quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Bebo

Bebo-me toda, porque sem ti me restou silêncio. Escuto a vida que arde e o mundo que gira, sinto o tempo que não apaga as dores, que não desfaz os amores, que não desfez o meu.
Bebo-me toda porque sei que algo de fato se perdeu .
Quão difícil é saber da mesma lua que nos guiara, que continua a iluminar
nossos novos passos que já estão longe, que já se cansaram de andar.
 Perdi-me no teu abraço, sem vontade de voltar.
Quero-te todo, todo-te não posso ter. As respostas que nunca terei me tiram a vontade de ser. Não te sinto mais, não te toco mais, nada mais restou. Bebo-me para saber quem eu sou.
Mas ainda assim, em meus sonhos apareces confundindo-me, me enlouqueces Por não ter nada a me dar, bebo-me porque quero, sim, me afogar.

Nessa dureza que é a realidade da imperfeição de uma paixão que sem motivo de ser aparente, me deixou tão doente e levou meu coração. 

Pequeninha

São inesgotáveis as palavras que direi, pois sinto um vazio que jamais sentirei.
Nada me protege dessa dor que é te perder, sinto-a tão profunda, que de tão imunda, me joga pra fora do meu ser.
Seus pequenos olhos a me olhar, sua pele quente a me tocar, tudo se desfaz no tempo do meu sonhar.
Levo-te comigo na minha garganta, onde permaneces um nó que não me desce, insiste em me torturar.  Eu Nunca pedi para assim te amar.
Simplesmente esse sentimento se instaurou e não cansou de brotar.
Como me deixei tão ingenuamente levar?
Amei tão sozinha, me tornei tão pequeninha só para te contemplar.
E hoje quando te vi, Deus sabe o que eu sofri, de não poder mais te amar.
Dizem que o caminho machuca, que o chão tem espinhos, que o sol queima e o frio pode paralizar. Lembro-me dos verões contigo, do nosso abrigo todo no meu cuidar.
Lembro-me das noites que eu não dormia só pra poder te admirar.
E agora que sei que danças em outros abraços, te permites estar em outros laços, e em outras águas mergulhar
 eu que me demorei tempo demais, sinto agora toda a dor desse amor

que não que cessa de durar. 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

De outro tempo

Foi que a cortina fechou, então... o tempo parou
E nada mais O que fazer com as sobras desse amor tão fugaz? E as consequências do nosso enlace se desdobraram Dançaram e giraram no que restou de nós Nesse mundo de preto e branco,
Desse tempo de viver do recordar... Sabe... é que quando eu ando nas tuas ruas, me lembro das coisas tuas
E da tua mão na minha a encostar E eu que sempre quis mais sem que pudesses me dar Peguei tudo que não unia, o que já ruía E não tinha vontade de ser e... joguei de volta pra você E sem saber o porquê, você insistiu pro nosso amor voltar praquele mesmo lugar
de onde partira Mas quem partiu fui eu, e o que restou, ficou e se refez,
E porque assim havia de ser,
Se fez sem você.

morangos

Foi num dia assim que li Morangos Mofados

Fazia um vento frio e os pingos da tormenta driblavam a proteção e faziam voar o guarda-chuva. As botas encharcadas e o coração doente, o ar gelado chicoteando o rosto como quem me mandava acordar dum sonho.
Foi num dia assim que vi que Caio havia perdido as vírgulas e me permiti perdê-las também. Escrever-te sem pausas, sem reticências, sem referências, sem filtros. Foi num dia assim que engoli os receios e despejei palavras. Foi num dia assim, numa tormenta assim, que verti palavras sobre aquele papel amassado.
Foi num dia assim que te pedi
Foi num dia assim que te perdi
Foi com um raio desses de atravessar o céu que ficamos só Caio, os morangos e eu.

domingo, 18 de setembro de 2016

Poesia sem querer

É chegada a hora de parar, meu bem.

De reconhecer algo além do verde absoluto dos teus olhos
[e do teu cheiro sufocante de castanhas
dar adeus à cicatriz e à tatuagem
deixar que o perfume de baunilha exista
sem pretender te encontrar

é hora de (re)conhecer a derrota
dar adeus aos teus olhos no horizonte
às nossas valsas ensaiadas
às promessas de casamento
aos quatro filhos de nomes prontos
[e ao quarto sem televisão instalada

vai, meu bem.
E volta quando quiser pra me fazer ridícula
olhando pra trás na porta do ônibus,
vasculhando as mensagens de voz no telefone
passando por aquela rua que um dia te abrigou

ainda moro no mesmo número
ainda uso o mesmo perfume
mas juro
é mero cacoete
força do hábito, anos a fio

vai que é chegada a hora
e aqui ainda tento me convencer:
parar há de ser melhor também pra mim


segunda-feira, 6 de junho de 2016

sem título

Falavas dos dedos compridos
Da voz rouca de declamar poesia
Do cheiro inconfundível de baunilha
Do desenho rendado sobre a pele clara
Falavas.

Falas?
não te ouço mais

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Vinteoito

É vinte e oito mais uma vez. Mais um abril.
Nesse abismo que se abre toda vez sob os pés
a única opção é se deixar cair.
Lentamente se render à queda do próprio corpo.
Viver o luto, lamber as feridas.
Esperar sua reconstrução.
Refazer-se.
Esquecer.
Para outro vinteoito me desfazer mais uma vez.


domingo, 24 de abril de 2016

Te olho

Quando já está tudo escuro e meu coração bate mais devagar como quem anda cansado, desistindo de lutar, vou olhar-te de longe nas espreitas do que me sobra. E fico mais feliz de poder te admirar assim sem saberes. Assim não te causo mal. E mesmo sem saberes, teus gostos e gestos me põem um brilho no olho e uma calmaria na alma. Sei que estás aí e na minha imaginação, a esperar por mim.