagem que me visitam desde a hora que abro os olhos e pulo violentamente da cama em busca de iniciar mais um dia até a hora em que os fecho, abraçada num coração que parece me abraçar inteira e me fazer desnortear do mundo, flutuar, little wings on my shoes, acho que agora eu sei o que a expressão gostaria de dizer. Me sinto forte e absolutamente vulnerável aos caprichos desse sentimento que agora me dita as regras, não o inverso, como me acostumei que fosse, um amor que é uma grave doença e sua cura - ao mesmo tempo -, e me faz congelar e derreter como mais uma das figuras de linguagem como esse amor se apresenta e se esconde e se metamorfoseia sessenta vezes por segundo. Tenho um amor que é impermanente dentro de sua permanência, uma apresentação inconstante da constância e coerência de um sentimento que não se esvai como a areia que escorre por entre os dedos, mas como a areia de uma ampulheta, que oscila entre os bulbos mas que se mantém sempre no mesmo vidro, contando o tempo, em movimento, em contato, em dança, em beleza, em sintonia. Tic tac tic tac tic tac. Um amor que não permanece o mesmo, apesar de no fundo ser sempre igual, um amor antitético, hiperbólico, metonímico, metafórico, paradoxal, entre tantas outras que não consigo recordar. Um amor que possui uma face nova a cada dia mas que nunca deixa de ser um "amor-pleonasmo". Se repete e repete e repete. Passado, presente e futuro dentro de sua singularidade.
Passado, presente e futuro se surpreendendo com as novas delícias de um velho amor.
Um novo. O mesmo. Um paradoxo só.

Te amo.
Sem antíteses. Sem hipérboles. Sem metáforas. Sem catacreses.
Me vejo crescendo no fundo dos teus olhos.
Obrigada por essa sensação única.

domingo, 19 de dezembro de 2010

...

"Perdoo tudo por preguiça de carregar peso."

(Ziris)

Extraído do blog (bem legal) que me indicaram, Costurando Estrelas.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Love Song For No One




Mais uma fase musical. A noite nunca foi tão vazia.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Canção Pra Você Viver Mais



"Não tenho muito tempo
Tenho medo de ser um só
Tenho medo de ser só um
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar
Alguém pra se lembrar

Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais..."
(Pato Fu)

Saudades de todas as saudades que tive. E de todas que não tive também. Como é bom deixar as lágrimas rolarem pelo rosto só pela emoção de uma música.

Marry You



Tirada do álbum perfeito pra uma noite de insônia.
(B.B.King & Eric Clapton, o álbum é "Riding With The King")

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Pequenas reflexões das três pras onze

Não, eu não sou estudante de curso nenhum. Não estou no 2º ano de porra nenhuma. Não sou gremista nem colorada. Não sou meiguinha nem lindinha nem cheia de amiguinhos. Não sou apaixonada por música. Não sou viciada em esmaltes, ou em Coca-Cola. Sou mais do que uma definição. Sou mais do que qualquer coisa que se possa colocar entre aspas. Minha criação faço eu. Nada que é de outro me determina, me define, me delimita.
Ainda bem.

"Eu era mal humorada ...
quando nasci, sou mal humorada hoje e serei mal humorada pelo resto da minha vida…que alivio!"
(Lucy Van Pelt)

Caminhos, Escolhas, Destinos Diversos

You know, nos envolvemos em diversos planos, nos cercamos de muitas certezas e pouco espaço damos à vida para que ela aja livremente pelos seus caminhos, como aquele fio d'água que vai desenhando o chão e que teimamos em desviar o curso. Mas algumas vezes é impossível impedir o destino de desenhar sua própria estrada e o que nos resta é aceitar os seus traços e descobrir que, felizmente, o caminho do tempo é muito generoso e pode ser muito melhor do que jamais sonhamos. Nos ocupamos tanto com tantos planos e metas e objetivos que acabamos esquecendo dos presentes diários que a vida pode nos dar, acabamos nos esquecendo dos presentes que o nosso próprio corpo pode nos dar, mesmo quando tudo parece, se não impossível, ao menos muito improvável. O destino se apresenta e agora somos nós que temos que mudar o nosso curso para permitir que ele entre em nossas vidas, agora somos nós o risco d'água. O destino nos dá pequenas e sutis chances, cabe a nós saber quando permitir que elas entrem em nossas vidas. Todos os dias, novas chances. Todos os dias, a cada momento, bate à porta a chance de uma vida nova.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Quem Te Viu, Quem Te Vê



"O meu samba assim marcava na cadência os seus passos
O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços
Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão
Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão"

Meu trecho favorito, queo Chico excluiu da música.
Hoje o samba saiu, lá lá lá iá.

Recorte

"Apesar dessa incompletude de nossa investigação, arrisco-me a fazer algumas observações conclusivas. O programa de ser feliz, que nos é imposto pelo princípio do prazer, é irrealizável, mas não nos é permitido - ou melhor, não somos capazes de - abandonar os esforços para de alguma maneira tornar menos distante a sua realização. Nisso há diferentes caminhos que podem ser tomados, seja dando prioridade ao conteúdo positivo da meta, a obtenção do prazer, ou ao negativo, evitar o desprazer. Em nenhum desses caminhos podemos alcançar tudo o que desejamos. No sentido moderadoem que é admitida como possível, a felicidade constitui um problema da economia libidinal do indivíduo. Não há, aqui, um conselho válido para todos; cada um tem que descobrir a sua maneira particular de ser feliz. Fatores os mais variados atuarão para influir em sua escolha. Depende de quanta satisfação real ele pode esperar do mundo exterior e de até que ponto é levado a fazer-se independente dele; e também, afinal, de quanta força ele se atribui para modificá-lo conforme seus desejos. Já neste ponto, a constituição psíquica do indivíduo, à parte das circunstâncias externas, será decisiva. Aquele predominantemente erótico dará prioridade às relações afetivas com outras pessoas; o narcisista, inclinado à autossuficiência, buscará as satisfações principais em seus eventos psíquicos internos; o homem de ação não largará o mundo externo, no qual pode testar suas forças. Para o segundo desses tipos, a natureza de seus dons e a medida de sublimação instintual que lhe é possível determinarão onde colocará seus interesses. Toda decisão extrema terá como castigo o fato de expor o indivíduo aos perigos inerentesa uma técnica de vida adotada exclusivamente e que se revele inadequada. Assim como o negociante cauteloso evita imobilizar todo o seu capital numa só coisa, também a sabedoria aconselhará talvez a não esperar toda satisfação de uma única tendência. O êxito jamais é seguro, depende da conjunção de muitos fatores, e de nenhum mais, talvez, que da capacidade da constituição psíquica para adaptar sua função ao meio e aproveitá-lo para conquistar prazer."

Freud, em O Mal Estar na Civilização

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Quando você me escreve cada palavra linda que você sabe bem que me escreve, cada frase linda que você desenha no papel, no guardanapo ou em mim, você sabe que eu gostaria de mostrar ao mundo todas as cartas e os guardanapos e todos os rabiscos que guardo espalhados pelo meu corpo de Teresa - lembra de Teresa, bem? -, mas eu bem sei que nunca lhe mostraria dessa maneira, não o deixaria nu em frente a todos os outros, principalmente pois digo nu quando o falo sentimentalmente, e não no sentido que normalmente atribuem à palavra, e a sua nudez sentimental é tão bonita, desprovida de pudores, livre dos constrangimentos dos olhos dos outros e  de tantas outras reprovações cheias de inveja, que eu teria até um certo ciúme de partilhar com tantos muitas vezes mal-intencionados tantas palavras de carinho e tantas partes de um eu-Teresa. Pois é meu bem, você sempre me avisou que felicidade incomoda e mais uma vez lhe dou ouvidos e olhos e razão e deixo de expor aqui mais das muitas palavras que gostaria de compartilhar, não por exibicionismo nem por provocação, que acredito que já saibas que não fazem muito parte do meu vocabulário muito menos da minha postura, mas dividir pela beleza e pela singularidade de versos tão bem arranjados, como muitas vezes já partilhei aqui inúmeros versos tão singelos sem que esses fossem endereçados à mim, mas pela sua essência apaixonada - e apaixonante -, que seria uma afronta nem ao menos cogitar partilhar logo aqueles versos a mim remetidos; cogitei e logo desisti da ideia, mais uma vez lhe darei razão.
Razão pois a vida vem sendo muito generosa conosco.
Razão, pois as tuas palavras são minhas.
E tuas.
E só.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Playlist













Pra ouvir numa terça à noite.

Frouxo

Tem nada - ou quase nada - no mundo que me deixe tão irada quanto homens frouxos. Nada que me deixe mais insuportavelmente irritada do que a combinação frouxidão (e sei lá eu se esse termo existe) mais irresponsabilidade. E hoje meu problema é particularmente com os homens.
Irresponsáveis, cretinos. E não, isso não é discursinho feminista nem algo que o valha. É pura ira pela classe masculina que, coitada, não tem, em 99,9% da sua composição, nem argumentos para se defender. Deixa eu me explicar melhor: há um conjunto de atitudes masculinas que vêm me irritando há algum tempo e eu pude observar como os homens são frouxos e até apelativos quando precisam de alguma coisa.
Enfim... Os homens são chorões feito crianças quando, por exemplo, estão precisando de uma nota pra não ir a exame e, pra conseguirem, não medem esforços na apelação: vale e-mail, vale viagem, casamento, mãezinha doente e até abordagem quase em tom de choro no meio dos corredores e vale também infernizar o meu final de semana para não precisar fazer uma provinha. Mulheres, salvo raríssimas exceções, conectam um neurônio no outro, assumem que não fizeram o suficiente, vão para a prova e fazem o que têm de fazer. Sem choro, sem fiasco nem cachorrinho morto.
Os homens são frouxos para assumir um relacionamento. Os homens são frouxos para manter um relacionamento. Os homens são ainda mais frouxos para terminar um relacionamento. Não têm coragem de falar a verdade e muito menos de valorizar sentimentos. Homens são uns frouxos quando cedem à pressão dos amigos e terminam com as namoradas pra "curtir o verão". Homens são irresponsáveis quando a única equação que surge à cabeça é a quantidade de mulheres com quem deixam de ficar para estar com "uma só". Homens são ridículos quando não valorizam relações nem felicidade. Homens são estúpidos quando não percebem que, do outro lado de uma relação, não há só um corpo, um objeto: há uma pessoa, há um coração, há pretensões. Homens são medíocres quando tentam justificar todas as merdas que fazer com as mulheres com a velha esfarrapada desculpa do instinto.
Às mulheres, peço desculpas por tornar público um sentimento e, mesmo depois de pensar muito, perceber que não posso propor nenhuma solução para a estupidez masculina. Ao homens, que aprendam a enxergar relações como elas devem ser estimadas e não mais como ações numa bolsa de valores, como investimentos, objetos, como coisas.  Àquelas nós que, por um pouco de sorte e outro muito de critérios, temos a sorte da exceção masculina, não nos deixemos nunca sucumbir aos pensamentos degradantes, frouxos e estúpidos com os quais os homens ao nosso redor muitas vezes nos contaminam; valorização, cuidado e carinho não têm sexo. Aqueles que, por obra da vida ou por obra de si mesmos, se tornaram estes animais sem sensibilidade, "perdoai-os, Papai do Céu, pois eles não sabem o que fazem".

A vida gratifica.
A vida ensina.
E o tempo muda tudo.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Eu queria falar sobre como as mulheres conseguem ser burras quando o assunto é amor. Queria falar sobre a capacidade que temos de nos entregar de corpo e alma. Queria falar que eu não consigo deixar de me chocar cada vez que vejo um homem aprontar com uma mulher que o ama. Queria dizer que não suporto ver mulheres se submetendo às mais diversas coisas a que se submetem em nome do amor.
Mas, mais que tudo isso, quero dizer que eu não sei dizer sobre nada disso.
Somos mulheres, puro coração.
E, já diria Djavan, "se errar por amor, Deus abençoa".
Assim nós esperamos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Amor Bastante

quando eu vi você
 tive uma idéia brilhante
 foi como se eu olhasse
 de dentro de um diamante
 e meu olho ganhasse
 mil faces num só instante

 basta um instante
 e você tem amor bastante


Paulo Leminski
 
 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Chuva

O céu fechou.
Há tempos não observava espetáculo tão bonito através da minha janela.
Ah! Quero tomar banho de chuva
Acabou de soar o primeiro trovão
Logo os raios riscarão o céu de metálico
Brilho
E eu, na minha janela
Daria tudo por um raio
bem no meio da cabeça

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Your Latest Trick



Dire Straits.
Essa música me dá arrepios.

Ócio Criativo

Impossível criar algo quando não temos tempo para dar uma respirada o dia todo.
A cabeça precisa de ar fresco, respiração lenta e os pés para cima ao menos por vinte minutos.
Deve ser por isso que as pessoas não tem tempo de refletir sobre nada. Deve ser por isso que os sentimentos se atrofiam (e a cabeça também). Deve ser pela correria que perdemos o hábito de olhar à nossa volta.
Preciso de um tempo para pensar.
Todos os dias, eu funciono bem melhor quando tenho meia hora para encarar o céu.
Meia hora para me encarar no espelho.
Meia hora para olhar para dentro, para enfrentar meus pensamentos e questionar minhas emoções.
Preciso de um tempo precioso. Preciso, de verdade, de um pouco de ócio criativo.