sábado, 25 de junho de 2011

Querido Diário


""Querido diário"
Hoje o inimigo veio,veio me espreitar
Armou tocaia lána curva do rio
Trouxe um porrete, um porrete a "mode" me quebrar
mas eu não quebro não, porque sou macio, viu?!"

(Chico Buarque)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

a pessoa certa

Não basta ser a pessoa certa. Tem que ser a pessoa certa no lugar certo, com o olhar certo, com o caminho certo, com as dúvidas certas, com o mesmo coração na mão, a mesma incerteza no bolso e a mesma cabeça cheia de planos. Não basta ser a pessoa certa. Ela tem que ser a pessoa. Tem que encher o peito com as vontades que jamais alguém inspirou, tem que dar vontade de voar, tem que fazer largar tudo, tem que fazer rasgar os planos, mudar, mudar e mudar tudo de novo se for necessário. Tem que ser alguém por quem dançar na chuva, por quem correr na rua, por quem fazer surpresas, por quem se emocionar e largar tudo. Tem que ser aquele alguém que aperta o estômago, que faz suar as mãos, que faz pular o coração da boca, que faz sorrir, que faz chorar de emoção. Tem que ser o alguém que não faz sentir nenhuma borboleta, nem nenhum coração pulante nem nenhum choro... Tem que ser aquele alguém que nos desperta um amor real, possível e verdadeiro. O alguém que nos enche de confiança e faz transbordar plenitude, mesmo sem as mãos suadas, sem o estômago atordoado de sensações, sem as nuvens sob os pés. 
Não basta ser a pessoa certa. Temos que ser a sua pessoa certa também.

Tem que ser alguém capaz de nos encher a vida de vida, o coração de amor e o rosto de sorrisos.
De forma simples, sutil, mas arrebatadora.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ecos

A mesma frase gerou o mesmo arrepio, depois de muito mais que alguns anos. Aquela frase ecoou pelo banheiro, retumbou nos vidros, arranhou o som do vinil que tocava e se espalhou pela casa inteira da mesma forma que havia se misturado tão sutilmente a ela e já há tanto que ela não mais a sentia. Aquelas palavras ainda estavam guardadas, desde a última vez que as ouvira e mesmo sem lembrar que elas alguma vez haviam sido ditas.

"Vai ver o que me incomoda tanto é que eu não sei se conseguiria te fazer tão feliz como ele fez, ou te fazer gostar de mim do jeito especial que tu gostou dele."

E ele jamais conseguiuria. De verdade.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Uma brecha

Há sempre um momento de lucidez na nossa vida. Um momento que o tempo pára e temos a opção de esolher. Sim! Há sempre aquele segundo em que estamos atentos às coisas a nossa volta e podemos decidir continuar, parar ou atravessar a rua. É como se o sinal estivesse vermelho. Um breve momento de consciência, é o que eu chamaria.
E esse momento sempre existe. Mesmo que não saibamos o que fazer com ele. Mesmo preferindo. às vezes, fechar os olhos e deixar que a vida nos mostre se erramos ou se acertamos. Porém, é preferível que não se desperdice essa chance quando nosso coração nos dá uma brecha. Porque nunca sabemos quando isso acontecerá de novo.

Cantando no Toró/ Grande Hotel


"Pensas que não sou feliz
Entras com roupa de estreia
Deves saber que ando louco
Louco pra mudar de ideia"

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cobertor

Não há briga que resista à cama. Não há magoa que perdure a noite inteira, não há orgulho que resista ao frio e à divisão das cobertas. Casal que briga à noite é o casal que dorme separado, onde há a ira das portas batendo, das feras esbravejando e não a necessidade de dividir o mesmo cobertor. Casal que dorme junto briga durante o dia e recompõe a paz durante o sono. Costuram a paz com suspiros, bordam o perdão com braços que acidentalmente se tocam ao longo da noite, emendam o sorriso no rosto com os pés que se encontram para vencer a noite fria. Não há casal que resista ao perdão do sono, não há briga que consiga durar depois que, vencendo o orgulho e a teimosia, os dois se encontram abraçados logo ao despertar. O coração dá o seu jeito de conciliar os ânimos: dribla a fúria com o sono, dribla o orgulho com o frio. Na manhã seguinte, resta o pedido de desculpas e já não há mais sentido em questionar quem estava errado. 
O coração também sabe anestesiar a memória.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Lentes

Mantenho o hábito de lustrar as lentes dos óculos de grau com um guardanapo de papel, toda vez que estou sozinha em casa. Não porque a sujeira me perturbe a visão ou pelos pingos de água que caem acidentalmente e deixam pequenas manchas translúcidas nas lentes não me agradem ao me fazer ver um mundo furta-cor. Não protejo meus óculos da sujeira, apenas deixo meus vidrinhos preparados para a rotina. 
Ao chegar em casa, ele carimba com o nariz a esquina das lentes, como se quisesse beijar os meus olhos que, de certa forma, se escondem. Quando chega, deixa sua marca nos meus olhos enquanto me beija, enquanto me abraça, quando não consegue calcular o tamanho exato da distância que nos separa ou da proximidade que nos une. Enquanto está fora, tenho comigo sempre um beijinho à mão, disponível, palpável, carinhoso. Tenho sempre um beijo nos olhos caso queira dormir, tenho sempre uma marca para me fazer companhia nos passos e nos sonhos - pois também não tiro os óculos quando quero dormir no sofá durante a tarde.
Quando está próximo o horário da volta, vou à cozinha e busco o papel para refazer meu pequeno ritual. Purifico meus olhos e limpo os velhos beijos para esperar o novo que, em breve, chegará. Quando ele chega, me carimba com o nariz e enche meus olhos de beijos acidentais. Me espalha a rotina pela casa, dá sentido aos guardanapos que, misteriosamente, se vão tão rápido. Faz minhas manias deixarem de ser secretas e faz minha loucura aparentar algum sentido.
O sentido de te buscar a cada dia.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Vidro

O frasco de perfume se partiu em mil pedaços ao encontrar o piso frio daquele quarto. Sem saber porque, ela desmoronou em prantos ao se deparar com os cacos misturados com o líquido que agora infestava todo o ambiente. Chorava pelo perfume, segurava com apego a tampa, juntava o vidro estilhaçado e temtava entender o motivo de tamanha importância dada ao frasquinho da tampa vermelha. Subitamente, compreendeu que, ajoelhada no chão, agrupava sobre o jornal os cacos de um amor que há muito se desfizera dentro de si e que se conservava unicamente pelo presente dado naquela semana. Ela tentara resistir àquela demolição, mas o coração nunca se deixa controlar pela racionalidade e toma os caminhos que bem quer. Ela chorava, segurando com força o último resquício daquele amor perdido que ela lastimava ter que deixar, o amor construído pelo apego e firmado na insegurança. O pequeno vidrinho era a última união que restara entre os dois e era a maneira que ela havia encontrado de ainda se prender a ele, de ainda se fazer pensar nele; somente com o cheiro que ele escolhera ela ainda se sentia presa por algum fio de compromisso.
Quebrou-se o vidro, ele estava lá, viu tudo, ajudou a catar os cacos e a consolar o que sobrara dela depois daquela tarde de domingo. Ele não sabia que ela chorava pelo fim dos dois, pelo fim que ela tentou evitar mas sempre soube que não conseguiria. Ele não sabia que dentro daquele quarto escorriam pelo chão as últimas gotas do amor que ela tentava preservar, mesmo convicta de que ele já não estava mais lá.
E o amor se foi. Como o perfume que evaporou e sumiu sem deixar rastros.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Cinco Sentidos

Ele se entrega quando tira os óculos. Sei que se entrega quando não precisa mais enxergar nada que esteja além de mim, quando levanta devagar o cabelo e vai descendo com a ponta dos dedos o meu pescoço. Sei que se entrega quando franze a testa para enxergar a expressão que faço do outro lado da cama, quando se perde no meio dos meus abraços e enquanto acaricia minhas costas com a barba fina. Sei que se entrega quando os seus suspiros tomam forma, adquirem ritmo, se tornam música, valsam pela cama e se esparramam pela casa. Sei que se entrega quando relembra datas, quando conta casos, quando dá risada, quando me deixa pequenas surpresas e me traz merengues. Mas sei, principalmente, que ele se entrega quando não me enxerga mais com a visão.
Se entrega quando abdica dos olhos. Se entrega quando passa a me enxergar com as mãos, a me medir com beijos, me contar com o calor da sua respiração. Se entrega quando me ver passa a não fazer nenhum sentido.
"Deixa eu tirar meus óculos" é a sua forma secreta de me dizer eu te amo.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Presentes - o pior do mundo

Fazíamos a lista dos piores presentes que já ganhamos e demorei algum tempo até que pudesse lembrar qual o pior presente que já ganhei de um ex-namorado, pois decidimos deixar de fora os presentes dados pelos familiares e pelas amigas. O pior ganhou o prêmio pois o rapaz passou a ser ex mesmo antes de me namorar, por conta do presente e da tonelada de descaso que transbordava a caixa vermelha recheada de bombons. Teria namorado aquele homem, não fosse o presente que ele me deu nessa infeliz vez. Àquela época, já havia decidido ceder aos insistentes pedidos, quando certo dia chego em casa e vejo em cima da mesa a caixa vermelha e sou informada que ela estava ali à minha espera. Medo, só fui gostar de surpresas depois de velha, naqueles tempos não era adepta das embalagens aleatórias chegando em casa (medo que se acentuou depois do incidente de oncinha, mas é caso para outra história). Tenho horror de quem escolhe presente no chute. Mulheres e homens são igualmente insuportáveis quando querem presentear mas não gastam um neurônio ou dez minutos pensando ou pesquisando algo que o presenteado poderia gostar. Tenho horror desses presentes que transbordam impessoalidade e descaso. Tenho horror que me deem livros - a não ser que saibam exatamente o que estão me dando.

O homem - que agora, relembrando a história, já sinto vontade de chamar de criatura -, me deu um livro. Dentro da embalagem, uma carta muito bonita e que está guardada até hoje na parte que me restou no guarda-roupas na casa da minha mãe. Junto com o livro e a carta, bombons. Logo para mim, que amo doces, ele conseguiu escolher o único bombom que não consigo suportar nem o cheiro. Ainda havia esperança no livro, esperança não só na intenção dele mas esperança de manter o que já tinha decidido. No livro, igualmente frustradas as expectativas. O presente não só era semelhante ao que tinha lhe dado no aniversário, com a sutil diferença que me prestei a saber os livros que ele gostaria de ler e quais os doces gostava de comer, mas transbordava o descaso que abomino tanto. Quando li a primeira página, pude imaginá-lo com pressa, comprando os primeiros bombons e arrancando da prateleira o best-seller que estava mais à mão. Até hoje ele não sabe que se tornou ex muito antes de ser atual e que a culpa foi toda daquele presente; até hoje ele não sabe que eu cogitei que ele pudesse ser o atual.

Desisti da ideia, do namoro, do moço. Imaginava qual seria a minha sina de dias dos namorados, de Natais e aniversários, me imaginava amontoando best-sellers e sacos de doces insuportáveis. Imaginava que, com tamanha desatenção, o próximo presente só poderia ser uma caixa de quindins. 
Impossível namorar quem te dá livro de auto-ajuda com bombons Amor Carioca.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Cartas (e caixas) de amor

Guardo todas as cartas de amor num mesmo lugar. Percorro caixas, gavetas e classificadores em busca de mais alguma que tenha ficado perdida dos meus constantes cuidados de guardá-las na caixa preta de bolinhas brancas. Guardo todas as cartas de amor como um grande catálogo, um índice remissivo da minha paixão. Há aquelas que eu nunca consigo armazenar na caixinha que fica à vista bem no meio da sala, são as que se arquivam diante da nossa pequena (?) biblioteca de amor. Colecionamos livros com dedicatórias apaixonadas, como um adiantamento da herança aos nossos filhos. Empilhamos volumes e mais volumes com versos e diversas cartas na primeira e última página, amontoamos bilhetes e letras sublinhadas nos parágrafos dos tantos primeiros capítulos.
Guardo todas as cartas de amor pois não quero me perder nem do amor nem das lembranças. Guardo todas as cartas para que um dia elas sejam  lidas e tocadas por pequenos olhos e dedos curiosos em saber a origem de um amor anterior à sua própria existência. Guardo todas as cartas de amor pois vez por outra recorro à caixa para me deliciar durante a tarde; para que ele nunca se esvaia pelo meio dos nossos dedos. Conservo as cartas com a devoção de quem conserva o próprio amor, como uma forma de vê-lo sempre renascer e florescer diante de belas palavras e de poesias dedicadas. As nossas cartas de amor são como pequenos bombons em tardes de inverno, saboreadas devagar, apreciadas como a música de Elis, valsadas pela casa em silêncio.
Penso em separar os livros com nossas cartas dos outros volumes que se acumulam na nossa casa, em fazer  uma pequena biblioteca do amor - desde que tirei da cabeça a ideia absurda de arrancar as primeiras e últimas páginas de todos eles para que pudesse manter todas juntas na minha caixinha. Guardo todas as cartas como uma parte da herança dos nossos filhos. Para que a eles seja sempre palpável o amor que respiramos uma vida toda.

Oração





"Cabe o meu amor
Cabem 3 vidas inteiras..."

(A Banda Mais Bonita da Cidade)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Terças-feiras de solidão

Admiro quem sabe viver sozinho. Admiro aqueles que nascem sabendo seu lugar no mundo, que se orientam sem precisar de ajuda e que perseguem seus objetivos sem que haja alguém para guiá-los. Admiro quem sabe apreciar a solidão em tempo integral, o único prato na mesa, quem troca os móveis de lugar e fica satisfeito mesmo sem ter ninguém para quem mostrar a nova organização da casa. Eu não sou assim.
Sempre adorei solidão, porém aquela solidão com hora marcada para ter fim, aquela que se esvai com apenas um telefonema ou às quatro da tarde de uma quinta-feira, quando o outro deixou claro que chegaria em casa. Preciso de um tempo sozinha, mas minha solidão não é exigente. Sei ser sozinha com outra pessoa em casa, sei ser mais sozinha com alguém estalando os pratos na cozinha ou arranhando notas de violão pela sala. Com companhia, minha solidão é mais feliz.
Eu admiro e reconheço aqueles que vivem e erguem sozinhos suas vidas, mas pra mim esse caminho não funciona. Fico perdida sem o outro prato na mesa, sem o corpo do outro lado da cama, sem o rastro de toalhas molhadas que torna óbvio que mais alguém esteve ali. Não sei me arrumar para mim mesma, me enfeitar para mim, cozinhar para mim, viver só para mim. Preciso de elogios matinais, beijos inesperados, preciso ouvir o ranger da maçaneta enquanto preparo a comida ou ter a certeza de que há alguém lá, mesmo que do outro lado da casa. De alguém para quem me vestir, de alguém por quem me despir, de alguém em quem pensar em tempo integral. A vida só tem graça quando temos alguém por quem viver.
Hoje é o meu dia de ficar sozinha; são as vinte e quatro horas mais torturantes da semana. É a solidão indesejada, a que não vai ser perturbada nem interrompida, a certeza de que lerei o livro até o fim sem precisar parar para descrever o que leio ou para prestar atenção no que ele lê. Hoje é o dia que viro as costas para a minha casa, vou almoçar fora, remover da memória o lado vazio da cama, o prato e a casa que acordou hoje exatamente como a deixei ontem. Preciso de alguém que interrompa meus pensamentos, critique minha solidão, minha roupa, meu molho, minha maneira de organizar os livros. Preciso de alguém que divida comigo a casa, as tarefas, os sonhos, as angústias e os sentimentos. Preciso de amor, em tempo integral.

domingo, 22 de maio de 2011

tempo

O tempo insiste em não passar. O ponteiro se arrasta levando mais tempo do que o de costume para sair do um e chegar até o dois, os minutos não chegam, as horas não cansam de ficar paradas no mesmo lugar. Nem foi tanto tempo assim, mas é a tortura da incerteza do tempo que ainda falta e do relógio que atormenta com cada movimento que ecoa pela cozinha vazia o que desperta a ansiedade e o nervosismo de nunca chegar. O sono foi brincar com o tempo; insistem os dois em não se fazer voltar para casa. Escrevo "para" em lugar de "pra", para consumir mais alguns dos segundos na leitura silenciosa que faço de cada tecla digitada e de cada movimento incerto no escuro de casa.
Esse tempo não tem fim.
Assim como não teria tudo o que eu poderia querer dizer com isso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Certezas

Nascemos em cima de convicções. Nossos pais decidem, desde muito antes de nascermos, quais serão os melhores caminhos para nós, se usaremos chupeta ou não, quando tiraremos as fraldas, qual será a idade certa para entrar para a escola, quais as características que deverão ser aprimoradas desde pequenos para que sejamos pessoas boas e honradas. Crescemos em cima de convicções. Cremos que seremos os melhores para nós mesmos - ou para os nossos pais e seus anseios -, que a escola é o único caminho de nos tornarmos alguém, que a faculdade é a única opção após o ensino médio, que a vida possui um roteiro a ser seguido para que não soframos ou nos decepcionemos e que, caso nos desviemos do caminho inflexível que ensinam desde que nascemos, seremos infelizes e frustrados. Crescemos acreditando que homens bem-sucedidos são aqueles que têm carro do ano, casa própria e diploma na mão; mulheres felizes são as que conjugam diversas funções, são as que nunca cogitariam abandonar a faculdade ou a profissão para se dedicar aos filhos, à casa ou simplesmente à musica ou alguma atividade que lhes dê mais prazer do que algo que traga dinheiro.
Nascemos e crescemos reproduzindo certezas, convicções infundadas e apenas repassadas de pai para filho, sem muitas vezes questionar se é essa a vida que queremos levar, se fazemos questão da faculdade, do carro zero, da segurança financeira. Nascemos e crescemos construindo, acumulando e reproduzindo frustrações. Quando crescemos mais um pouco e de dentro de nós está próxima a saída de um ser indefeso diante de tantas convicções, repensamos muitas das coisas que nossos pais e todos ao nosso redor sempre ensinaram como o certo a fazer. Questionamos as atitudes e as posturas daqueles que, apesar de terem pregado tantos ideais, muitas vezes se desviaram do caminho ensinado - seja por vontade, por falta de outra opção, seja para consertar algo que ficou para trás, seja para recuperar um tempo dado como perdido. Questionamos os valores que construímos para as nossas vidas e se realmente são aquilo que queremos e devemos passar adiante e, assustadoramente, descobrimos que uma reciclagem de nossos hábitos e principalmente de nossos pensamentos é necessária para que não sejamos responsáveis pela formação de alguém infeliz na sua essência.
Depois de um tempo, conseguimos libertar um pedacinho de nós mesmos dessas certezas absurdas e do molde ao qual tentávamos a vida toda nos adaptar e que, por alguma razão, não nos caía muito bem. Depois de um tempo, conseguimos perceber que nem sempre as convicções são tão convictas assim e que as certezas se esvaem diante da primeira pergunta a qual a submetemos. Depois de algum tempo, na ânsia de sermos diferentes, de proporcionar aos nossos uma perspectiva mais humana e a possibilidade de um pouco menos de frustração do que os nossos pais, mesmo que com a melhor das intenções, puderam nos proporcionar, reconsideramos as nossas atitudes diante da vida e reavaliamos a importância de diversas atitudes na composição daquilo que chamamos felicidade. Temos que descobrir sozinhos o caminho da felicidade e aprendemos da maneira mais difícil que a vida não é linear nem rígida, temos que nos descobrir e encontrar sozinhos o caminho que nos realiza, precisamos enxergar que os próximos passos serão sempre opções e não sentenças, que a felicidade pode se esconder atrás das menores coisas e que alguns de nós nunca nos consideraremos felizes apesar do carro do ano, a casa própria, o marido e os dos filhos.

Os pais não nos ensinam mas, depois de um tempo, percebemos que o amor supera as certezas e, principalmente, a falta delas. Os pais também têm que guardar os seus segredos, têm que nos cobrir de certezas para que possamos reagir, nos descobrir delas e encontrar nossos caminhos. 
O bom da vida é se mover de paixão, do despertar ao adormecer.

P.S.- ainda agradeço à minha mãe pelos conselhos com as drogas, com as minhas escolhas e, ultimamente, com as roupas de bebê. A felicidade ela confiou que eu descobriria sozinha, ela nunca duvidou que eu conseguiria.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Caos

As pessoas dizem que não sabem o momento em que elas se apaixonam. Mas elas sabem, sim, o momento em que elas se dão conta disso. A gente vive esperando por momentos assim, e quando acontecem, não sabemos o que fazer. E de repente, tudo fica mais complicado. Deixamos de ser seres racionais. Parece que dependemos da sorte, do telefonema, do convite. Quando ficamos tão desesperadas por atenção? Quando mudamos o foco? É por isso que não nos apaixonamos todas as semanas. Imagina, esse caos toda segunda-feira?

terça-feira, 10 de maio de 2011

Diga


"Todo mundo sabe o que existe entre nós dois
Diga tudo agora e não depois..."

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sentimentos - para as paredes 009

Hoje eu li algo que falava sobre paixão, que exalava paixão. Não aquela paixão da carne, não a paixão física, não por alguém, não a paixão direcionada, mas li sobre uma vida que se definia como sendo puramente paixão. Simples paixão.
Fiquei surpresa, atordoada com aquele tanto de paixão e comecei a procurar em mim onde estariam os vestígios dessa paixão gratuita, se é que ela existe em mim. Procurando paixão, encontrei-a nos lugares mais óbvios, consegui materializar a palavra em alguns rostos somados com mais uma meia dúzia de outras palavras igualmente apaixonantes, consegui encontrar paixão em alguns gestos, em determinadas atitudes e em uma pequena quantidade de objetos. Em nenhum lugar consegui encontrar aquela paixão gratuita. Não encontrei paixão em nada que faço além das atividades cotidianas. Tentei reduzir a significação de paixão para prazer - novamente não o físico, não o direcionado, não o personificado -, mas o prazer em algo além das obrigações cotidianas. Busquei o prazer e só consegui encontrar sentido semelhante nas coisas que não faço mais, nas coisas que não me permito mais. Encontrei em alguma quantidade significativa de livros, em algum gênero de música, em uma breve exposição ao sol e em alguns longos passeios despretensiosos pelas ruas de uma cidade quase desconhecida. Não consegui encontrar nada na minha rotina que me remetesse a paixão e prazer e que estivesse ligado somente a mim, sem personificação, sem rostos, sem terceira pessoa. Não consegui encontrar nem um rastro de paixão nas aulas que assisto, nos livros que sou obrigada a ler, nas pessoas com quem me deparo durante toda a semana. Ainda um pouco perdida nas buscas de significados no interior e na briga pela redução de sentidos para me convencer que nem tudo está tão perdido assim, tentei uma última redução. Busquei a satisfação, como algum rastro da generalização da paixão e em seguida do prazer também. Encontrei satisfação nas mesmas coisas onde encontrei paixão e prazer, mas não a encontrei onde já não havia encontrado seus irmãos mais velhos. Encontrei uma fresta de sol por entre as nuvens que hoje insistem em acinzentar o céu e que penetra com timidez a minha sala e encontra minhas pernas estiradas no sofá. Encontrei um rasgo recém aberto no peito com aquela frase que falava de paixão. Só não encontrei a satisfação nas coisas que precisava encontrar.
Mas às vezes é bom rasgar tudo, se perder. Uma leve batida de depressão faz todo o sentido com uma segunda-feira pela manhã. Vou sair buscando paixão, preciso me apaixonar, buscando vida, alguns sorrisos e, caso não encontre nada, pelo menos ganho as esperanças de um sol que conseguiu se desprender de trás das nuvens.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Eu não me lembro

Uma tarde gelada estava por terminar naquela pequena cidade. Ela estava visitando os amigos e parentes depois de um longo período fora. Somente seus olhos estavam descobertos, tamanho era o frio que fazia naquelas ruas cinzas. Foi então que ele passou, praticamente um desconhecido, e disse “olá”. Ela parou e ficou olhando para o chão. Na sua cabeça milhões de pensamentos se teciam como um novelo de lã. Ficou levemente tonta. Fechou os olhos e a imagem deles juntos veio à tona. Ela rapidamente se virou e tirou a manta que tapava seu rosto. Ele já estava um pouco distante, mas ela, mesmo assim, gritou:

- Eu não consigo lembrar.

Ele, confuso, retornou lentamente. Cada passo que dava era como se fosse rastejado, doloroso, duvidoso.

- Não entendi.

- Eu não me lembro da última vez que estávamos felizes. Eu não me lembro do nosso último beijo. Eu não me lembro do nosso último “te amo”. Eu só consigo me lembrar do dia em que fiquei sabendo da verdade. Nós fomos felizes? Pelo menos, por um dia?

As lágrimas corriam livremente pelas maças do rosto. Ela não sabia por que isso significava tanto para ela. Mas ficava pensando antes de dormir e não conseguir lembrar, lhe atordoava profundamente. Ela continuou:

- A gente nunca sabe quando vai acabar. Quando vai ser a última palavra. Quando vai poder dizer o que sente naturalmente. A gente simplesmente não sabe quando as coisas vão mudar. Quando a verdade não é bem aquela que imaginamos. E quando isso acontece, a gente não sabe dizer como foi e nem quando foi. É deprimente. E isso me mata por dentro. Isso me mata um pouquinho a cada dia que passa e me mata saber que não há nada que eu possa fazer.

- O nosso tempo passou, Liz. Isso não importa mais agora, tente seguir com a sua vida. Não pense mais nisso. Não tem utilidade nenhuma.

- Realmente? É isso?

Ela pensou estar surpresa, mas sabia, realmente, que ele não sentia as mesmas coisas que ela. Baixou os olhos e viu os velhos sapatos marrons, tão familiares. Não pode deixar de se sentir nostálgica e deprimida. Como havia tudo mudado?

- A gente caminhava pela beira d’água. Tirávamos fotos do céu e do mar. Eu, sem que você percebesse, tirava algumas fotos suas também. Eu não conseguia imaginar alguém mais linda. Seu irmão lhe ligou, nessa hora, e você ficou conversando com ele um tempo. Parecia feliz, parecia estar contando novidades, boas novidades. Esse foi o nosso último momento, pelo menos, o último que ficou registrado na minha memória. Todos os outros que vieram depois parecem ser um grande conjunto de imagens de um drama que inevitavelmente tinha de acabar.

Ele se virou novamente e continuou andando, indo na direção que previamente seguia. Um vazio enorme preencheu o peito de Liz. O ar frio inundou seu corpo, suas veias, seu coração.

domingo, 1 de maio de 2011

Mentiras e Verdades

Às vezes mentir é a saída fácil. Mentimos quando acordamos. Quando respondemos "tudo bem". Quando dormimos, sonhamos com coisas que mentimos para nós mesmos. Praticamos tão bem que nos enganamos. E nos acostumamos com as mentiras bem contadas. Por isso que a verdade dói tanto. Temos que enfrentar as coisas de uma vez por todas. Eaí, de repente, todas as mentiras escondidas aparecem e vão embora. É tempo de acordar. Por mais que a verdade possa ser decepcionante, nós temos a ela e ela a nós. O jeito que vamos lidar com isso é nossa decisão.

"Rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth."
Thoureau

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Quem vai dizer tchau



Enxerguei meu reflexo no espelho e não consegui te ver. Por trás daquela música que tocava, despertou em mim a vontade de te procurar aqui dentro. Não te encontrei, nem de longe pude te ver. Enquanto a música tocava, me encarei longamente no espelho e não consegui ver o rastro do teu verde dentro dos meus olhos, nem o traço dos teus toques no meu corpo, nem um resto de amor dentro de mim. A única marca que encontrei foi o não que dissemos já se vai algum bom tempo, um rasgo tatuado na memória, mas que não faz ferida aberta há muito. Tentei reviver a ferida mas a dor não dói mais, como na verdade creio que nunca tenha doído. Uma vontade de me sentir como me sentia, saudades de mim como costumo sentir e não, feliz ou infelizmente, saudades tuas. Saudade nenhuma.
Encarei as caixas, encarei a casa, a sacada, a porta que se abriu sozinha e que me fez pensar que as lembranças que ainda existem voltam por conta própria, como uma porta que se abre contra o nosso desejo, e que não tenho o poder de tomá-las como algumas vezes pretendo. Encarei os pacotes, toquei as portas e então percebi que não te pus em caixa alguma. Não te guardei para recordar quando quisesse. Não sei quando, não sei como nem onde, mas todos os sentimentos se perderam como a caixa extraviada na mudança. Não tenho tuas cartas nem tuas fotos nem teus presentes para me perder em alguma tarde vazia de outono, acompanhada de um chocolate ou para te mostrar para a minha filha. Não tenho lembranças, apesar de recordar sempre do verde corroído dos teus olhos - a marca inconfundível das declarações que foram tuas, a forma velada de dedicar a ti tudo o que um dia escrevi. Não tenho saudades, não tenho amor, não tenho espaço nem vontade para ti, como não tive suficientes na época em que escolhi sem ti o meu caminho. Tenho carinho na memória, um cheiro que invade sensivelmente a casa em noites esparsas e que faz lembrar somente de mim, que me devolve à minha leveza e aos meus sonhos. Tenho todas as lembranças somente numa caixa na memória, que vem se corroendo aos poucos, por mais que eu cisme em protegê-la do pó e dos espaços das novas memórias que tentam se apoderar dela.
Olhei o céu, as fotos nos meus porta-retratos, a cama bagunçada e percebi em todos os espaços a presença de uma certeza incompatível com as tuas lembranças.
Rasguei a única foto. Algumas memórias só precisam de espaço no coração.


E a música é essa mesma. Quando aconteceu, não sei...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Resto da Vida

Não quero nunca te ouvir dizer que pretende ficar comigo pelo resto da vida. Não quero nunca te dizer que passo contigo o resto dos meus dias. Não quero ser resto, não me encaro como fim, não nos vejo como conclusão e sim como uma folha nova e em branco. Quero passar contigo todos os meus dias, sejam eles quantos forem, sejam eles como forem e como vierem. Quero encarar contigo todos os meus problemas, dividir todas as minhas mágoas e somar todas as minhas alegrias, por mais que seja impossível prever quantas e quais serão elas. Quero todos os teus suspiros - e não o resto deles. Quero todo o brilho dos teus olhos, todos os sons da tua boca, todos os beijos do teu coração, todos os toques dos teus dedos, todos os desejos da tua alma. Porém jamais pretendo ser resto, ser resto da vida, ser até que a morte nos separe. Que a vida nos separe, seja durante seu curso ou como o último capítulo de um livro que nunca pretendeu ter fim, que nunca estimou ter sobras. Quero todos os teus sóis, tuas nuvens e tuas luas, quero todos os teus sonhos, todos os anseios, pesadelos e euforias; só não me venha com resto.
Fico contigo até que a vida nos separe, até que ela abandone um de nós dois com um último sopro. E, só depois que a vida nos separar, viverei o resto da vida. Aí resto, somente na expectativa da vida me abandonar para que eu possa te encontrar. Por todos os tempos - e jamais pelo resto deles.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A Vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo" Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!



(Florbela Espanca)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Mudanças

Mudar. Mudar nunca me pareceu a coisa certa. Comecei tentando mudar a negação que sempre inicia meus textos, apenas consegui transferi-la para a segunda frase desse. Encarava a estrada como um caminho de passagem e não um lugar para se viver, talvez por isso não gostava muito de viajar. Sair do lugar me fazia repensar e por muito tempo acreditei que repensar, reviver, recriar não fosse preciso. Me enganei.
Ontem encarei a estrada como uma parte do final de semana, um grand finale para um belo domingo. Diferente eu a olhei, diferente ela me inspírou. É necessário mudar, sair do lugar, rever as posições, abandonar o conforto, se perder nas ruas de um lugar desconhecido; fazer malas, desembalar caixas, jogar fora anos de lembranças e de roupas velhas acumuladas no armário, reorganizar a vida, pintar as paredes, arrumar a casa. É preciso chegar sem saber nada, é preciso aprender cada nome, revirar ruas e descobrir em um canto escondido um bom lugar para jantar, é preciso conhecer um novo lugar, adquirir novos referenciais, novas praças onde sentar para observar o céu. Quando o exterior muda, o interior se vê obrigado a mudar junto com ele, a abandonar a poltrona do conformismo, encarar nova paisagem, desvendar novos programas, sentimentos, cheiros, cores e sensações. O frio gelado e seco entra pela sacada e dá a sensação das bochechas rachadas, já é um começo para um novo.
Precisamos recomeçar por algum lugar. Precisamos de um onde para nos refazer, recriar, destruir tudo e modificar o que for preciso. Uma nova paisagem nada mais é do que um ótimo pretexto para mudar o que nos desagrada - não no céu, não nas praças - em nós mesmos. É um horizonte para nos reinventar, um infinito de possibilidades.

Ainda bem que fiz as malas.

domingo, 24 de abril de 2011

All I've Got To Do



You just gotta call on me!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Recomeçar

A vida é feita de fases. De ciclos. Acabo de recomeçar do zero. Do zero, não. Minto.

Confesso que não sei muitas coisas da vida. Sempre me considerei além da minha idade, mas agora, com vinte anos, talvez eu seja só mais uma cabecinha ambulante que o vento bagunça os cabelos. Talvez eu não seja tão madura mesmo. E fiquei me perguntando, se eu não tivesse passado por todas as dificuldades e desilusões será que eu seria ainda menos? Provavelmente. Isso me dá a certeza de que ainda vou quebrar muito a cara, de que vou me iludir, ficar com o pé atrás e me desiludir muitas vezes ainda. Porque sinto que a vida ainda tem muito a me ensinar. Da maneira difícil, aquela doída mesmo, que parece que vamos ficar sem ar. Porém, talvez seja a maneira mais eficaz no final das contas de aprender a lição. E a lição que eu aprendi nessas últimas semanas é que gostar da gente é muito melhor que gostar de qualquer outra pessoa. Valorizar-me foi o meu melhor remédio. E isso deu resultado. As pessoas perceberam - mesmo aquelas que eu não conhecia ou não notava. Fazia séculos que eu não me sentia apreciada e cultivada. E eu vi que minha companhia e só ela é uma das melhores coisas da vida. Desfrutar dos pequenos prazeres quando se está em paz consigo é maravilhoso. E ter consciência que nada está acabado. Está apenas começando.

p.s. Voltei para o blog. Sim. Por quê? Cansei de anular meus sentimentos e pensamentos. Preciso falar, gritar, desabafar. Mesmo que ninguém leia. Mesmo que ninguém ouça. É melhor do que o meu silêncio. Esse luto sufocou minhas idéias e minhas emoções.

domingo, 17 de abril de 2011

A capa verde

A coletânea de Vinícius da capa verde se mostrou bem ao meu lado enquanto passo os olhos sobre as nossas pilhas quase imensas de livros esparramados pelo chão da casa, enquanto as estantes não chegam. Eles estão desordenadamente dispostos, indispostos, dividindo espaço com as minhas almofadas, meu computador e minha desorganização particular. No meio de tantas pilhas, de tantas aleatoriedades, encontro alguma razão na ordem da disposição: há sempre uma poesia, uma história, um clássico em quase cada uma das pilhas, como um convite silencioso a saborear cada um desses, intencionalmente organizados por ti para me enganar e me fazer crer que nada tens a ver com os meus favoritos estarem sempre no topo dos escombros literários da nossa sala de jantar. 
Vinícius veio parar no meu colo e imediatamente me fez pensar em te escrever, relembrando os dias que andavas pela faculdade com ele embaixo do braço, sem que ninguém pudesse encostar. Até que roubei ele de ti, abri em uma página qualquer e te li uma poesia, naquela sala do canto em que costumávamos jogar horas pela janela conversando trivialidades e nos perdendo em nós mesmos, mesmo que nunca tenha havido um toque, nem um abraço, nem um encontro de mãos por mais sutil que fosse. Tocar aquela capa verde, naquela manhã nublada, foi como poder tocar o teu rosto sempre intocável pelas nossas manias de distância e de preservação que nos aproximaram muito mais do que jamais poderíamos imaginar, foi como percorrer com os meus dedos o desenho da tua barba, como afastar todas as cadeiras e a comprida mesa da sala para te tirar para uma dança.
Vou confessar que, vez ou outra, abro o Vinícius na minha frente para tocar as laterais já envelhecidas e percorrer as páginas amareladas como quem acaricia teu corpo. Abro naquelas páginas marcadas, orelhas dobradas e encontro a poesia que te recitei naquela vez. Ela está duplamente marcada, a orelha dobrada e um papel rabiscado no meio da folha. Lembro dela, "Poema dos olhos da amada". Lembro que comentasse meus olhos verdes, que achei graça e mudei de assunto. Lembro de ficar ligeiramente envergonhada e de quase não conseguir conter um riso largo. Vou confessar que releio esse poema algumas vezes por semana e sempre te encontro lá, dizendo que eu te olho sempre pela linha superior dos meus óculos. Vou confesar que me encontrei em Vinícius e que, já naquele dia, me perdi em ti. E se isso for se perder, não quero me encontrar nunca mais.

sábado, 16 de abril de 2011

A Pedra

Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a - Eu irrito o silêncio dos insetos.
b - Sou batido de luar nas solitudes.
c - Tomo banho de orvalho de manhã.
d - E o sol me cumprimenta por primeiro.

(Manoel de Barros)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Felicidade

“Era uma vez uma senhora que desde menina tinha uma vontade enorme de possuir um desses copos antigos, todos trabalhados a ouro e salpicados de florinhas multicolores que trazem desenhada em letras finas a palavra Felicidade.
Um dia ela descobre na Casa Rola, um local em desordem, o tão desejado copo, entretanto não pode levá-lo porque o proprietário da loja queria muito pela raridade. Decepcionada volta para casa e pára de pensar no copo, até que um dia um incêndio destrói a Casa Rola. Ela, então, passando pelo local descobre que uma loja vendia os restos do incêndio e lá encontrou o copo, por uma ninharia o comprou. Em casa, constatou que havia uma rachadura no copo bem sobre a palavra felicidade. “A senhora guardou o copo assim mesmo, conserva-o com carinho e teme que possa quebrar-se de vez. Mas sempre que perto dela se fala em felicidade, se existe ou não, se é questão de sorte ou luta, recompensa ou acaso, se dura ou é efêmera, e se qualquer um pode obtê-la, a senhora de minha história não diz nada, e suspira pensando no copo.”

Maluh de Ouro Preto, descoberta ao acaso na noite de ontem, pelo aniversário da doação do seu acervo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Vem!

Sou possessiva, sou mandona, ciumenta e chata, muito chata. Mas sabes muito bem que eu sei ser doce. Que eu sei olhar com olhos de bem-querer. Sabes, acima de tudo, o quanto sempre te quis. Sabes manobrar - que palavra terrível - meu corpo e meu coração como ninguém mais sabe. Sabes me fazer parar de reclamar compulsivamente, seja por rabugice ou por hábito mesmo. Sabes rir e contemplar os meus defeitos, elogiar minha comida, cozinhar para mim. Sabes que desejo e preciso ser mimada e executas teus planos de surpresas e mimos com maestria e precisão. Sabes que gosto das flores pequenas e que não gosto de cor-de-rosa. Sabes apreciar a rotina e admirar a paisagem. Sabes me fascinar e me reconstruir todos os dias. Vem, que sabes respeitar meu temperamento explosivo e minha contrariedade. Algumas horas longe são o suficiente para que eu precise mais uma vez do teu cheiro, da tua boca, os pelos arrepiados na nuca, as unhas que lentamente me arranham as costas num carinho que doma minha ira, os dentes que mordem meus dedinhos do pé enquanto durmo e os dedos que me acordam percorrendo meu rosto num leve carinho que me tira do sono de um jeito leve e irresistível. Foi o teu despertar que me fez escrever hoje, o teu acordar que me acordou não para um dia mas, mais uma vez, para o fascínio que essa rotina me causa todos os dias. Tua leveza me faz pedir "Vem!", meu amor me faz pedir "Fica!" e essa felicidade toda me faz te dizer "Não te deixo jamais!".
Me tens inteira, sem medos, sem receios, sem dúvidas, sem passado.
Te fizesse presente e futuro. Te fazes minha vida a cada dia que passa.

P.S.- Vem logo, hoje é teu dia de cozinhar!

terça-feira, 12 de abril de 2011

a porta aberta

Deixei a porta aberta. A música está tocando, o sofá está no mesmo lugar com a mesma colcha, eu ainda uso o mesmo perfume e podes me reconhecer facilmente pelo olfato de um pouco de sede, aquele mesmo aroma que sempre guardo na boca quando vou dormir, daquele copo que nunca abandona a minha cabeceira. Deixei a porta aberta. Não demore, eu disse para levar um guarda-chuva, o tempo está se armando e as nuvens pretas vão em breve se expressar em pingos. Às seis eu tomo o meu café, por favor esteja de volta até lá para temperar as minhas torradas que não sei mais temperar sozinha. O sol sufocando por entre as nuvens reflete na janela e bate bem aqui na minha janela, não se preocupe ao encontrar as cortinas fechadas ao chegar, é só para evitar o sol que insiste em se infiltrar pela sala mais do que já faz habitualmente, pela manhã, na janela do quarto que sabes que é minha mania secreta de dormir observando as estrelas. Ainda são cinco e quinze, o tempo se arrasta nessas tardes cansativas, meu livro está aberto naquela mesma página que venho me enrolando para ler, espero que ao chegar tenhas o cuidado de marcar a página antes de tirá-lo do meu colo, não leria todo o capítulo de novo. Deixei a porta aberta. E não acredito que mais alguém entenda o que isso quer dizer.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Manhã Branca

Hoje acordei com frio. Acordei e fui refazer teus passos na procura de algum vestígio de calor ou de amor que ainda tenha ficado caído pelo corredor. Desenhei teu caminho, percorri tua trilha buscando algum carinho esquecido atrás da porta que fosse capaz de me aquecer nessa manhã branca, sem sol, sem nuvens, sem graça. Acordei junto comigo as tuas roupas, os teus traços, teu travesseiro e os teus cheiros esparramados, carinhosamente juntei teus pedaços esparsos e em momento algum me senti menor por buscar nos teus resquícios algo suficientemente caloroso para me fazer suportar essa manhã quase insuportável. Não me senti menor pois não catei teu amor como sobras, não te peço o amor, não te imploro, como nunca ousaria te pedir ou implorar ou exigir algum amor - inexigível por natureza; esse amor é dado de graça todos os dias através das tuas pequenas demonstrações cotidianas, as marcas de um corpo que faz questão de me mostrar que esteve ali, que faz seu rastro para que eu o percorra e o desfaça quantas vezes forem necessárias para que seja notado. 
Teu amor se mostra no cheiro do café que me espera na borda da cama todos os dias, as mãos cuidadosamente aquecidas antes de se aproximarem do meu corpo sempre frio ao acordar, na escolha das minhas unhas e das frutas da tarde, na casa preparada para me ver despertar no domingo, sempre tarde, sempre cansada. Se mostra quando se esconde, faz questão de se mostrar quando nem te vejo sair.
Não me sinto menor por procurar os teus sinais quanto tu sai pela porta; ao contrário, levanto correndo para que as xícaras não esfriem, os dedos ainda estejam marcados na superfície gelada do banheiro, a cama quente, o travesseiro largado, a chave balançando na fechadura, a toalha sempre pendurada em alguma das portas. Teus sinais são preparados cuidadosamente por ti e seria menor, aí sim, ao desprezar a forma mais bonita que um amor pode tomar: o apreço pelo cotidiano. É a rotina que engrandece o nosso amor.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Tatuagem

Alguém consegue nos marcar para sempre. Alguém consegue dizer as palavras certas, fazer o gesto correto, segurar a nossa mão com a força e a leveza ideais no momento exato, sussurrar no tom de uma melodia, dedicar a música inesquecível, beijar com o sabor doce e azedo na medida certa. Sempre há alguém que nos marca como tatuagem, que faz do nosso coração latifúndio, que dispara a ansiedade e afeta a respiração. Por sinal, esses dias ela me ligou para saber qual era a música deles dois e, nesse momento, só pude dizer a ela que acabara de me comprovar que jamais havia lhe amado. Esquecemos as datas, as feições e os traços do rosto, mas de quem nos marca jamais esquecemos o cheiro, a respiração e a trilha sonora. Ela não entendeu nada e me demorei no telefone para explicar melhor, para dizer que o perfume funciona como um gatilho das memórias adormecidas, das sensações quase esquecidas. O cheiro nos faz sentir aquele ar quente da respiração do outro na parte superior dos nossos lábios, faz a mão suar com a memória da pressão exata daqueles dedos entrelaçados aos nossos, faz o coração entrar em descompasso. A música nos joga de volta às nossas memórias, nos deixa nus diante dos sentimentos que pensávamos ter esquecido já há muito tempo. A música nos arremessa para o passado, joga com o peito e com a alma de modo quase desleal, não nos permite escolher se desejamos ou não reviver o cheiro da tarde de outono, as flores de primavera e os perfumes das frutas do verão.
Disse a ela que não diria qual era a música. Ainda sem entender, contestou. Se não foi capaz de marcá-la, não sou eu quem vou dar a ele a segunda chance. Nananinanão.

terça-feira, 5 de abril de 2011

para as paredes 008

Minha tia uma vez disse que eu escrevia para o meu primeiro namorado. Ela sabe, mas talvez comigo não tenha percebido, que nós escrevemos para aqueles com quem nunca tivemos nada. Não que nada seja a palavra certa, muito pelo contrário, talvez nada nunca represente - nem passe perto de representar - a proporção das coisas com quem não tivemos "nada", porém é errado acreditar que dediquei muitas das minhas nostalgias àquelas pessoas com quem me relacionei. Escrevi sobre aquilo que vi mas, muito mais que isso, sobre tudo aquilo que sonhei.
Minha tia talvez achasse que eu sentia dor daquilo que vivi; mal sabia ela que o que me doía era exatamente tudo aquilo que deixei de viver, cada palavra não dita, gesto não saboreado, sentimento sonegado. Minha tia entende muito bem que a saudade do que vivemos não machuca tanto quanto o ressentimento daquilo que não nos permitimos viver. Ela sabe, sabe muito bem, sabe assim como eu que o Roberto Carlos que nos toca não é aquele dedicado a nós, mas aquela canção que ficou no lado B dos nossos corações, esperando que o disco fosse virado e ele nunca foi. Ela sabe que o que foi vivido não provoca um vazio tão intenso como aquele espaço que fica quando deixamos de viver.
O que sinto é saudades. Mas não, tia, não é saudades de nada que eu já tenha vivido. É uma saudade vazia, é do que eu encontrava em mim, das histórias que fantasiava, dos sonhos que pensava e os planos que concebia. É uma saudade sem objeto, uma saudade que sempre existiu e sempre existirá, necessária para que o meu coração permaneça batendo. Preciso daquele espaço vazio, daquele espaço saudoso, todos nós precisamos de um pouco de amor reservado a ninguém.
Roberto já dizia que "das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter". E a minha saudade é assim: sem cara, sem nome, sem rumo. É a saudade de tudo que eu jamais vou viver.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Up Where We Belong


Lembro sempre da minha mãe com essa música, aqueles olhos que não se contiam.


"Time goes by
No time to cry
Life's you and I
Alive today..."

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Trocando em Miúdos



"Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde."

(Chico Buarque)