sábado, 25 de junho de 2011

Querido Diário


""Querido diário"
Hoje o inimigo veio,veio me espreitar
Armou tocaia lána curva do rio
Trouxe um porrete, um porrete a "mode" me quebrar
mas eu não quebro não, porque sou macio, viu?!"

(Chico Buarque)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

a pessoa certa

Não basta ser a pessoa certa. Tem que ser a pessoa certa no lugar certo, com o olhar certo, com o caminho certo, com as dúvidas certas, com o mesmo coração na mão, a mesma incerteza no bolso e a mesma cabeça cheia de planos. Não basta ser a pessoa certa. Ela tem que ser a pessoa. Tem que encher o peito com as vontades que jamais alguém inspirou, tem que dar vontade de voar, tem que fazer largar tudo, tem que fazer rasgar os planos, mudar, mudar e mudar tudo de novo se for necessário. Tem que ser alguém por quem dançar na chuva, por quem correr na rua, por quem fazer surpresas, por quem se emocionar e largar tudo. Tem que ser aquele alguém que aperta o estômago, que faz suar as mãos, que faz pular o coração da boca, que faz sorrir, que faz chorar de emoção. Tem que ser o alguém que não faz sentir nenhuma borboleta, nem nenhum coração pulante nem nenhum choro... Tem que ser aquele alguém que nos desperta um amor real, possível e verdadeiro. O alguém que nos enche de confiança e faz transbordar plenitude, mesmo sem as mãos suadas, sem o estômago atordoado de sensações, sem as nuvens sob os pés. 
Não basta ser a pessoa certa. Temos que ser a sua pessoa certa também.

Tem que ser alguém capaz de nos encher a vida de vida, o coração de amor e o rosto de sorrisos.
De forma simples, sutil, mas arrebatadora.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ecos

A mesma frase gerou o mesmo arrepio, depois de muito mais que alguns anos. Aquela frase ecoou pelo banheiro, retumbou nos vidros, arranhou o som do vinil que tocava e se espalhou pela casa inteira da mesma forma que havia se misturado tão sutilmente a ela e já há tanto que ela não mais a sentia. Aquelas palavras ainda estavam guardadas, desde a última vez que as ouvira e mesmo sem lembrar que elas alguma vez haviam sido ditas.

"Vai ver o que me incomoda tanto é que eu não sei se conseguiria te fazer tão feliz como ele fez, ou te fazer gostar de mim do jeito especial que tu gostou dele."

E ele jamais conseguiuria. De verdade.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Uma brecha

Há sempre um momento de lucidez na nossa vida. Um momento que o tempo pára e temos a opção de esolher. Sim! Há sempre aquele segundo em que estamos atentos às coisas a nossa volta e podemos decidir continuar, parar ou atravessar a rua. É como se o sinal estivesse vermelho. Um breve momento de consciência, é o que eu chamaria.
E esse momento sempre existe. Mesmo que não saibamos o que fazer com ele. Mesmo preferindo. às vezes, fechar os olhos e deixar que a vida nos mostre se erramos ou se acertamos. Porém, é preferível que não se desperdice essa chance quando nosso coração nos dá uma brecha. Porque nunca sabemos quando isso acontecerá de novo.

Cantando no Toró/ Grande Hotel


"Pensas que não sou feliz
Entras com roupa de estreia
Deves saber que ando louco
Louco pra mudar de ideia"

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cobertor

Não há briga que resista à cama. Não há magoa que perdure a noite inteira, não há orgulho que resista ao frio e à divisão das cobertas. Casal que briga à noite é o casal que dorme separado, onde há a ira das portas batendo, das feras esbravejando e não a necessidade de dividir o mesmo cobertor. Casal que dorme junto briga durante o dia e recompõe a paz durante o sono. Costuram a paz com suspiros, bordam o perdão com braços que acidentalmente se tocam ao longo da noite, emendam o sorriso no rosto com os pés que se encontram para vencer a noite fria. Não há casal que resista ao perdão do sono, não há briga que consiga durar depois que, vencendo o orgulho e a teimosia, os dois se encontram abraçados logo ao despertar. O coração dá o seu jeito de conciliar os ânimos: dribla a fúria com o sono, dribla o orgulho com o frio. Na manhã seguinte, resta o pedido de desculpas e já não há mais sentido em questionar quem estava errado. 
O coração também sabe anestesiar a memória.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Lentes

Mantenho o hábito de lustrar as lentes dos óculos de grau com um guardanapo de papel, toda vez que estou sozinha em casa. Não porque a sujeira me perturbe a visão ou pelos pingos de água que caem acidentalmente e deixam pequenas manchas translúcidas nas lentes não me agradem ao me fazer ver um mundo furta-cor. Não protejo meus óculos da sujeira, apenas deixo meus vidrinhos preparados para a rotina. 
Ao chegar em casa, ele carimba com o nariz a esquina das lentes, como se quisesse beijar os meus olhos que, de certa forma, se escondem. Quando chega, deixa sua marca nos meus olhos enquanto me beija, enquanto me abraça, quando não consegue calcular o tamanho exato da distância que nos separa ou da proximidade que nos une. Enquanto está fora, tenho comigo sempre um beijinho à mão, disponível, palpável, carinhoso. Tenho sempre um beijo nos olhos caso queira dormir, tenho sempre uma marca para me fazer companhia nos passos e nos sonhos - pois também não tiro os óculos quando quero dormir no sofá durante a tarde.
Quando está próximo o horário da volta, vou à cozinha e busco o papel para refazer meu pequeno ritual. Purifico meus olhos e limpo os velhos beijos para esperar o novo que, em breve, chegará. Quando ele chega, me carimba com o nariz e enche meus olhos de beijos acidentais. Me espalha a rotina pela casa, dá sentido aos guardanapos que, misteriosamente, se vão tão rápido. Faz minhas manias deixarem de ser secretas e faz minha loucura aparentar algum sentido.
O sentido de te buscar a cada dia.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Vidro

O frasco de perfume se partiu em mil pedaços ao encontrar o piso frio daquele quarto. Sem saber porque, ela desmoronou em prantos ao se deparar com os cacos misturados com o líquido que agora infestava todo o ambiente. Chorava pelo perfume, segurava com apego a tampa, juntava o vidro estilhaçado e temtava entender o motivo de tamanha importância dada ao frasquinho da tampa vermelha. Subitamente, compreendeu que, ajoelhada no chão, agrupava sobre o jornal os cacos de um amor que há muito se desfizera dentro de si e que se conservava unicamente pelo presente dado naquela semana. Ela tentara resistir àquela demolição, mas o coração nunca se deixa controlar pela racionalidade e toma os caminhos que bem quer. Ela chorava, segurando com força o último resquício daquele amor perdido que ela lastimava ter que deixar, o amor construído pelo apego e firmado na insegurança. O pequeno vidrinho era a última união que restara entre os dois e era a maneira que ela havia encontrado de ainda se prender a ele, de ainda se fazer pensar nele; somente com o cheiro que ele escolhera ela ainda se sentia presa por algum fio de compromisso.
Quebrou-se o vidro, ele estava lá, viu tudo, ajudou a catar os cacos e a consolar o que sobrara dela depois daquela tarde de domingo. Ele não sabia que ela chorava pelo fim dos dois, pelo fim que ela tentou evitar mas sempre soube que não conseguiria. Ele não sabia que dentro daquele quarto escorriam pelo chão as últimas gotas do amor que ela tentava preservar, mesmo convicta de que ele já não estava mais lá.
E o amor se foi. Como o perfume que evaporou e sumiu sem deixar rastros.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Cinco Sentidos

Ele se entrega quando tira os óculos. Sei que se entrega quando não precisa mais enxergar nada que esteja além de mim, quando levanta devagar o cabelo e vai descendo com a ponta dos dedos o meu pescoço. Sei que se entrega quando franze a testa para enxergar a expressão que faço do outro lado da cama, quando se perde no meio dos meus abraços e enquanto acaricia minhas costas com a barba fina. Sei que se entrega quando os seus suspiros tomam forma, adquirem ritmo, se tornam música, valsam pela cama e se esparramam pela casa. Sei que se entrega quando relembra datas, quando conta casos, quando dá risada, quando me deixa pequenas surpresas e me traz merengues. Mas sei, principalmente, que ele se entrega quando não me enxerga mais com a visão.
Se entrega quando abdica dos olhos. Se entrega quando passa a me enxergar com as mãos, a me medir com beijos, me contar com o calor da sua respiração. Se entrega quando me ver passa a não fazer nenhum sentido.
"Deixa eu tirar meus óculos" é a sua forma secreta de me dizer eu te amo.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Presentes - o pior do mundo

Fazíamos a lista dos piores presentes que já ganhamos e demorei algum tempo até que pudesse lembrar qual o pior presente que já ganhei de um ex-namorado, pois decidimos deixar de fora os presentes dados pelos familiares e pelas amigas. O pior ganhou o prêmio pois o rapaz passou a ser ex mesmo antes de me namorar, por conta do presente e da tonelada de descaso que transbordava a caixa vermelha recheada de bombons. Teria namorado aquele homem, não fosse o presente que ele me deu nessa infeliz vez. Àquela época, já havia decidido ceder aos insistentes pedidos, quando certo dia chego em casa e vejo em cima da mesa a caixa vermelha e sou informada que ela estava ali à minha espera. Medo, só fui gostar de surpresas depois de velha, naqueles tempos não era adepta das embalagens aleatórias chegando em casa (medo que se acentuou depois do incidente de oncinha, mas é caso para outra história). Tenho horror de quem escolhe presente no chute. Mulheres e homens são igualmente insuportáveis quando querem presentear mas não gastam um neurônio ou dez minutos pensando ou pesquisando algo que o presenteado poderia gostar. Tenho horror desses presentes que transbordam impessoalidade e descaso. Tenho horror que me deem livros - a não ser que saibam exatamente o que estão me dando.

O homem - que agora, relembrando a história, já sinto vontade de chamar de criatura -, me deu um livro. Dentro da embalagem, uma carta muito bonita e que está guardada até hoje na parte que me restou no guarda-roupas na casa da minha mãe. Junto com o livro e a carta, bombons. Logo para mim, que amo doces, ele conseguiu escolher o único bombom que não consigo suportar nem o cheiro. Ainda havia esperança no livro, esperança não só na intenção dele mas esperança de manter o que já tinha decidido. No livro, igualmente frustradas as expectativas. O presente não só era semelhante ao que tinha lhe dado no aniversário, com a sutil diferença que me prestei a saber os livros que ele gostaria de ler e quais os doces gostava de comer, mas transbordava o descaso que abomino tanto. Quando li a primeira página, pude imaginá-lo com pressa, comprando os primeiros bombons e arrancando da prateleira o best-seller que estava mais à mão. Até hoje ele não sabe que se tornou ex muito antes de ser atual e que a culpa foi toda daquele presente; até hoje ele não sabe que eu cogitei que ele pudesse ser o atual.

Desisti da ideia, do namoro, do moço. Imaginava qual seria a minha sina de dias dos namorados, de Natais e aniversários, me imaginava amontoando best-sellers e sacos de doces insuportáveis. Imaginava que, com tamanha desatenção, o próximo presente só poderia ser uma caixa de quindins. 
Impossível namorar quem te dá livro de auto-ajuda com bombons Amor Carioca.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Cartas (e caixas) de amor

Guardo todas as cartas de amor num mesmo lugar. Percorro caixas, gavetas e classificadores em busca de mais alguma que tenha ficado perdida dos meus constantes cuidados de guardá-las na caixa preta de bolinhas brancas. Guardo todas as cartas de amor como um grande catálogo, um índice remissivo da minha paixão. Há aquelas que eu nunca consigo armazenar na caixinha que fica à vista bem no meio da sala, são as que se arquivam diante da nossa pequena (?) biblioteca de amor. Colecionamos livros com dedicatórias apaixonadas, como um adiantamento da herança aos nossos filhos. Empilhamos volumes e mais volumes com versos e diversas cartas na primeira e última página, amontoamos bilhetes e letras sublinhadas nos parágrafos dos tantos primeiros capítulos.
Guardo todas as cartas de amor pois não quero me perder nem do amor nem das lembranças. Guardo todas as cartas para que um dia elas sejam  lidas e tocadas por pequenos olhos e dedos curiosos em saber a origem de um amor anterior à sua própria existência. Guardo todas as cartas de amor pois vez por outra recorro à caixa para me deliciar durante a tarde; para que ele nunca se esvaia pelo meio dos nossos dedos. Conservo as cartas com a devoção de quem conserva o próprio amor, como uma forma de vê-lo sempre renascer e florescer diante de belas palavras e de poesias dedicadas. As nossas cartas de amor são como pequenos bombons em tardes de inverno, saboreadas devagar, apreciadas como a música de Elis, valsadas pela casa em silêncio.
Penso em separar os livros com nossas cartas dos outros volumes que se acumulam na nossa casa, em fazer  uma pequena biblioteca do amor - desde que tirei da cabeça a ideia absurda de arrancar as primeiras e últimas páginas de todos eles para que pudesse manter todas juntas na minha caixinha. Guardo todas as cartas como uma parte da herança dos nossos filhos. Para que a eles seja sempre palpável o amor que respiramos uma vida toda.

Oração





"Cabe o meu amor
Cabem 3 vidas inteiras..."

(A Banda Mais Bonita da Cidade)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Terças-feiras de solidão

Admiro quem sabe viver sozinho. Admiro aqueles que nascem sabendo seu lugar no mundo, que se orientam sem precisar de ajuda e que perseguem seus objetivos sem que haja alguém para guiá-los. Admiro quem sabe apreciar a solidão em tempo integral, o único prato na mesa, quem troca os móveis de lugar e fica satisfeito mesmo sem ter ninguém para quem mostrar a nova organização da casa. Eu não sou assim.
Sempre adorei solidão, porém aquela solidão com hora marcada para ter fim, aquela que se esvai com apenas um telefonema ou às quatro da tarde de uma quinta-feira, quando o outro deixou claro que chegaria em casa. Preciso de um tempo sozinha, mas minha solidão não é exigente. Sei ser sozinha com outra pessoa em casa, sei ser mais sozinha com alguém estalando os pratos na cozinha ou arranhando notas de violão pela sala. Com companhia, minha solidão é mais feliz.
Eu admiro e reconheço aqueles que vivem e erguem sozinhos suas vidas, mas pra mim esse caminho não funciona. Fico perdida sem o outro prato na mesa, sem o corpo do outro lado da cama, sem o rastro de toalhas molhadas que torna óbvio que mais alguém esteve ali. Não sei me arrumar para mim mesma, me enfeitar para mim, cozinhar para mim, viver só para mim. Preciso de elogios matinais, beijos inesperados, preciso ouvir o ranger da maçaneta enquanto preparo a comida ou ter a certeza de que há alguém lá, mesmo que do outro lado da casa. De alguém para quem me vestir, de alguém por quem me despir, de alguém em quem pensar em tempo integral. A vida só tem graça quando temos alguém por quem viver.
Hoje é o meu dia de ficar sozinha; são as vinte e quatro horas mais torturantes da semana. É a solidão indesejada, a que não vai ser perturbada nem interrompida, a certeza de que lerei o livro até o fim sem precisar parar para descrever o que leio ou para prestar atenção no que ele lê. Hoje é o dia que viro as costas para a minha casa, vou almoçar fora, remover da memória o lado vazio da cama, o prato e a casa que acordou hoje exatamente como a deixei ontem. Preciso de alguém que interrompa meus pensamentos, critique minha solidão, minha roupa, meu molho, minha maneira de organizar os livros. Preciso de alguém que divida comigo a casa, as tarefas, os sonhos, as angústias e os sentimentos. Preciso de amor, em tempo integral.

domingo, 22 de maio de 2011

tempo

O tempo insiste em não passar. O ponteiro se arrasta levando mais tempo do que o de costume para sair do um e chegar até o dois, os minutos não chegam, as horas não cansam de ficar paradas no mesmo lugar. Nem foi tanto tempo assim, mas é a tortura da incerteza do tempo que ainda falta e do relógio que atormenta com cada movimento que ecoa pela cozinha vazia o que desperta a ansiedade e o nervosismo de nunca chegar. O sono foi brincar com o tempo; insistem os dois em não se fazer voltar para casa. Escrevo "para" em lugar de "pra", para consumir mais alguns dos segundos na leitura silenciosa que faço de cada tecla digitada e de cada movimento incerto no escuro de casa.
Esse tempo não tem fim.
Assim como não teria tudo o que eu poderia querer dizer com isso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Certezas

Nascemos em cima de convicções. Nossos pais decidem, desde muito antes de nascermos, quais serão os melhores caminhos para nós, se usaremos chupeta ou não, quando tiraremos as fraldas, qual será a idade certa para entrar para a escola, quais as características que deverão ser aprimoradas desde pequenos para que sejamos pessoas boas e honradas. Crescemos em cima de convicções. Cremos que seremos os melhores para nós mesmos - ou para os nossos pais e seus anseios -, que a escola é o único caminho de nos tornarmos alguém, que a faculdade é a única opção após o ensino médio, que a vida possui um roteiro a ser seguido para que não soframos ou nos decepcionemos e que, caso nos desviemos do caminho inflexível que ensinam desde que nascemos, seremos infelizes e frustrados. Crescemos acreditando que homens bem-sucedidos são aqueles que têm carro do ano, casa própria e diploma na mão; mulheres felizes são as que conjugam diversas funções, são as que nunca cogitariam abandonar a faculdade ou a profissão para se dedicar aos filhos, à casa ou simplesmente à musica ou alguma atividade que lhes dê mais prazer do que algo que traga dinheiro.
Nascemos e crescemos reproduzindo certezas, convicções infundadas e apenas repassadas de pai para filho, sem muitas vezes questionar se é essa a vida que queremos levar, se fazemos questão da faculdade, do carro zero, da segurança financeira. Nascemos e crescemos construindo, acumulando e reproduzindo frustrações. Quando crescemos mais um pouco e de dentro de nós está próxima a saída de um ser indefeso diante de tantas convicções, repensamos muitas das coisas que nossos pais e todos ao nosso redor sempre ensinaram como o certo a fazer. Questionamos as atitudes e as posturas daqueles que, apesar de terem pregado tantos ideais, muitas vezes se desviaram do caminho ensinado - seja por vontade, por falta de outra opção, seja para consertar algo que ficou para trás, seja para recuperar um tempo dado como perdido. Questionamos os valores que construímos para as nossas vidas e se realmente são aquilo que queremos e devemos passar adiante e, assustadoramente, descobrimos que uma reciclagem de nossos hábitos e principalmente de nossos pensamentos é necessária para que não sejamos responsáveis pela formação de alguém infeliz na sua essência.
Depois de um tempo, conseguimos libertar um pedacinho de nós mesmos dessas certezas absurdas e do molde ao qual tentávamos a vida toda nos adaptar e que, por alguma razão, não nos caía muito bem. Depois de um tempo, conseguimos perceber que nem sempre as convicções são tão convictas assim e que as certezas se esvaem diante da primeira pergunta a qual a submetemos. Depois de algum tempo, na ânsia de sermos diferentes, de proporcionar aos nossos uma perspectiva mais humana e a possibilidade de um pouco menos de frustração do que os nossos pais, mesmo que com a melhor das intenções, puderam nos proporcionar, reconsideramos as nossas atitudes diante da vida e reavaliamos a importância de diversas atitudes na composição daquilo que chamamos felicidade. Temos que descobrir sozinhos o caminho da felicidade e aprendemos da maneira mais difícil que a vida não é linear nem rígida, temos que nos descobrir e encontrar sozinhos o caminho que nos realiza, precisamos enxergar que os próximos passos serão sempre opções e não sentenças, que a felicidade pode se esconder atrás das menores coisas e que alguns de nós nunca nos consideraremos felizes apesar do carro do ano, a casa própria, o marido e os dos filhos.

Os pais não nos ensinam mas, depois de um tempo, percebemos que o amor supera as certezas e, principalmente, a falta delas. Os pais também têm que guardar os seus segredos, têm que nos cobrir de certezas para que possamos reagir, nos descobrir delas e encontrar nossos caminhos. 
O bom da vida é se mover de paixão, do despertar ao adormecer.

P.S.- ainda agradeço à minha mãe pelos conselhos com as drogas, com as minhas escolhas e, ultimamente, com as roupas de bebê. A felicidade ela confiou que eu descobriria sozinha, ela nunca duvidou que eu conseguiria.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Caos

As pessoas dizem que não sabem o momento em que elas se apaixonam. Mas elas sabem, sim, o momento em que elas se dão conta disso. A gente vive esperando por momentos assim, e quando acontecem, não sabemos o que fazer. E de repente, tudo fica mais complicado. Deixamos de ser seres racionais. Parece que dependemos da sorte, do telefonema, do convite. Quando ficamos tão desesperadas por atenção? Quando mudamos o foco? É por isso que não nos apaixonamos todas as semanas. Imagina, esse caos toda segunda-feira?

terça-feira, 10 de maio de 2011

Diga


"Todo mundo sabe o que existe entre nós dois
Diga tudo agora e não depois..."

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sentimentos - para as paredes 009

Hoje eu li algo que falava sobre paixão, que exalava paixão. Não aquela paixão da carne, não a paixão física, não por alguém, não a paixão direcionada, mas li sobre uma vida que se definia como sendo puramente paixão. Simples paixão.
Fiquei surpresa, atordoada com aquele tanto de paixão e comecei a procurar em mim onde estariam os vestígios dessa paixão gratuita, se é que ela existe em mim. Procurando paixão, encontrei-a nos lugares mais óbvios, consegui materializar a palavra em alguns rostos somados com mais uma meia dúzia de outras palavras igualmente apaixonantes, consegui encontrar paixão em alguns gestos, em determinadas atitudes e em uma pequena quantidade de objetos. Em nenhum lugar consegui encontrar aquela paixão gratuita. Não encontrei paixão em nada que faço além das atividades cotidianas. Tentei reduzir a significação de paixão para prazer - novamente não o físico, não o direcionado, não o personificado -, mas o prazer em algo além das obrigações cotidianas. Busquei o prazer e só consegui encontrar sentido semelhante nas coisas que não faço mais, nas coisas que não me permito mais. Encontrei em alguma quantidade significativa de livros, em algum gênero de música, em uma breve exposição ao sol e em alguns longos passeios despretensiosos pelas ruas de uma cidade quase desconhecida. Não consegui encontrar nada na minha rotina que me remetesse a paixão e prazer e que estivesse ligado somente a mim, sem personificação, sem rostos, sem terceira pessoa. Não consegui encontrar nem um rastro de paixão nas aulas que assisto, nos livros que sou obrigada a ler, nas pessoas com quem me deparo durante toda a semana. Ainda um pouco perdida nas buscas de significados no interior e na briga pela redução de sentidos para me convencer que nem tudo está tão perdido assim, tentei uma última redução. Busquei a satisfação, como algum rastro da generalização da paixão e em seguida do prazer também. Encontrei satisfação nas mesmas coisas onde encontrei paixão e prazer, mas não a encontrei onde já não havia encontrado seus irmãos mais velhos. Encontrei uma fresta de sol por entre as nuvens que hoje insistem em acinzentar o céu e que penetra com timidez a minha sala e encontra minhas pernas estiradas no sofá. Encontrei um rasgo recém aberto no peito com aquela frase que falava de paixão. Só não encontrei a satisfação nas coisas que precisava encontrar.
Mas às vezes é bom rasgar tudo, se perder. Uma leve batida de depressão faz todo o sentido com uma segunda-feira pela manhã. Vou sair buscando paixão, preciso me apaixonar, buscando vida, alguns sorrisos e, caso não encontre nada, pelo menos ganho as esperanças de um sol que conseguiu se desprender de trás das nuvens.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Eu não me lembro

Uma tarde gelada estava por terminar naquela pequena cidade. Ela estava visitando os amigos e parentes depois de um longo período fora. Somente seus olhos estavam descobertos, tamanho era o frio que fazia naquelas ruas cinzas. Foi então que ele passou, praticamente um desconhecido, e disse “olá”. Ela parou e ficou olhando para o chão. Na sua cabeça milhões de pensamentos se teciam como um novelo de lã. Ficou levemente tonta. Fechou os olhos e a imagem deles juntos veio à tona. Ela rapidamente se virou e tirou a manta que tapava seu rosto. Ele já estava um pouco distante, mas ela, mesmo assim, gritou:

- Eu não consigo lembrar.

Ele, confuso, retornou lentamente. Cada passo que dava era como se fosse rastejado, doloroso, duvidoso.

- Não entendi.

- Eu não me lembro da última vez que estávamos felizes. Eu não me lembro do nosso último beijo. Eu não me lembro do nosso último “te amo”. Eu só consigo me lembrar do dia em que fiquei sabendo da verdade. Nós fomos felizes? Pelo menos, por um dia?

As lágrimas corriam livremente pelas maças do rosto. Ela não sabia por que isso significava tanto para ela. Mas ficava pensando antes de dormir e não conseguir lembrar, lhe atordoava profundamente. Ela continuou:

- A gente nunca sabe quando vai acabar. Quando vai ser a última palavra. Quando vai poder dizer o que sente naturalmente. A gente simplesmente não sabe quando as coisas vão mudar. Quando a verdade não é bem aquela que imaginamos. E quando isso acontece, a gente não sabe dizer como foi e nem quando foi. É deprimente. E isso me mata por dentro. Isso me mata um pouquinho a cada dia que passa e me mata saber que não há nada que eu possa fazer.

- O nosso tempo passou, Liz. Isso não importa mais agora, tente seguir com a sua vida. Não pense mais nisso. Não tem utilidade nenhuma.

- Realmente? É isso?

Ela pensou estar surpresa, mas sabia, realmente, que ele não sentia as mesmas coisas que ela. Baixou os olhos e viu os velhos sapatos marrons, tão familiares. Não pode deixar de se sentir nostálgica e deprimida. Como havia tudo mudado?

- A gente caminhava pela beira d’água. Tirávamos fotos do céu e do mar. Eu, sem que você percebesse, tirava algumas fotos suas também. Eu não conseguia imaginar alguém mais linda. Seu irmão lhe ligou, nessa hora, e você ficou conversando com ele um tempo. Parecia feliz, parecia estar contando novidades, boas novidades. Esse foi o nosso último momento, pelo menos, o último que ficou registrado na minha memória. Todos os outros que vieram depois parecem ser um grande conjunto de imagens de um drama que inevitavelmente tinha de acabar.

Ele se virou novamente e continuou andando, indo na direção que previamente seguia. Um vazio enorme preencheu o peito de Liz. O ar frio inundou seu corpo, suas veias, seu coração.

domingo, 1 de maio de 2011

Mentiras e Verdades

Às vezes mentir é a saída fácil. Mentimos quando acordamos. Quando respondemos "tudo bem". Quando dormimos, sonhamos com coisas que mentimos para nós mesmos. Praticamos tão bem que nos enganamos. E nos acostumamos com as mentiras bem contadas. Por isso que a verdade dói tanto. Temos que enfrentar as coisas de uma vez por todas. Eaí, de repente, todas as mentiras escondidas aparecem e vão embora. É tempo de acordar. Por mais que a verdade possa ser decepcionante, nós temos a ela e ela a nós. O jeito que vamos lidar com isso é nossa decisão.

"Rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth."
Thoureau