segunda-feira, 30 de maio de 2011

Oração





"Cabe o meu amor
Cabem 3 vidas inteiras..."

(A Banda Mais Bonita da Cidade)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Terças-feiras de solidão

Admiro quem sabe viver sozinho. Admiro aqueles que nascem sabendo seu lugar no mundo, que se orientam sem precisar de ajuda e que perseguem seus objetivos sem que haja alguém para guiá-los. Admiro quem sabe apreciar a solidão em tempo integral, o único prato na mesa, quem troca os móveis de lugar e fica satisfeito mesmo sem ter ninguém para quem mostrar a nova organização da casa. Eu não sou assim.
Sempre adorei solidão, porém aquela solidão com hora marcada para ter fim, aquela que se esvai com apenas um telefonema ou às quatro da tarde de uma quinta-feira, quando o outro deixou claro que chegaria em casa. Preciso de um tempo sozinha, mas minha solidão não é exigente. Sei ser sozinha com outra pessoa em casa, sei ser mais sozinha com alguém estalando os pratos na cozinha ou arranhando notas de violão pela sala. Com companhia, minha solidão é mais feliz.
Eu admiro e reconheço aqueles que vivem e erguem sozinhos suas vidas, mas pra mim esse caminho não funciona. Fico perdida sem o outro prato na mesa, sem o corpo do outro lado da cama, sem o rastro de toalhas molhadas que torna óbvio que mais alguém esteve ali. Não sei me arrumar para mim mesma, me enfeitar para mim, cozinhar para mim, viver só para mim. Preciso de elogios matinais, beijos inesperados, preciso ouvir o ranger da maçaneta enquanto preparo a comida ou ter a certeza de que há alguém lá, mesmo que do outro lado da casa. De alguém para quem me vestir, de alguém por quem me despir, de alguém em quem pensar em tempo integral. A vida só tem graça quando temos alguém por quem viver.
Hoje é o meu dia de ficar sozinha; são as vinte e quatro horas mais torturantes da semana. É a solidão indesejada, a que não vai ser perturbada nem interrompida, a certeza de que lerei o livro até o fim sem precisar parar para descrever o que leio ou para prestar atenção no que ele lê. Hoje é o dia que viro as costas para a minha casa, vou almoçar fora, remover da memória o lado vazio da cama, o prato e a casa que acordou hoje exatamente como a deixei ontem. Preciso de alguém que interrompa meus pensamentos, critique minha solidão, minha roupa, meu molho, minha maneira de organizar os livros. Preciso de alguém que divida comigo a casa, as tarefas, os sonhos, as angústias e os sentimentos. Preciso de amor, em tempo integral.

domingo, 22 de maio de 2011

tempo

O tempo insiste em não passar. O ponteiro se arrasta levando mais tempo do que o de costume para sair do um e chegar até o dois, os minutos não chegam, as horas não cansam de ficar paradas no mesmo lugar. Nem foi tanto tempo assim, mas é a tortura da incerteza do tempo que ainda falta e do relógio que atormenta com cada movimento que ecoa pela cozinha vazia o que desperta a ansiedade e o nervosismo de nunca chegar. O sono foi brincar com o tempo; insistem os dois em não se fazer voltar para casa. Escrevo "para" em lugar de "pra", para consumir mais alguns dos segundos na leitura silenciosa que faço de cada tecla digitada e de cada movimento incerto no escuro de casa.
Esse tempo não tem fim.
Assim como não teria tudo o que eu poderia querer dizer com isso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Certezas

Nascemos em cima de convicções. Nossos pais decidem, desde muito antes de nascermos, quais serão os melhores caminhos para nós, se usaremos chupeta ou não, quando tiraremos as fraldas, qual será a idade certa para entrar para a escola, quais as características que deverão ser aprimoradas desde pequenos para que sejamos pessoas boas e honradas. Crescemos em cima de convicções. Cremos que seremos os melhores para nós mesmos - ou para os nossos pais e seus anseios -, que a escola é o único caminho de nos tornarmos alguém, que a faculdade é a única opção após o ensino médio, que a vida possui um roteiro a ser seguido para que não soframos ou nos decepcionemos e que, caso nos desviemos do caminho inflexível que ensinam desde que nascemos, seremos infelizes e frustrados. Crescemos acreditando que homens bem-sucedidos são aqueles que têm carro do ano, casa própria e diploma na mão; mulheres felizes são as que conjugam diversas funções, são as que nunca cogitariam abandonar a faculdade ou a profissão para se dedicar aos filhos, à casa ou simplesmente à musica ou alguma atividade que lhes dê mais prazer do que algo que traga dinheiro.
Nascemos e crescemos reproduzindo certezas, convicções infundadas e apenas repassadas de pai para filho, sem muitas vezes questionar se é essa a vida que queremos levar, se fazemos questão da faculdade, do carro zero, da segurança financeira. Nascemos e crescemos construindo, acumulando e reproduzindo frustrações. Quando crescemos mais um pouco e de dentro de nós está próxima a saída de um ser indefeso diante de tantas convicções, repensamos muitas das coisas que nossos pais e todos ao nosso redor sempre ensinaram como o certo a fazer. Questionamos as atitudes e as posturas daqueles que, apesar de terem pregado tantos ideais, muitas vezes se desviaram do caminho ensinado - seja por vontade, por falta de outra opção, seja para consertar algo que ficou para trás, seja para recuperar um tempo dado como perdido. Questionamos os valores que construímos para as nossas vidas e se realmente são aquilo que queremos e devemos passar adiante e, assustadoramente, descobrimos que uma reciclagem de nossos hábitos e principalmente de nossos pensamentos é necessária para que não sejamos responsáveis pela formação de alguém infeliz na sua essência.
Depois de um tempo, conseguimos libertar um pedacinho de nós mesmos dessas certezas absurdas e do molde ao qual tentávamos a vida toda nos adaptar e que, por alguma razão, não nos caía muito bem. Depois de um tempo, conseguimos perceber que nem sempre as convicções são tão convictas assim e que as certezas se esvaem diante da primeira pergunta a qual a submetemos. Depois de algum tempo, na ânsia de sermos diferentes, de proporcionar aos nossos uma perspectiva mais humana e a possibilidade de um pouco menos de frustração do que os nossos pais, mesmo que com a melhor das intenções, puderam nos proporcionar, reconsideramos as nossas atitudes diante da vida e reavaliamos a importância de diversas atitudes na composição daquilo que chamamos felicidade. Temos que descobrir sozinhos o caminho da felicidade e aprendemos da maneira mais difícil que a vida não é linear nem rígida, temos que nos descobrir e encontrar sozinhos o caminho que nos realiza, precisamos enxergar que os próximos passos serão sempre opções e não sentenças, que a felicidade pode se esconder atrás das menores coisas e que alguns de nós nunca nos consideraremos felizes apesar do carro do ano, a casa própria, o marido e os dos filhos.

Os pais não nos ensinam mas, depois de um tempo, percebemos que o amor supera as certezas e, principalmente, a falta delas. Os pais também têm que guardar os seus segredos, têm que nos cobrir de certezas para que possamos reagir, nos descobrir delas e encontrar nossos caminhos. 
O bom da vida é se mover de paixão, do despertar ao adormecer.

P.S.- ainda agradeço à minha mãe pelos conselhos com as drogas, com as minhas escolhas e, ultimamente, com as roupas de bebê. A felicidade ela confiou que eu descobriria sozinha, ela nunca duvidou que eu conseguiria.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Caos

As pessoas dizem que não sabem o momento em que elas se apaixonam. Mas elas sabem, sim, o momento em que elas se dão conta disso. A gente vive esperando por momentos assim, e quando acontecem, não sabemos o que fazer. E de repente, tudo fica mais complicado. Deixamos de ser seres racionais. Parece que dependemos da sorte, do telefonema, do convite. Quando ficamos tão desesperadas por atenção? Quando mudamos o foco? É por isso que não nos apaixonamos todas as semanas. Imagina, esse caos toda segunda-feira?

terça-feira, 10 de maio de 2011

Diga


"Todo mundo sabe o que existe entre nós dois
Diga tudo agora e não depois..."

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sentimentos - para as paredes 009

Hoje eu li algo que falava sobre paixão, que exalava paixão. Não aquela paixão da carne, não a paixão física, não por alguém, não a paixão direcionada, mas li sobre uma vida que se definia como sendo puramente paixão. Simples paixão.
Fiquei surpresa, atordoada com aquele tanto de paixão e comecei a procurar em mim onde estariam os vestígios dessa paixão gratuita, se é que ela existe em mim. Procurando paixão, encontrei-a nos lugares mais óbvios, consegui materializar a palavra em alguns rostos somados com mais uma meia dúzia de outras palavras igualmente apaixonantes, consegui encontrar paixão em alguns gestos, em determinadas atitudes e em uma pequena quantidade de objetos. Em nenhum lugar consegui encontrar aquela paixão gratuita. Não encontrei paixão em nada que faço além das atividades cotidianas. Tentei reduzir a significação de paixão para prazer - novamente não o físico, não o direcionado, não o personificado -, mas o prazer em algo além das obrigações cotidianas. Busquei o prazer e só consegui encontrar sentido semelhante nas coisas que não faço mais, nas coisas que não me permito mais. Encontrei em alguma quantidade significativa de livros, em algum gênero de música, em uma breve exposição ao sol e em alguns longos passeios despretensiosos pelas ruas de uma cidade quase desconhecida. Não consegui encontrar nada na minha rotina que me remetesse a paixão e prazer e que estivesse ligado somente a mim, sem personificação, sem rostos, sem terceira pessoa. Não consegui encontrar nem um rastro de paixão nas aulas que assisto, nos livros que sou obrigada a ler, nas pessoas com quem me deparo durante toda a semana. Ainda um pouco perdida nas buscas de significados no interior e na briga pela redução de sentidos para me convencer que nem tudo está tão perdido assim, tentei uma última redução. Busquei a satisfação, como algum rastro da generalização da paixão e em seguida do prazer também. Encontrei satisfação nas mesmas coisas onde encontrei paixão e prazer, mas não a encontrei onde já não havia encontrado seus irmãos mais velhos. Encontrei uma fresta de sol por entre as nuvens que hoje insistem em acinzentar o céu e que penetra com timidez a minha sala e encontra minhas pernas estiradas no sofá. Encontrei um rasgo recém aberto no peito com aquela frase que falava de paixão. Só não encontrei a satisfação nas coisas que precisava encontrar.
Mas às vezes é bom rasgar tudo, se perder. Uma leve batida de depressão faz todo o sentido com uma segunda-feira pela manhã. Vou sair buscando paixão, preciso me apaixonar, buscando vida, alguns sorrisos e, caso não encontre nada, pelo menos ganho as esperanças de um sol que conseguiu se desprender de trás das nuvens.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Eu não me lembro

Uma tarde gelada estava por terminar naquela pequena cidade. Ela estava visitando os amigos e parentes depois de um longo período fora. Somente seus olhos estavam descobertos, tamanho era o frio que fazia naquelas ruas cinzas. Foi então que ele passou, praticamente um desconhecido, e disse “olá”. Ela parou e ficou olhando para o chão. Na sua cabeça milhões de pensamentos se teciam como um novelo de lã. Ficou levemente tonta. Fechou os olhos e a imagem deles juntos veio à tona. Ela rapidamente se virou e tirou a manta que tapava seu rosto. Ele já estava um pouco distante, mas ela, mesmo assim, gritou:

- Eu não consigo lembrar.

Ele, confuso, retornou lentamente. Cada passo que dava era como se fosse rastejado, doloroso, duvidoso.

- Não entendi.

- Eu não me lembro da última vez que estávamos felizes. Eu não me lembro do nosso último beijo. Eu não me lembro do nosso último “te amo”. Eu só consigo me lembrar do dia em que fiquei sabendo da verdade. Nós fomos felizes? Pelo menos, por um dia?

As lágrimas corriam livremente pelas maças do rosto. Ela não sabia por que isso significava tanto para ela. Mas ficava pensando antes de dormir e não conseguir lembrar, lhe atordoava profundamente. Ela continuou:

- A gente nunca sabe quando vai acabar. Quando vai ser a última palavra. Quando vai poder dizer o que sente naturalmente. A gente simplesmente não sabe quando as coisas vão mudar. Quando a verdade não é bem aquela que imaginamos. E quando isso acontece, a gente não sabe dizer como foi e nem quando foi. É deprimente. E isso me mata por dentro. Isso me mata um pouquinho a cada dia que passa e me mata saber que não há nada que eu possa fazer.

- O nosso tempo passou, Liz. Isso não importa mais agora, tente seguir com a sua vida. Não pense mais nisso. Não tem utilidade nenhuma.

- Realmente? É isso?

Ela pensou estar surpresa, mas sabia, realmente, que ele não sentia as mesmas coisas que ela. Baixou os olhos e viu os velhos sapatos marrons, tão familiares. Não pode deixar de se sentir nostálgica e deprimida. Como havia tudo mudado?

- A gente caminhava pela beira d’água. Tirávamos fotos do céu e do mar. Eu, sem que você percebesse, tirava algumas fotos suas também. Eu não conseguia imaginar alguém mais linda. Seu irmão lhe ligou, nessa hora, e você ficou conversando com ele um tempo. Parecia feliz, parecia estar contando novidades, boas novidades. Esse foi o nosso último momento, pelo menos, o último que ficou registrado na minha memória. Todos os outros que vieram depois parecem ser um grande conjunto de imagens de um drama que inevitavelmente tinha de acabar.

Ele se virou novamente e continuou andando, indo na direção que previamente seguia. Um vazio enorme preencheu o peito de Liz. O ar frio inundou seu corpo, suas veias, seu coração.

domingo, 1 de maio de 2011

Mentiras e Verdades

Às vezes mentir é a saída fácil. Mentimos quando acordamos. Quando respondemos "tudo bem". Quando dormimos, sonhamos com coisas que mentimos para nós mesmos. Praticamos tão bem que nos enganamos. E nos acostumamos com as mentiras bem contadas. Por isso que a verdade dói tanto. Temos que enfrentar as coisas de uma vez por todas. Eaí, de repente, todas as mentiras escondidas aparecem e vão embora. É tempo de acordar. Por mais que a verdade possa ser decepcionante, nós temos a ela e ela a nós. O jeito que vamos lidar com isso é nossa decisão.

"Rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth."
Thoureau

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Quem vai dizer tchau



Enxerguei meu reflexo no espelho e não consegui te ver. Por trás daquela música que tocava, despertou em mim a vontade de te procurar aqui dentro. Não te encontrei, nem de longe pude te ver. Enquanto a música tocava, me encarei longamente no espelho e não consegui ver o rastro do teu verde dentro dos meus olhos, nem o traço dos teus toques no meu corpo, nem um resto de amor dentro de mim. A única marca que encontrei foi o não que dissemos já se vai algum bom tempo, um rasgo tatuado na memória, mas que não faz ferida aberta há muito. Tentei reviver a ferida mas a dor não dói mais, como na verdade creio que nunca tenha doído. Uma vontade de me sentir como me sentia, saudades de mim como costumo sentir e não, feliz ou infelizmente, saudades tuas. Saudade nenhuma.
Encarei as caixas, encarei a casa, a sacada, a porta que se abriu sozinha e que me fez pensar que as lembranças que ainda existem voltam por conta própria, como uma porta que se abre contra o nosso desejo, e que não tenho o poder de tomá-las como algumas vezes pretendo. Encarei os pacotes, toquei as portas e então percebi que não te pus em caixa alguma. Não te guardei para recordar quando quisesse. Não sei quando, não sei como nem onde, mas todos os sentimentos se perderam como a caixa extraviada na mudança. Não tenho tuas cartas nem tuas fotos nem teus presentes para me perder em alguma tarde vazia de outono, acompanhada de um chocolate ou para te mostrar para a minha filha. Não tenho lembranças, apesar de recordar sempre do verde corroído dos teus olhos - a marca inconfundível das declarações que foram tuas, a forma velada de dedicar a ti tudo o que um dia escrevi. Não tenho saudades, não tenho amor, não tenho espaço nem vontade para ti, como não tive suficientes na época em que escolhi sem ti o meu caminho. Tenho carinho na memória, um cheiro que invade sensivelmente a casa em noites esparsas e que faz lembrar somente de mim, que me devolve à minha leveza e aos meus sonhos. Tenho todas as lembranças somente numa caixa na memória, que vem se corroendo aos poucos, por mais que eu cisme em protegê-la do pó e dos espaços das novas memórias que tentam se apoderar dela.
Olhei o céu, as fotos nos meus porta-retratos, a cama bagunçada e percebi em todos os espaços a presença de uma certeza incompatível com as tuas lembranças.
Rasguei a única foto. Algumas memórias só precisam de espaço no coração.


E a música é essa mesma. Quando aconteceu, não sei...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Resto da Vida

Não quero nunca te ouvir dizer que pretende ficar comigo pelo resto da vida. Não quero nunca te dizer que passo contigo o resto dos meus dias. Não quero ser resto, não me encaro como fim, não nos vejo como conclusão e sim como uma folha nova e em branco. Quero passar contigo todos os meus dias, sejam eles quantos forem, sejam eles como forem e como vierem. Quero encarar contigo todos os meus problemas, dividir todas as minhas mágoas e somar todas as minhas alegrias, por mais que seja impossível prever quantas e quais serão elas. Quero todos os teus suspiros - e não o resto deles. Quero todo o brilho dos teus olhos, todos os sons da tua boca, todos os beijos do teu coração, todos os toques dos teus dedos, todos os desejos da tua alma. Porém jamais pretendo ser resto, ser resto da vida, ser até que a morte nos separe. Que a vida nos separe, seja durante seu curso ou como o último capítulo de um livro que nunca pretendeu ter fim, que nunca estimou ter sobras. Quero todos os teus sóis, tuas nuvens e tuas luas, quero todos os teus sonhos, todos os anseios, pesadelos e euforias; só não me venha com resto.
Fico contigo até que a vida nos separe, até que ela abandone um de nós dois com um último sopro. E, só depois que a vida nos separar, viverei o resto da vida. Aí resto, somente na expectativa da vida me abandonar para que eu possa te encontrar. Por todos os tempos - e jamais pelo resto deles.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A Vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo" Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!



(Florbela Espanca)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Mudanças

Mudar. Mudar nunca me pareceu a coisa certa. Comecei tentando mudar a negação que sempre inicia meus textos, apenas consegui transferi-la para a segunda frase desse. Encarava a estrada como um caminho de passagem e não um lugar para se viver, talvez por isso não gostava muito de viajar. Sair do lugar me fazia repensar e por muito tempo acreditei que repensar, reviver, recriar não fosse preciso. Me enganei.
Ontem encarei a estrada como uma parte do final de semana, um grand finale para um belo domingo. Diferente eu a olhei, diferente ela me inspírou. É necessário mudar, sair do lugar, rever as posições, abandonar o conforto, se perder nas ruas de um lugar desconhecido; fazer malas, desembalar caixas, jogar fora anos de lembranças e de roupas velhas acumuladas no armário, reorganizar a vida, pintar as paredes, arrumar a casa. É preciso chegar sem saber nada, é preciso aprender cada nome, revirar ruas e descobrir em um canto escondido um bom lugar para jantar, é preciso conhecer um novo lugar, adquirir novos referenciais, novas praças onde sentar para observar o céu. Quando o exterior muda, o interior se vê obrigado a mudar junto com ele, a abandonar a poltrona do conformismo, encarar nova paisagem, desvendar novos programas, sentimentos, cheiros, cores e sensações. O frio gelado e seco entra pela sacada e dá a sensação das bochechas rachadas, já é um começo para um novo.
Precisamos recomeçar por algum lugar. Precisamos de um onde para nos refazer, recriar, destruir tudo e modificar o que for preciso. Uma nova paisagem nada mais é do que um ótimo pretexto para mudar o que nos desagrada - não no céu, não nas praças - em nós mesmos. É um horizonte para nos reinventar, um infinito de possibilidades.

Ainda bem que fiz as malas.

domingo, 24 de abril de 2011

All I've Got To Do



You just gotta call on me!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Recomeçar

A vida é feita de fases. De ciclos. Acabo de recomeçar do zero. Do zero, não. Minto.

Confesso que não sei muitas coisas da vida. Sempre me considerei além da minha idade, mas agora, com vinte anos, talvez eu seja só mais uma cabecinha ambulante que o vento bagunça os cabelos. Talvez eu não seja tão madura mesmo. E fiquei me perguntando, se eu não tivesse passado por todas as dificuldades e desilusões será que eu seria ainda menos? Provavelmente. Isso me dá a certeza de que ainda vou quebrar muito a cara, de que vou me iludir, ficar com o pé atrás e me desiludir muitas vezes ainda. Porque sinto que a vida ainda tem muito a me ensinar. Da maneira difícil, aquela doída mesmo, que parece que vamos ficar sem ar. Porém, talvez seja a maneira mais eficaz no final das contas de aprender a lição. E a lição que eu aprendi nessas últimas semanas é que gostar da gente é muito melhor que gostar de qualquer outra pessoa. Valorizar-me foi o meu melhor remédio. E isso deu resultado. As pessoas perceberam - mesmo aquelas que eu não conhecia ou não notava. Fazia séculos que eu não me sentia apreciada e cultivada. E eu vi que minha companhia e só ela é uma das melhores coisas da vida. Desfrutar dos pequenos prazeres quando se está em paz consigo é maravilhoso. E ter consciência que nada está acabado. Está apenas começando.

p.s. Voltei para o blog. Sim. Por quê? Cansei de anular meus sentimentos e pensamentos. Preciso falar, gritar, desabafar. Mesmo que ninguém leia. Mesmo que ninguém ouça. É melhor do que o meu silêncio. Esse luto sufocou minhas idéias e minhas emoções.

domingo, 17 de abril de 2011

A capa verde

A coletânea de Vinícius da capa verde se mostrou bem ao meu lado enquanto passo os olhos sobre as nossas pilhas quase imensas de livros esparramados pelo chão da casa, enquanto as estantes não chegam. Eles estão desordenadamente dispostos, indispostos, dividindo espaço com as minhas almofadas, meu computador e minha desorganização particular. No meio de tantas pilhas, de tantas aleatoriedades, encontro alguma razão na ordem da disposição: há sempre uma poesia, uma história, um clássico em quase cada uma das pilhas, como um convite silencioso a saborear cada um desses, intencionalmente organizados por ti para me enganar e me fazer crer que nada tens a ver com os meus favoritos estarem sempre no topo dos escombros literários da nossa sala de jantar. 
Vinícius veio parar no meu colo e imediatamente me fez pensar em te escrever, relembrando os dias que andavas pela faculdade com ele embaixo do braço, sem que ninguém pudesse encostar. Até que roubei ele de ti, abri em uma página qualquer e te li uma poesia, naquela sala do canto em que costumávamos jogar horas pela janela conversando trivialidades e nos perdendo em nós mesmos, mesmo que nunca tenha havido um toque, nem um abraço, nem um encontro de mãos por mais sutil que fosse. Tocar aquela capa verde, naquela manhã nublada, foi como poder tocar o teu rosto sempre intocável pelas nossas manias de distância e de preservação que nos aproximaram muito mais do que jamais poderíamos imaginar, foi como percorrer com os meus dedos o desenho da tua barba, como afastar todas as cadeiras e a comprida mesa da sala para te tirar para uma dança.
Vou confessar que, vez ou outra, abro o Vinícius na minha frente para tocar as laterais já envelhecidas e percorrer as páginas amareladas como quem acaricia teu corpo. Abro naquelas páginas marcadas, orelhas dobradas e encontro a poesia que te recitei naquela vez. Ela está duplamente marcada, a orelha dobrada e um papel rabiscado no meio da folha. Lembro dela, "Poema dos olhos da amada". Lembro que comentasse meus olhos verdes, que achei graça e mudei de assunto. Lembro de ficar ligeiramente envergonhada e de quase não conseguir conter um riso largo. Vou confessar que releio esse poema algumas vezes por semana e sempre te encontro lá, dizendo que eu te olho sempre pela linha superior dos meus óculos. Vou confesar que me encontrei em Vinícius e que, já naquele dia, me perdi em ti. E se isso for se perder, não quero me encontrar nunca mais.

sábado, 16 de abril de 2011

A Pedra

Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a - Eu irrito o silêncio dos insetos.
b - Sou batido de luar nas solitudes.
c - Tomo banho de orvalho de manhã.
d - E o sol me cumprimenta por primeiro.

(Manoel de Barros)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Felicidade

“Era uma vez uma senhora que desde menina tinha uma vontade enorme de possuir um desses copos antigos, todos trabalhados a ouro e salpicados de florinhas multicolores que trazem desenhada em letras finas a palavra Felicidade.
Um dia ela descobre na Casa Rola, um local em desordem, o tão desejado copo, entretanto não pode levá-lo porque o proprietário da loja queria muito pela raridade. Decepcionada volta para casa e pára de pensar no copo, até que um dia um incêndio destrói a Casa Rola. Ela, então, passando pelo local descobre que uma loja vendia os restos do incêndio e lá encontrou o copo, por uma ninharia o comprou. Em casa, constatou que havia uma rachadura no copo bem sobre a palavra felicidade. “A senhora guardou o copo assim mesmo, conserva-o com carinho e teme que possa quebrar-se de vez. Mas sempre que perto dela se fala em felicidade, se existe ou não, se é questão de sorte ou luta, recompensa ou acaso, se dura ou é efêmera, e se qualquer um pode obtê-la, a senhora de minha história não diz nada, e suspira pensando no copo.”

Maluh de Ouro Preto, descoberta ao acaso na noite de ontem, pelo aniversário da doação do seu acervo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Vem!

Sou possessiva, sou mandona, ciumenta e chata, muito chata. Mas sabes muito bem que eu sei ser doce. Que eu sei olhar com olhos de bem-querer. Sabes, acima de tudo, o quanto sempre te quis. Sabes manobrar - que palavra terrível - meu corpo e meu coração como ninguém mais sabe. Sabes me fazer parar de reclamar compulsivamente, seja por rabugice ou por hábito mesmo. Sabes rir e contemplar os meus defeitos, elogiar minha comida, cozinhar para mim. Sabes que desejo e preciso ser mimada e executas teus planos de surpresas e mimos com maestria e precisão. Sabes que gosto das flores pequenas e que não gosto de cor-de-rosa. Sabes apreciar a rotina e admirar a paisagem. Sabes me fascinar e me reconstruir todos os dias. Vem, que sabes respeitar meu temperamento explosivo e minha contrariedade. Algumas horas longe são o suficiente para que eu precise mais uma vez do teu cheiro, da tua boca, os pelos arrepiados na nuca, as unhas que lentamente me arranham as costas num carinho que doma minha ira, os dentes que mordem meus dedinhos do pé enquanto durmo e os dedos que me acordam percorrendo meu rosto num leve carinho que me tira do sono de um jeito leve e irresistível. Foi o teu despertar que me fez escrever hoje, o teu acordar que me acordou não para um dia mas, mais uma vez, para o fascínio que essa rotina me causa todos os dias. Tua leveza me faz pedir "Vem!", meu amor me faz pedir "Fica!" e essa felicidade toda me faz te dizer "Não te deixo jamais!".
Me tens inteira, sem medos, sem receios, sem dúvidas, sem passado.
Te fizesse presente e futuro. Te fazes minha vida a cada dia que passa.

P.S.- Vem logo, hoje é teu dia de cozinhar!

terça-feira, 12 de abril de 2011

a porta aberta

Deixei a porta aberta. A música está tocando, o sofá está no mesmo lugar com a mesma colcha, eu ainda uso o mesmo perfume e podes me reconhecer facilmente pelo olfato de um pouco de sede, aquele mesmo aroma que sempre guardo na boca quando vou dormir, daquele copo que nunca abandona a minha cabeceira. Deixei a porta aberta. Não demore, eu disse para levar um guarda-chuva, o tempo está se armando e as nuvens pretas vão em breve se expressar em pingos. Às seis eu tomo o meu café, por favor esteja de volta até lá para temperar as minhas torradas que não sei mais temperar sozinha. O sol sufocando por entre as nuvens reflete na janela e bate bem aqui na minha janela, não se preocupe ao encontrar as cortinas fechadas ao chegar, é só para evitar o sol que insiste em se infiltrar pela sala mais do que já faz habitualmente, pela manhã, na janela do quarto que sabes que é minha mania secreta de dormir observando as estrelas. Ainda são cinco e quinze, o tempo se arrasta nessas tardes cansativas, meu livro está aberto naquela mesma página que venho me enrolando para ler, espero que ao chegar tenhas o cuidado de marcar a página antes de tirá-lo do meu colo, não leria todo o capítulo de novo. Deixei a porta aberta. E não acredito que mais alguém entenda o que isso quer dizer.