Acumulei em diversos rascunhos todas as frases de efeito que poderia usar um dia para te escrever. Rabiscados à mão ou digitados na tela, encaro todas as sentenças que já não nos chamam mais. Por que insisto em te evocar? Rompi com minhas próprias regras ao permitir que te enraizasse naquelas músicas tão lindas e longas. Não consegui manter as barreiras de te fazer ser música sem significado algum e que jamais fosse sentir a necessidade de tocar novamente. Hoje elas tocam. São uma fila de músicas que somam mais de muitas horas, que foram ouvidas durante o breve sequestro que ainda relatarei um dia, que marcaram todas as despedidas que já tentamos ter, embora ainda não consiga entender como um abraço possa durar os sete minutos de uma música quase sem fim. Escrevo textos desconexos, frases sem liga, dramas sem sujeito... Todos vazios de não te precisar mais. Ainda me pego pensando o porquê de insistir nesses chamados sem retorno, nas ligações que não faço, nas revistas que compro e endereço erradas propositalmente, para que nunca cheguem às tuas mãos. Ainda me pergunto qual parte de mim não pode morrer quando te deixo à deriva e te abandono aos porões do meu pensamento e te ressuscito para sacudir, odiar e relegar mais uma vez. Ainda me pergunto porque lês minhas angústias com ar de observador, forçadas na ausência de um drama real com que me preocupar. Pergunto-me quanto de massagem no teu grande ego as minhas palavras perdidas podem oferecer. E volto ao fim reticente, ao início que não sei mais onde fica, às esquinas e músicas de sempre. Volto pra te ver passar. Volto pra não esquecer como foi me amar.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Too Late
Era tarde, era tarde na minha vida e tu apareceste. Inebriada já, insensata, talvez, teus olhos que até hoje não sei de que cor eram refletiam ao mesmo tempo meu desespero e minha tranquilidade diante daquela noite, diante daquele bar. Acho que eu não esperava aquilo, talvez, eu não esperasse nada, mesmo. Contei os degraus pensando que me beijarias lá em cima. Às vezes fico pensando se eu leio bem as pessoas ou elas que são tremendamente previsíveis. Mas nem tudo estava previsto, ora, ora... se estivesse, provavelmente não estaria contando e recontando essa noite aqui.
A verdade é que tive muitas noites. Eu conheci muita gente. Não tantas quanto eu gostaria, mas o suficiente pra conseguir mensurar esta em especial. E eu vi tanta, mas tanta beleza e sinceridade no que aconteceu ali. Da minha maneira torta, eu consegui esquecer meu mundo lá fora. Meu passado. Meu futuro. A noite tinha uma dimensão de vida e morte simultaneamente. E cada copo que eu bebia, tinha gosto de liberdade.
Os fantasmas que me atordoavam, calaram. Meu riso se fez largo. Meus pés, te seguiam. E entre abraços e olhares, nos fundíamos ao lugar, à musica, à alegria. Elis era Piaf e cantava alto... e eu? Eu cantava mais alto ainda... A noite se fez dia no calor que nos unia. Eu mal entendia o teu olhar, de quem se surpreendia, de quem se encantava e sorria ao me ver sorrir. Poder encontrar conforto e semelhança em lugares vazios, naquele dia me mostrou mais do que eu podia enxergar, pois quando fui embora, vi que não estava preparada pra ser feliz assim. Eu tinha medo. Existia muita coisa presa aqui fora, na vida real, muitos nós, muitas conversas inacabadas e sentimentos confusos. Existia muito trabalho pra mim pra poder largar tudo e passar a viver assim, de mãos dadas com aquele desconhecido. Mas a ilusão é doce, me vestiu bem naquele momento. E agora, quando fora a hora, eu saberei reconhecer e procurar no lugar certo.
A verdade é que tive muitas noites. Eu conheci muita gente. Não tantas quanto eu gostaria, mas o suficiente pra conseguir mensurar esta em especial. E eu vi tanta, mas tanta beleza e sinceridade no que aconteceu ali. Da minha maneira torta, eu consegui esquecer meu mundo lá fora. Meu passado. Meu futuro. A noite tinha uma dimensão de vida e morte simultaneamente. E cada copo que eu bebia, tinha gosto de liberdade.
Os fantasmas que me atordoavam, calaram. Meu riso se fez largo. Meus pés, te seguiam. E entre abraços e olhares, nos fundíamos ao lugar, à musica, à alegria. Elis era Piaf e cantava alto... e eu? Eu cantava mais alto ainda... A noite se fez dia no calor que nos unia. Eu mal entendia o teu olhar, de quem se surpreendia, de quem se encantava e sorria ao me ver sorrir. Poder encontrar conforto e semelhança em lugares vazios, naquele dia me mostrou mais do que eu podia enxergar, pois quando fui embora, vi que não estava preparada pra ser feliz assim. Eu tinha medo. Existia muita coisa presa aqui fora, na vida real, muitos nós, muitas conversas inacabadas e sentimentos confusos. Existia muito trabalho pra mim pra poder largar tudo e passar a viver assim, de mãos dadas com aquele desconhecido. Mas a ilusão é doce, me vestiu bem naquele momento. E agora, quando fora a hora, eu saberei reconhecer e procurar no lugar certo.
sábado, 15 de agosto de 2015
Me(i)a Culpa
É injusto dizer que de nós dois não restou nada, embora precise fazer força para trazer a tona as evocações que Ana me pede com tanta insistência por não crer na possibilidade que quase tudo tenha desaparecido nesse dilatar dos tempos. É injusto reduzir o que fomos (ou será o que somos?) a esse bloco de notas, ao tocador de músicas que repete sem cansar as faixas na tentativa de rememorar aquele gosto, ao vidro que guardava para lançar contra a luz e reproduzir fielmente a cor dos teus olhos e que já não tenho vontade de olhar.
Dividamos a culpa das injustiças, do afastamento, de todos os nossos desencontros. Assumo minha metade nas tantas vezes que silenciei tua boca com o dedo indicador para impedir teus lábios de pronunciarem um eu te amo. Assumo minha metade no orgulho que me fez imóvel quando deveria ter batido uma vez mais na tua porta - eu sei que estavas atrás dela me ouvindo chamar. Assumo minha metade sem culpa nas vezes em que enlouquecidamente te quis e busquei enquanto insistias para que eu fosse embora.
Peço-te a tua metade e cobro a conta pelos momentos em que olhei pra trás esperando te encontrar me buscando... não encontrei. A tua parte que me cabe nas inconsistências, nas idas e vindas tão frequentes e cronometradas quanto as cheias das marés inspiradas pela lua que se expande e contrai. A tua parte nas músicas que me levaram a loucura e que sei que fizeste de propósito. No passo derradeiro, no alcance da mão, no sequestro anunciado com a música ensurdecedora, me deixaste ir embora todas as vezes, deleitado na certeza de me ver voltar.
É injusto dizer que de nós dois não restou nada. Restou a conta em aberto, somas por acertar, restou o desencontro dos olhos que não se veem nem para equalizar as dívidas. Restou a vontade de te ver cais, de deixar de ser farol e passar, um dia quem sabe, a navegar com a certeza de te encontrar onde sempre foste insegurança. Restou a vontade de fazer o reverso, de em ti encontrar calmaria. Injusto, não?
terça-feira, 21 de julho de 2015
Descaso e Acaso
Ai, o mundo da materialidade! As pessoas se tornaram completamente descartáveis para as outras. E acredito que quando a gente entra nesse paradoxo, a gente reproduz a máquina. Para a maioria das pessoas basta um pouco, sem pedir muito, sem doar-se muito também.
Admiro meu jeito de combater isso. Mas às vezes não sei me colocar em primeiro lugar. Como se os problemas dos outros e a sensibilidade do outro me passasse por cima e eu esquecesse de mim mesma. Não consigo não me importar, não perguntar, apertar um botão de apagar e 'puff''. Tudo virou passado, pó, cinza. Não! Me recuso. Me recuso.
Eu gosto da maneira burra infelizmente de ser, gosto de reativar as coisas, de puxar pelo passado, de ver se aquela plantinha cresceu ou morreu. Simplesmente, também gosto de me ver no outro do passado. Nos traços que deixei no outro. Como um espelho que gravaria nosso eu antigo. Um lado narcisista não quer desaparecer no tempo e no espaço do esquecimento alheio. Porque assim, eu também me esqueceria de quem eu era? Ora, que besteira.
Quem é que precisa ser lembrado de quem é? Todos nós. Que podemos fazer... Por hora nos esquecemos de quem realmente somos. Nossas identidades ficam perdidas no ar. Nossas raízes flutuantes... Engraçado. Acredito que até o não perdoar é uma maneira de nos manter presos no passado, no conhecido. O conhecido é guardar mágoas, é não deixar ir. É querer remoer, querer se perder naquela imensidão de tristezas e decepções de um relacionamento falido. Mas, ora, falido por quê? Como disse hoje para a minha amiga, concordo com ela que haja sim decisões ditas erradas. E essas nos levam a lugares sombrios.
Mas, depois que fazemos essas escolhas e já estamos nesses lugares, o que fazer então? Não dá pra voltar. A única coisa que dá pra fazer, é seguir em frente. Pensando melhor, espero, para não repetir as mesmas escolhas. Que sejam erros novos. Que seja diferente.
domingo, 19 de julho de 2015
Clarice
[...] Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é.[...]
Clarice, sempre Clarice. (Lispector, claro).
Clarice, sempre Clarice. (Lispector, claro).
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Encontros e Desencontros
Me disseram para contar uma história. Então, de muitas que podem vir, vamos tentar primeiro com esta. Chovia há sete dias em Porto Alegre. Cidadezinha vazia, férias de julho, prédios desviando as gotas d'água que caíam do céu cinza chumbo. Depois de cair de um precipício emocional no final de semana, resolvi marcar um encontro. Sim. Eu, recentemente solteira de novo, resolvi me aventurar nesse mundo desconhecido dos solteiros, 'again'. Cinema. Fui rápida e certeira, ele aceitou imediatamente, como se estivesse do outro lado só esperando eu convidá-lo pra fazer algo. Quando ele disse rapidamente que sim, eu pensei, "uau, que fácil". Que fácil, que nada! Mas calma, que eu já estou me adiantando.
A verdade é que eu já tinha encontrado esse rapaz, uma semana atrás, e tinha sido um bom encontro. Conversas interessantes, algumas risadas em meio a drinks, um beijo aqui, outro ali, e eu vim embora para casa satisfeita. E pensei, por que não repetir? Então fomos, deixei ele escolher o filme, o que já começou mal. Um filme teen. Mas no final das contas, não era tão ruim assim, me fez pensar. Era a história de um adolescente do tipo nerd, típico, daqueles "criados em apartamento pela vó" (metaforicamente), apaixonado pela vizinha: uma garota que adorava aventuras e se metia em mil confusões. Mas no final do filme, para minha surpresa, um toque da vida real. A menina nunca se apaixonou por ele, ela estava imersa naquela vida de descobertas, da eterna descoberta de si mesma, e acredito que é mais fácil fugir de si mesmo viajando e ao mesmo tempo, tentando se encontrar, sem planos, sem pressa. Enquanto ele, estava ótimo no final do filme. Ele tentou, fez o que tinha que fazer, e senti um orgulho nos olhos dele de missão cumprida. Ele não ganhou a garota, porque, na verdade, não precisava. E eu me vi ali. Sim, estava no cinema com um cara boa pinta, bonitão, inteligente, etc, etc, etc. Mas minha mente ficava voltando pro passado, eu simplesmente me via naquele garoto que descobria que a felicidade estava bem ali diante dele, na realidade, dentro dele, e que aquele sonho maluco de conquistar a menina rebelde, difícil e inalcançável era, sim, inalcançável. Mas ele não se sentiu fracassado, não era como se ele tivesse desistido, sabe? Ele estava em paz. E aquilo me tocou de um jeito. Me deu uma esperança absurda que eu também poderia ficar em paz. Porque eu tentei. Porque eu quis. Eu lutei. Fui forte por muitos anos. E aquilo, simplesmente, não era pra mim. Um ex meu costumava dizer que o pai dele sempre falava pra ele quando ele estava triste, "o que é teu está guardado". É mais ou menos por aí o que quero dizer. A felicidade está em nós, claro, ninguém vai nos dar algo que a gente já não tenha. Mas tanto o guri do filme como eu estávamos lutando por algo que nunca seria o que nós sonhávamos. E essa jornada é o oposto da felicidade.
Mas bem, voltando ao encontro, fiquei pensando na simplicidade que era ele gostar da minha companhia. Eu não tinha que me esforçar nem um pouco pra ele achar o máximo cada coisa que eu dizia (ou ele fingiu muito bem). E como a vida é engraçada, eu, ao contrário, bem... não estava tão confortável com as coisas que ele dizia. Mas a vida é assim mesmo, um eterno encontro e desencontro. E é preciso dizer adeus para certas coisas para poder dar boas vindas a outras.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
O quão difícil é fechar a porta pra uma paixão? Mesmo que ela nos mate, que ela sugue nossa energia de um jeito que nem achávamos que era possível? O quão difícil é deixar as coisas para trás?
Para mim, muito. É como se eu tivesse Phd em resgatar as coisas. Para quê deixá-las quietas, sem vida, enquanto podemos fazer uma bagunça naquilo que chamamos de amor? Pois bem, eu chamo.
E essa fase da minha vida, permeada por alívios e dores, quase que ao mesmo tempo, tem me deixado confusa. Por um lado sigo com a pequena esperança, mas nem por isso menos forte, de que as coisas vão mudar, meu príncipe vai me reconquistar em seu lindo cavalo branco, seremos felizes como sempre imaginei que seríamos, porque eu mereço. Ou... eu me afasto desse sonho que provavelmente nunca se tornará realidade, vivo a minha vida em paz, procurou outros sonhos. Simples, não? Pois então, não. É como se o diabo viesse te tentar toda vez que tu vai fechar os olhos. Como se tu estivesse em abstinência de uma droga. Como se de repente, não houvera mais ar suficiente para respirar direito. Tu pensas em mil loucuras que se misturam e se embaralham na sua cabeça antes que tu consigas ao menos entender porquê está sendo tão difícil fechar essa porta. Qual o problema, sabe? O que te prende no passado? Eu não sei. Para mim, só sei que não tem sido fácil. É como se cada vez que falássemos, uma faísca de alegria surgisse que pudesse fazer com que a gente pulasse vários capítulos tristes e fosse direto pro final feliz dessa história. Eaí, às vezes, caio na real sem nem tentar. Penso que escrevi a maior parte da história sozinha e muitas vezes na solidão do meu quarto escuro e frio. E também penso que o tempo não vai mudar a maneira que ele se sente comigo, e a maneira que ele age comigo. Falar que ama é muito fácil. Mas eu nunca enxerguei realmente amor nas coisas que ele fazia. E no final das contas, sempre isso que pesou mais eu acho. Então, por que tão difícil me manter longe? Eu não sei. É como se houvesse um laço, um pacto absurdo que nos unisse em algo maluco. Não me resta nada além de deixar que o tempo me mostre meus erros e acertos, e que algum dia, eu entenda que isso não era nem perto de amor.
Para mim, muito. É como se eu tivesse Phd em resgatar as coisas. Para quê deixá-las quietas, sem vida, enquanto podemos fazer uma bagunça naquilo que chamamos de amor? Pois bem, eu chamo.
E essa fase da minha vida, permeada por alívios e dores, quase que ao mesmo tempo, tem me deixado confusa. Por um lado sigo com a pequena esperança, mas nem por isso menos forte, de que as coisas vão mudar, meu príncipe vai me reconquistar em seu lindo cavalo branco, seremos felizes como sempre imaginei que seríamos, porque eu mereço. Ou... eu me afasto desse sonho que provavelmente nunca se tornará realidade, vivo a minha vida em paz, procurou outros sonhos. Simples, não? Pois então, não. É como se o diabo viesse te tentar toda vez que tu vai fechar os olhos. Como se tu estivesse em abstinência de uma droga. Como se de repente, não houvera mais ar suficiente para respirar direito. Tu pensas em mil loucuras que se misturam e se embaralham na sua cabeça antes que tu consigas ao menos entender porquê está sendo tão difícil fechar essa porta. Qual o problema, sabe? O que te prende no passado? Eu não sei. Para mim, só sei que não tem sido fácil. É como se cada vez que falássemos, uma faísca de alegria surgisse que pudesse fazer com que a gente pulasse vários capítulos tristes e fosse direto pro final feliz dessa história. Eaí, às vezes, caio na real sem nem tentar. Penso que escrevi a maior parte da história sozinha e muitas vezes na solidão do meu quarto escuro e frio. E também penso que o tempo não vai mudar a maneira que ele se sente comigo, e a maneira que ele age comigo. Falar que ama é muito fácil. Mas eu nunca enxerguei realmente amor nas coisas que ele fazia. E no final das contas, sempre isso que pesou mais eu acho. Então, por que tão difícil me manter longe? Eu não sei. É como se houvesse um laço, um pacto absurdo que nos unisse em algo maluco. Não me resta nada além de deixar que o tempo me mostre meus erros e acertos, e que algum dia, eu entenda que isso não era nem perto de amor.
terça-feira, 21 de abril de 2015
E se?
Me transborda algo que já não sei identificar. Me abandonaste no meio da rua, no meio da tua vida, no meio do caos. Me abandonei a mim mesmo, por algo que me fez ser outrem. Minha imagem no espelho me confunde, são os mesmos traços, mas parece uma alma escurecida. Tenho cicatrizes, algumas fechadas, outras sangram. Tenho uma sensação de morte que não me deixa em paz. Vivo meus dias procurando algo que me parece que esqueci o que era. E as coisas vão perdendo um pouco a graça. Nunca soube realmente o que podia ser se sentir assim, traído. Já fui traída, encho uma mão. Mas pela primeira vez me senti traída. De fato, traída. Uma sensação de impotência, de desamparo, de luta perdida. Uma sensação do desconhecido, do estranhamento, da frieza dos fatos descobertos. Descobri uma sensação inteiramente nova. Me senti fraca, me senti um lixo, me senti nua. Como continuar amando? Como continuar oferecendo? Estou embriagada na minha própria ironia, no meu jeito esquisito de levar a vida, assim, sem pensar nas consequências. Apesar de que agora, o futuro me preocupa um tanto mais. Tenho medo e ao mesmo tempo sinto um pouco de prazer na dor de não perdoar. Seria uma vingança. É a única coisa que tenho. Às vezes cansa ser boa. Dizem que compreender é o melhor caminho, sempre. E se eu nunca mais te ver? Seria tão ruim assim? E se meus dias fossem de azul, pintados do infinito da cumplicidade com outros. E se eu deixasse tudo para trás, exatamente como está, meio assim, meio cinza, meio inacabado, sem traços. Eu sinto pena.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Prece
"Meu Deus me dê coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de tua presença. Me dê coragem de considerar esse vazio, como uma plenitude. Faça com que eu tenha coragem de te amar sem odiar tuas ofensas a minha alma e ao meu corpo... Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada, e mesmo assim, me sentir plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."
Clarice Lispector, para celebrar ou apaziguar os sentimentos destas efemérides que se aproximam depressa.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Conto pra distrair: ao meio
Jamais cogitou, sequer em seus devaneios mais remotos e despidos de todo senso objetivo que a impregnava, a possibilidade de vir a amar desesperadamente um segundo homem como amava o primeiro, sem que esses amores se entrecruzassem pelas artérias que inundavam de sangue e amor os diversos compartimentos de um mesmo coração.
Depois de assumir, não sem muito lutar contra essa certeza tão escandalosa, a segunda constatação foi natural e inevitável: o amor ao primeiro homem, por pura falta de uso prático, murchava lentamente como a gardênia branca esquecida sob o sol impiedoso. Atrofiava-se de tantos sonhos, afogava-se nas torrentes de sentenças não pronunciadas e pela contração muscular involuntária que persistia em esvaziar de todo amor o compartimento dificilmente preenchido.
Do espaço vago, nada se apossava. Restou um saguão despovoado, repetidamente encharcado e drenado pelo líquido vermelho que corria à revelia da vontade de mantê-lo eterno e intocável, como um salão de baile desativado onde ainda ecoam os passos da última valsa do último par.
Fez coro com Fermina Daza, acrescentando ao "pobre homem" um pobre de mim...
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Fora do eixo - ou voltando a ser Tereza
Escanteio a crescente pilha de projetos que me encaram enquanto retomo livros velhos de poesia. Absorta na segunda releitura do mesmo romance, perco as horas escrevendo mentalmente muitas páginas sobre a poesia que me desconcerta e o amor descrito que me maltrata. Encontro-me novamente sendo Tereza, que carrega um livro debaixo do braço como um código secreto para outra realidade possível, a mesma que bate à porta trazendo consigo todas as bagagens do mundo e um coração desfeito. Ainda a mesma Tereza que rabisca incessantemente poesias pelas pernas, pelos braços, pelo dorso nu, para finalmente convencer-te a findar o péssimo hábito de interromper pela metade as leituras - dos livros, dos corpos. Ainda que Tomás, ainda que a proximidade não signifique o pertencimento, ainda que adormecer no sofá não seja a porta de entrada para um novo - e teu - mundo. Ainda que estar lado a lado possa não representar absolutamente nada.
Continuo sendo Tereza: rabiscando-me, explorando-te. Desenho em mim toda poesia que os autores dedicaram, sem saber, ao cheiro da tua pele e ao hálito dos teus beijos. E quanto mais te procuro, mais me perco e me desencontro e desespero. Quanto mais te aprisiono, mais te esvais. E mais aumenta meu desconcerto pelas histórias nunca contadas, as memórias nunca ditas, os amores jamais compartilhados. Como meu Tomás, te espero resignadamente decidir voltar - mesmo que jamais tenhas partido.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Para as sedes intermináveis
(enquanto Bethânia me diz que amor é sede depois de se ter bem bebido)
Primeiro foi a sede absurda, o coração de deserto, o pudor abandonando a língua. Depois foi o vazio, o espaço infinito e o tempo incontável naquela dilatação de horas, dias, meses e anos que jamais se cansavam de passar, de agoniar, de irromper pela fresta da janela por onde entra um vento terrível que faz lembrar a falta que tem um abraço do tamanho certo nas horas que o frio invade a casa, o corpo e que se arrasta pela mobília. Depois foi a língua, novamente ela. Não aquela do léxico bem definido, recheado de símbolos em forma de letras, que tentam significar os sentimentos e os objetos que nos rodeiam ou que fazem tanta falta de nos rodear; foi a língua feita de músculo, de papilas, de pele, banhada em saliva, sem freio algum em falar dos sentimentos que a outra tanto se esforça para aglomerar e classificar e definir. Essa língua encontrada em tantos poemas relidos hoje e que trouxe de volta a sede primeira, o vazio, a lua e o oásis.
Depois da língua, veio a lua. Cheia, amarela e brilhante, riu-se do sofrimento acompanhado através do vidro da janela por onde espreita e gira no ritmo lento da Terra, até se posicionar com aquela mesma inclinação de revolver marés, avançar águas, esquentar corações e trepidar fogos acesos à beira do mar, perpetuando o movimento de esvaziar certezas jamais compreendidas. Da língua e da lua fez-se o ouvido. O ouvido salgado do mar revolvido pelo movimento lunar, mar que brotava dos olhos, língua que lambia a maré primeira dos olhos verdes que vertiam sem cessar. Ouvido testemunho de tantas confissões da língua falada e de tantos encontros às escuras com a língua viva; ouvido que cansara de procurar significações em vão a cada troca de olhares para a qual não era convidado.
Depois da língua, da lua, do ouvido e dos olhos verdes, veio o oásis. O vácuo do desprendimento, a angústia da sede jamais saciada, a adrenalina ruidosa de batidas cardíacas ensurdecedoras. Veio o tempo, incapaz de abrandar a dor que há tanto transmutara-se em conformidade. Veio a lua, em seus ciclos repetidos, dar mais uma vez a sua face mais redonda aos olhos admirados desde o chão. Vieram as flores, mais de luto que de recomeço. Veio novamente a língua, cortada, calada e muda, e dela brotou um grito surdo. E a saudade, interminável, fez-se paraíso da memória cíclica, irrepetível, incomparável.
Verte seus desertos nos oásis das salivas jamais bebidas.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Um vinho, uma vírgula, o ponto: o porvir
Um dia eu juro que ponho um ponto final nessa loucura que há tanto me atormenta, que me quebra em dois e me provoca e reinventa inteira. Prometo que jogo fora as recordações - que não são mais físicas, se reduzem ao ilimitado campo da memória -, que aprendo a escrever sem evocar cheiros e sem mencionar as palavras olhos e perfume. Um dia aprendo a bailar sozinha no ritmo da música, com a garrafa de vinho na mão, sem procurar no vazio do vento um outro corpo que jamais encontrei. Um dia eu porei pontos, todo dia sabendo que a hora está cada vez mais próxima. Enquanto isso, abuso das vírgulas que nos permeiam na dança das intenções implícitas, marco livros de poesias que falam de vagos olhos e línguas e passados e futuros. Enquanto isso, confundo as letras, me perco nas frases que nunca disse, encontro novos símbolos em cada reticência despretensiosa. Adio a despedida como quem tem consciência da sua incontestável proximidade.
Um dia eu juro que ponho fim nesse amor. E afogada na angústia de ter que me obrigar a esse momento, ponho a cada dia um pouco mais de fim em mim mesma.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Desfolhado
Despiu-se, lentamente, de todos os prazeres ocultos que ainda insistia em carregar. Foi desvencilhando de suas entranhas a escrita, as frases meticulosamente formadas para dar sentido às múltiplas vidas presentes, passadas e futuras, enterrando a sete palmos as sutilezas literárias que ainda persistiam nas pontas dos dedos. Com as chaves da casa, arranhou os álbuns que a acusavam de gostar de amar, mesmo que um amor sem objeto. Esvaziou os bolsos dos pequenos retalhos de papel com letras anotadas à menor lembrança bonita. Abandonou o diário vermelho, que também poderia suscitar desconfiança. Sentiu-se como uma frondosa árvore submetida a sucessivas e destruidoras podas. Estava na casca, sem veios, sem sulcos, sem folhas nem frutos. Marrom, imóvel, inanimada, como a árvore que mata seus próprios frutos na busca por manter-se viva, sobreviveu. Jamais florida, jamais esverdeada, jamais feliz.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Atrapado
Faltam dedos nas mãos para não se perder em tantos anos de saudades. Os desencontros já não se contabilizam em semanas nem meses, somam-se em décadas frias e confusas pela passagem do tempo. Faz tantos anos que o espaço destinado à tua falta transbordou, que tua presença se esparrama pelos cantos, pinga pelas frestas dos armários e deixa um rastro inconfundível pelo chão.
Mesmo assim, continuo com o ritual iniciado sabe-se lá há quanto tempo, tanto quanto meus dedos não sabem comportar. Ainda tempero meu corpo com a baunilha que roubo da cozinha, unto a pele no mesmo alecrim, banho cada vinco e tatuagem com os aromas que fizeste cultivar em mim. Pinto as unhas do mesmo céu estrelado, saboreio a mesma goma de sabor odioso e repetitivo.
No somar de anos e resultar em décadas, em pleno sonho me encontro repentinamente em um baile de gala. Descubro ser eu a anfitriã entre tantos rostos desconhecidos. Meu perfume é o mesmo, as minhas mãos ainda têm os mesmos dedos pequenos e finos, o mesmo anel, mas é visível a passagem do tempo. Entre tantas sombras e vultos sem significado algum, reencontro teu rosto tão conhecido e me surpreendo ao perceber a continuidade da nossa história, em outro tempo, em outro lugar, em mim.
Somos nós, a filha nascida, os outros filhos que reconheço sem ainda habitarem esse mundo, os mesmos gestos, o olhar que paralisa e faz gelar. Sou, em ti, a nossa história completa. Meu tom de voz, naturalmente agressivo, torna-se doce na tua presença; minha rouquidão vira música e me reconheço apenas pela tua familiaridade com meu corpo, que já há tanto não me faz habitar tão confortavelmente quanto antes; meus olhos refletem mais verdes ao cruzar com os teus, meus lábios te esperam, como se jamais tivessem te encontrado antes.
Envolta no nosso abraço interminável, o encontro de tantos descaminhos e tanto amor recolhido pelo caminho. Vestida pelos teus braços, complementando tua pele, somos somente nós e já não importam as décadas, os séculos, os milênios, os mundos. Já não importa as bagagens que trago, sou abraçada com todo meu passado, meu futuro e meus planos. Meus medos se perdem pelo caminho, já não importam as estradas paralelas que tivemos que trilhar até encontrar uma rota comum.
Meu sonho, teu, de encontrar-te ao abrir a desconhecida porta numa vida qualquer.
Mesmo assim, continuo com o ritual iniciado sabe-se lá há quanto tempo, tanto quanto meus dedos não sabem comportar. Ainda tempero meu corpo com a baunilha que roubo da cozinha, unto a pele no mesmo alecrim, banho cada vinco e tatuagem com os aromas que fizeste cultivar em mim. Pinto as unhas do mesmo céu estrelado, saboreio a mesma goma de sabor odioso e repetitivo.
No somar de anos e resultar em décadas, em pleno sonho me encontro repentinamente em um baile de gala. Descubro ser eu a anfitriã entre tantos rostos desconhecidos. Meu perfume é o mesmo, as minhas mãos ainda têm os mesmos dedos pequenos e finos, o mesmo anel, mas é visível a passagem do tempo. Entre tantas sombras e vultos sem significado algum, reencontro teu rosto tão conhecido e me surpreendo ao perceber a continuidade da nossa história, em outro tempo, em outro lugar, em mim.
Somos nós, a filha nascida, os outros filhos que reconheço sem ainda habitarem esse mundo, os mesmos gestos, o olhar que paralisa e faz gelar. Sou, em ti, a nossa história completa. Meu tom de voz, naturalmente agressivo, torna-se doce na tua presença; minha rouquidão vira música e me reconheço apenas pela tua familiaridade com meu corpo, que já há tanto não me faz habitar tão confortavelmente quanto antes; meus olhos refletem mais verdes ao cruzar com os teus, meus lábios te esperam, como se jamais tivessem te encontrado antes.
Envolta no nosso abraço interminável, o encontro de tantos descaminhos e tanto amor recolhido pelo caminho. Vestida pelos teus braços, complementando tua pele, somos somente nós e já não importam as décadas, os séculos, os milênios, os mundos. Já não importa as bagagens que trago, sou abraçada com todo meu passado, meu futuro e meus planos. Meus medos se perdem pelo caminho, já não importam as estradas paralelas que tivemos que trilhar até encontrar uma rota comum.
Meu sonho, teu, de encontrar-te ao abrir a desconhecida porta numa vida qualquer.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Um dia, talvez, Alice
Gostaria de ver teus olhos, Alice. Perco minutos preciosos nessas semanas corridas de estudos imaginando como serão teus cabelos, teu sorriso, tuas sombras. Descobrir tua figura enigmática que me perturba a cada poema em que leio teu nome, conhecer quem merece ser Alice diante de tantas belas palavras. Gostaria de conhecer teus sonhos, Alice. Saber tuas angústias, teus anseios, as linhas do teu rosto e as marcas das tuas mãos. Conhecer-te, imitar-te. Para chegar a ser Alice, merecedora de todos os sonhos e reverências do mundo; para dedicar a ti, Alice, o que me restaram de sonhos e angústias e desejos no mundo.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Querido Diário
Eu e minha tela branca à frente. Puxa, faz tempo que não
falo como dizem os poetas, com o coração. E realmente não é pra ficar bonito. É
num mar de soluços que me encontro. Quem dera fosse de rir. Acredite, eu
costumava gostar da minha companhia. Eu costumava me deliciar em manhãs com meus
cafés múltiplos e cheirosos que se acumulavam em fileiras de xícaras coloridas
na minha escrivaninha branca, e o Sol ia beijando devagarinho meus papéis
enquanto eu fazia o que tinha que fazer, seja lá o que fosse. Puxa, eu gostava
mesmo de mim há uns anos atrás. Como era bom aproveitar uma música e planejar
simplesmente o que eu iria fazer no final de semana. Como era boa a vida
simples que eu levava. Há dois anos atrás, parece que nada ficou tão simples
assim mais.
Dizem que quando a gente se apaixona, a gente esquece da
gente. E o tempo não é mais como era antigamente. Ele muda, pra uns passa mais
rápido, pra outros simplesmente para. Eu não sei como foi comigo, mas sei que
com 1 mês parecia que nos conhecíamos há 10 e com 1 ano depois de tanta
confusão, sentia que tinham sido duas vidas terrenas. Esses dois anos já se
perderam na minha cabeça, a contagem ficou louca e minhas memórias meio que se
atravessam umas pelas outras, dançando tristemente pelo passado. Ora essa...
Tanta coisa boa vivida pra se sentir grata, e, sim, em momentos de paz eu me
sinto grata. Mas, bem, como eu controlo o tempo do restante da minha vida? Como
pensar nos próximos 10, 100, 1000 meses que eu (espero) viver. Como pode ser
tão doída a imagem de mim mesma sem ti? Será que isso é amor? Será que se sofre
por amor? Me disseram que o amor era uma coisa boa... E agora?
É engraçado e estúpido se apaixonar. É engraçado porque
lembro das minhas escolhas nada racionais e fico pensando no porquê de tudo
isso. Por que sentia a tamanha necessidade, parecida com a que sinto agora, de
ir atrás daquele objeto tão desejado? Por que nunca aceitei o que era tão
óbvio? Que não poderia dar certo. E isso sempre foi um fato, não adianta. E eu
sabia, no fundo, eu sabia. E por que insistia tanto? Eu simplesmente achava que
tudo era possível, que era passível de mudança e ressignificados. Eu acreditava
como uma criança que crê em Papai Noel. Com todo o meu amor, minha força e meu
otimismo, nunca me faltou coragem para arriscar. Eu queria me jogar. Queria
morrer de amor. Queria. E agora, as minhas cinzas me entristecem. Não há glória
em finais tristes. Ninguém me parabenizou ou bateu palmas. Não ganhei troféu ou
medalha. E nem uma carta, sequer. Na minha porta não bate ninguém e minha
companhia parece estar vivendo em um mundo sombrio. Falam-me de liberdade e ela
tem uma cara bem desafiadora para mim. Eu não tenho nada a perder e isso nunca
soou tão estranho...
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Interminável Escuridão
Passei a noite em claro, encarando a lua cheia que banhava a janela, para organizar tudo que preciso te dizer, de uma forma mais ou menos coerente. Contar como as noites se tornam especialmente silenciosas quando não contam com a melodia tranquila da tua respiração ao dormir, enquanto contabilizo estrelas cadentes. Contar como me envolvo em histórias de todos os tempos e todos os personagens, mesmo sem querer, para te perceber em cada romance frustrado e te descobrir me esperando na minha próxima contradição. Contar que toda profundidade de olhares, memórias, aromas e gestos torna-se superficial quando projetadas à nossa tão entranhada relação.
Joguei pequenos punhados de areia pela janela do sétimo andar, uma para cada pendência a resolver. Poderia ter soterrado o mundo nessa noite. Joguei um punhado para cada amor passado, para cada caminho que percorri e para cada atalho que me fez chegar até teus olhos, tão distintos de todos os olhos que já haviam percorrido minhas marcas e o meu corpo. Teus olhos que não se esquivam de me encarar e não deixam um momento de me dominar. Para minhas turbulências individuais, mais um punhado de areia, que se esvaiu lentamente entre os dedos. Sei da minha constante retomada do passado, sei das tuas objeções e sei das nossas diferentes percepções. Sei ainda que poderia escrever hoje de forma menos superficial do que faço.
Prometi que não me estenderia ao amanhecer. Olhei para baixo, toda a terra quase imperceptível pela altura. Eu não tinha medo da distância que me separava do solo. Findo o arremesso, pois não sobrara grão de areia, restava arremessar as flores, os frutos, as folhas repletas de distintos aromas. Cogitei juntar meu corpo aos punhados atirados ao vento. Me lancei sobre o parapeito, mas impediu minha visão o primeiro raio de sol. Na cama teu corpo, teus olhos que cerrados não expressavam todo o impacto que tinham sobre mim, tuas mãos conhecedoras de cada vinco do meu ser. Dormir, ao teu lado, mais uma noite. Sem os demônios que atormentam, sem os dilemas que angustiam, todos desprezados feito porções de terra ao vento do sétimo andar. Ao menos até o sol se por outra vez...
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Cozinhar como Oração
Levo o coração na ponta dos dedos, no brilho dos olhos, nas papilas da língua. Levo o amor em toda minha tentativa culinária, em qualquer utensílio que vou estrear, em toda xícara de açúcar despejada sobre a manteiga batida. Meu coração está esfriando, em cima do forno, esperando para ser desenformado. Ele hoje foi tingido com beterrabas, daqui a pouco será temperado com curry; vai receber recheio de creme azedo e ser enfeitado com morangos frescos. Meu coração é do tamanho de todas as provas da comida que faço. Cozinhar é minha oração diária, a prece que secretamente diz eu te amo e faz desse amor mistura com um fouet brilhante. Te provando, te reinventando e te alimentando com meu amor, meu coração cresce. Cresce como o fermento caseiro que deu tão certo no bolo de hoje. Cresce com uma vontade infindável de declarar meu amor.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Ojos Verdes
Porque sempre que eu escrever qualquer coisa que precise descrever um par de olhos lindos, eles serão verdes. Nem azuis como o céu do meu pai, nem castanhos e cheios de brilho como os da minha filha. Eles serão verdes, de um verde escuro, manchado, como que corroído pelas histórias e pelo amor que passou por eles. Serão verdes como os do meu avô ou, que presunção, verdes como os meus olhos verdes. Serão verdes como olhos inesquecíveis com os quais todos esbarramos na vida...
Assinar:
Postagens (Atom)