sexta-feira, 5 de maio de 2017

Óculos escuros

Quero que saibas de pronto
Tocaste-me como poucos fizeram
Depois de te conhecer, não te quero mais desconhecido
Envolves-me com a tua arte, na tua voz rouca de insône,
De quem gosta de devorar a madrugada como eu
De quem gosta dos silenciosos beijos telepáticos dados em um outro sentir
Eu te acho mesmo tão bonito
Com teus olhos cansados e teus óculos escuros
Lembro-me do teu sorriso invadindo meus sentidos, pintado no teu rosto com tamanha sintonia
Teu interesse eu já percebia
Da tua energia de me observar de longe, pela tua câmera desfocada, eu percebia...
Surgido do que temos mais em comum, do nosso sensível caminhar por entre as coisas, por entre as ruas duras
Tu és um refúgio, um álibe, um brinde
Surgimos desta nova criação, do desenhar confissões românticas no papel, de sermos isso, de uma essência fluida, de leveza, de inexplicável encontro de sintonia plena,
 do se permitir permutar e flutuar por entre tudo.
Anota meu endereço, vem tomar café comigo, vem estar comigo.
Que não seja permitido, mas te quero nas minhas entranhas.
Porque te quero assim e não sei te querer de outro jeito.
Porque não te querer não me parece ser a vida, seria outra coisa, uma negação disso que tenho de mais bonito em mim e que tu o tens também...
Esse encantamento da não razão, do sonho, da fantasia.

Da beleza

O mar tem mesmo disso
Do ser leve, do ser forte,
Do saber que pode ser maior
Mas sem porque, não quer.
Assim como o mar pela manhã,
tu me chegaste de mansinho, tomando-me pelos pés, depois ventre, depois tudo
Como maré baixa, foi chegando, onda a onda,
Trazendo-me pra perto, curando-me dos males,
Fazendo do meu corpo morada, da minha pele salgada
Um caminho para o teu querer.
Assim como com o mar, esse meu encontro nunca se desfez
Não se esquece algo assim tão grandioso, belo como ele só pode ser.
Desejo entrar-te nas profundezas,
Mar adentro, onde não haja mais luz, nem perder,
Somente a própria beleza desse azul
Onde a minha morte seja a tua vida,
e que eu renasça dessa ferida
que é amar até morrer.

Espera

Meu corpo era universo em explosão
Todas as minhas células pareciam debater-se
Somente no ímpeto de uma incontrolável urgência por ter-te
Como átomos em choque, colidiam ao buscar-te
Criavam uma outra coisa,
Uma nova condição de vida, um novo estado de existir
Retiravam tudo do lugar
O mundo se tornava diante de mim algo incorruptível
Eu estava a fundir-me com o desconhecido ininterrupto do estranho
A cada gole que descia pelo que chamara de garganta,
Tudo em seu absoluto transformava-se em algo a ser redescoberto pelos meus sentidos aprimorados
A vida se esculpiu no momento em que eu a te entregara
E tu me dizias para ter cuidado, quase como pedido, como aviso, como denúncia
Nada atendia pelo mesmo nome, tudo havia se modificado, eu não via nada igual.
As cores, a cadeira, a gente, a rua, os prédios, o ar, a Lua, o chão
Era como se tudo ganhasse uma nota a mais antes faltante,
Uma nova linguagem decodificava o que eu nunca entendera,
Os sinais, os signos atravessavam-se por mim
Eu era a tua espera, toda, eu era meu desejo, todo.
Ser a tua dúvida e a tua ambição
Estava aconselhada somente pela minha angústia
Da possibilidade remota de não te ver entrar pela porta
Eu estava, estou, pronta.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Exílio

Tenho as cortinas da alma rasgadas
Guio-me por dentre as coisas todas e me parece que
Sempre acabo onde comecei no princípio
É falácia de que sou uma pessoa boa
Porque nem sei mesmo se o bom existe nesse mundo
E o que sou é um tanto fingimento.
Confesso que fiz um acordo com Deus quando tinha oito anos.
Fiz porque me contou um velho que conheci que ele havia feito.
Hoje já não me lembro o que Deus me prometeu.
Para uma criança podia ser mesmo qualquer coisa tola dessas que qualquer criança deseja.
Mas aprendi desde ali que a vida é trançada por trocas e apostas
E digo que nunca abandonei minhas derrotas,
Porque ainda sinto o gosto delas quando estou distraída.
E deve ser porque a cada derrota penso que ou Deus me traiu ou pedi pouco dele.
Há um submundo que habita em mim.
Por vezes à noite um ser oculto que não sei anjo ou o quê me descobre pelos lençóis
E me leva consigo para flutuar pelos seus pensamentos mais estranhos.
Ali me sinto abandonando tudo, um certo medo me toma, mas logo estou nos braços do que poucos conhecem...
A mais pura solidão.
Sinto-a no meu âmago como sei que poucos a sentem.
Como se fosse exílio.
Como se fosse a vida.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Partida

Sabia que eu tinha de lhe deixar
Não poderia mais sustentar meu desejo
Que tempo é este da poesia que vivemos?
É a nossa própria memória
Vives agora aqui nas fissuras que se abrem neste espaço
Que não há lugar para nós
Que nada!
Do tempo do relógio só risco os dias no calendário
A verdade é que do tempo da vida entendo menos,
quem sabe, porque foi o tempo que estive contigo
que me tornei nos últimos anos
Recriar-me.. se os nossos tempos alinhados me desafiam
Fomos quem e para o quê juntos?
Andamos muitas vezes sem rumo
O que eu disse e tu bem o sabes é que cansei
Surpreendentemente algo da lógica que me eras tão fundamental
Se inverteu.
Comecei a perguntar-me se não haver rumo faria mesmo assim estrada?
Senti minha sanidade esvair-se por horas pelos ralos de tudo
Duvidei de tudo. Me desmontei. E fui embora.

Caminhar emPoesia

Pus-me a perguntar-me
a pergunta mais simples de todas:
Por que escrevo?
Daqui deste café, observo as pessoas irem e virem,
é para isso que escrevo.
Porque caminho em poesia
E confesso que me perco nesse espaço das palavras
e no que as palavras produzem em mim.
Reorganizo a vastidão que é ser quem se é, que é viver
Ponho em imagens o incorrigível, o incompreensível.
Desejo tanto uma vida simples, mas não sei se passei
a vida enganando-me sobre isso, de ser aquela que as pessoas
visitam a casa para comer o bolo da tarde com café recém passado
Que cuida das flores e se admira com o transformar das estações
Todavia, algo se rompeu
E apenas um espectro meu visita os lugares que frequento
Compreendo o mundo pelas lentes da minha arte
E repare, esta é a primeira vez que atrevo a chamar de arte o que
nos intervalos da vida me permito preencher as horas vazias do ser
Parece-me que esses intervalos se tornaram quase todo o tempo
e que ao dormir a arte vem em meus sonhos mexer comigo
Ouso dizer, pois ando ousada ultimamente,
que a arte brinca comigo nos meus sonhos
Sim. Ela faz ironias de mim, digo mesmo que se vinga até...
do tanto que passei mexendo com ela, sem entendê-la de fato,
manejava-a como podia, dissecava-a, estirava-lhe os braços, as pernas, retirava-lha as vísceras
para olhar de perto, para me sujar com sua tinta de sangue
Eu passei a vida flertando com a arte e desejando devorá-la, sem mais, sem volta, nós duas nuas num quarto vazio.
Acho mesmo que abusei da arte. E agora ela se abusa de mim.
Minhas fronteiras são indefinidas.
Finjo sorrisos e interesses o dia todo.
Me sinto inabitada da crueldade do mundo. Quero transar com todas as coisas que aceleram as emoções das pessoas todas.
Quero por horas ser a chuva torrencial que leva tudo de volta para o mar.
Mentira, eu quero ser mesmo é o mar. Dono de tudo, poderoso, que tem nas suas entranhas o mistério da vida, o mistério de tudo do mundo.
Quero ser o mar para não ter de me explicar comigo mesma, pois seria maior que isso, que as dúvidas, que o saber, que a matéria.
Eu poderia ser e seria o sentir. E bastaria.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Casa no campo

Uma vez, fui visitar uma casa no campo
Era toda de madeira, com detalhes de outra época
Ninguém ia lá, por isso estava coberta de pó
Tua ausência enchia aquela casa, mas eu, na verdade,
Não estava só.
No fim da tarde, tirei a roupa, me olhei no espelho como quem olha
Uma desconhecida
E enchi de água, enchi de mágoa a banheira
E ouvi tua voz dizendo que sentia minha falta até ao se banhar.

Contudo, não nego, eu me sentia bem comigo
Respirava fundo aquele ar de campanha
Lembro-me de estar próxima do que chamam de paz
Porém naquela cama, havia outro em seu lugar.
Os dias eram doces, as noites calmas e ternas,
Mas meu peito ruía, ruía de farsa
Pois quando fechava os olhos era tu quem encontrava.

Agridoce

Ao passar café pela manhã
Quando ainda me despeço dos sonhos mal acordados
Lembro-me dos nossos lençóis brancos desenroscados
De nós, de tudo 
O cheiro fresco vai invadindo os cômodos, nota a tua ausência, parece te procurar.
Inocente como qualquer paixão, desesperado como um louco,
Sai do prédio e chega até a rua... Sem nada a encontrar, 
Recordo-me do momento em que pela casa eu caminhava nua...
E ao me distanciar...
a cada passo, teu desejo aumentava pouco a pouco
Silenciosamente, tu me pedias para voltar.

Eu não conhecia esse sentimento que devasta tudo aqui dentro.
É saudade, meu amor.
Te celebro todos o dias, te evoco ao cuidar do nosso jardim,
ao beber teu vinho cativo, ao ler uma poesia.
Lembro-me de ti quando estou só e sinto ainda mais a tua falta quando não estou.
Vivo contigo pelas montanhas de céu azul, onde nossos sonhos decoram o  dia
Aonde o sol nasce cedo e nós saímos de mãos dadas por entre os verdes e lilazes.
vivemos juntos em primavera dentro de mim,
em um tempo tão bonito que não tem fim.

Anseio por entrares à porta, por entrares na vida simples prometida,
Anseio pelos beijos tardios, pelo afagar da minha alma,
Para que os momentos de espera sejam lembrança agridoce.
Mas venha logo, que meus dias insones me cansam sem ti
a música toca solta pela sala e atravessa meu coração solitário que começa a tropeçar em si
Desconfio até que a vizinhança já notou e me olha com um certo pesar
Pois então, meu amor, apresse esse seu relógio
As minhas horas estão cansadas de contar.


sábado, 22 de abril de 2017

que de leve, todo

E eu estava ali, toda mal contida no meu ser,
paralisada por uma até então desconhecida entorpecência.
Eu estava a admirar o meu novo amanhecer
por meio do toque da tua mão na minha existência.
Eras mais do que desejo de arder...
Eras um encaixe, um ruído dilacerante,
Uma dor de prazer de sentir-se envolver em um canto distante,
Eras um chamado para viver de tão leve flutuante.
Não sabia o que fazer com o tamanho desse ser,
Pois com toda sua história, me tomava a memória
fazendo-a insignificante, de passado quase alucinante,
meros caminhos errantes
me levavam até você.
E eu fitei meus erros que se enfileiravam diante de mim,
e perdoei-os, dizendo-lhes adeus de leve, mas com todo o meu querer
Minhas linhas mal traçadas haviam se findado
Pois se encaminhavam, se tramavam e se desenrolavam
Com o desfecho de te conhecer.