terça-feira, 11 de abril de 2017

Andando pela vida

Aprendi a escrever a lápis de novo, feito criança
Apesar das possibilidades de apagar  
Nunca o fiz
Aprendi a ir no cinema para ver filme que não queria
Aprendi com as árvores a calma que pacientemente com suas raízes profundas observam quem sentam aos seus pés,
e depois, sem dizer por que, levantam e vão embora
Aprendi com o mar a guardar segredos, a colecionar mistérios e objetos perdidos,
a não permitir que todos nadem até o fundo. Aprendi a me defender.

Com a minha vó, aprendi sobre o tempo.
Pelos seus olhos azuis feitos de céu, eu vi memórias, perdas, saudades
Vi os seus ditados populares desfilarem na rua diante de mim e sorri para eles, discretamente..

Aprendi com o vento a mudar de direção e com a música, aprendi a ouvir
Aprendi a tomar café sem açúcar
Aprendi a ler só o que me interessa, a andar com quem me interessa, a ser gentil.

Com a minha mãe  eu aprendi a sorrir por pequenos motivos,
e quanto mais se acha graça da vida, parece que ela desconfia e começa a achar graça da gente também.
Com a minha irmã aprendi que para cada pergunta complicada existe uma resposta óbvia e simples.
Aprendi com o passado a agradecer.

Aprendi a fazer exercício todos os dias, a movimentar o corpo, a conhecer o corpo e os seus limites,
Então, eu me machuquei, pois é assim que sempre fui: audaciosa. Não por excesso de coragem, mas por puro otimismo.
Aprendi com as palavras a dar significado, a enlaçar as pessoas com um fio invisível que me atravessa e envolve o que ainda não está inscrito no outro
Aprendi com os sonhos a vivê-los e ao lê-los, aprendi a desviar de rotas perigosas.
Aprendi a andar sozinha

Aprendi que vou morrer sem ter aprendido tudo, e que há tanto, mas tanto erro nessa história, e por isso, aprendi a não ter culpa.
Aprendi com meu pai a questionar, e por isso, questiono tudo, e com o silêncio de Deus, aprendi a não ter respostas.
Aprendi ao escrever o meu momento santo, que toca o que sou, e depois do último ponto dado, estou pronta para aprender tudo outra vez

segunda-feira, 27 de março de 2017

deixa assim

Qualquer encantamento ainda resta nesse espaço de tempo
entre o meu coração e a razão
Se tu pudesses ver agora o meu olhar de pedra, que está assim: mais vazio... mais frio
Tenho a tarde livre para te fazer perguntas sem respostas
Sempre nos entendemos no silêncio, não é mesmo? Porém perdemos as apostas...

Queria te contar por onde andei e o que assisti semana passada no cinema
Sinto o vento forte no rosto do nosso tempo,
Paralisa a memória do que poderia ter valido a pena
Ontem a noite estavas tão vivo enquanto dormia,
podia jurar que a nossa trajetória ainda seguia

Mas o erro aconteceu, não perca tempo tentando mudar, eu não posso mais te condenar
Me despeço de mim mesma, e os nossos desencontros não tem solução
Tem dias que o que sentia volta com tanta força e mexe com tudo aqui dentro, brinca com o meu coração
Me lembro do tempo que a gente conversava sobre a vida sem notar que amanhecia lá fora
Mas quer saber? Deixa assim...
não houve dor maior do que ter de ir embora
Não conseguiria fazer tudo de novo
E em falar em novo, sonhei que era reveillon
Estava todo mundo lá, notei a tua ausência na hora de brindar.
Lembra de quando a gente sentava na areia do Leblon?
Parecia que todos os nossos sonhos se encontravam com o mar.
Se eu tivesse uma pergunta apenas, eu te perguntaria,
Como que se faz planos com outro alguém?
Sinto meu coração ainda um pouco teu. Por que tem de ser assim?
Eu fui no teu enterro, eu joguei rosas no teu caixão e disse amém.
Me parecia mesmo o fim,
então eu disse adeus
Escrevo agora com os mesmos dedos que passavam pelo teu corpo todo adormecido e  que ainda são teus..

Assim como contigo, não consigo terminar esse poema, estou contando os grãos...
Então, fica assim... resta assim, longe de mim, um sopro no peito, um passo pra trás, um desencostar de mãos.


sol da manhã

Manhã. O sol entra lentamente pela janela iluminando o quarto. A casa em completo silêncio. Já consigo te imaginar esperando meu café recém passado, sentado em minha cama com um livro aberto no colo e a mente distante. Chego devagarinho, sento na beira, fico te observando na sua beleza amanhecida. Deslizo minha mão sobre as tuas pernas, por debaixo do lençol, fecho os olhos e sinto meu corpo esquentar. Lembro do café, e te alcanço. Tu me olhas, bebes um ou dois goles, e vens para perto de mim, o lençol que escorrega te deixa nu e eu começo a beijar a tua nuca, o teu ombro colocando minha língua quente na tua pele de inverno. Tu não dizes nada. De olhos fechados, me pergunto como te fazer sentir algo que nunca sentiste, descobrir teus prazeres escondidos, teus desejos ocultos. Pego o café da tua mão e ponho sobre a mesa. Te beijo a boca ainda quente e amarga, sentindo todo meu corpo entrar em sintonia com a tua língua.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Um led

Ouvindo Since I've been loving you. Como é diferente pensar na vida sem projetar tua figura silenciosa ao meu lado. Hoje repenso a música e a vida. E como diz a letra, estou quase perdendo minha cabeça preocupada. Passei tantos dias me preocupando com o que não estava ao meu alcance, quase fiquei louca, sim. Por um momento o mundo girou diferente, e o doce estava azedo. Mas cá estou. Sobrevivi. Acreditei que algo melhor era possível. E podia ser até mesmo minha própria companhia. Não sei se preferi, mas fiquei com meus próprios álibis e minhas próprias mentiras. Uma coisa é fato. Cansei dos seus jogos e das suas respostas pela metade. Cansei da linguagem que não cumpria função. Cansei do desejo pela metade. Cansei daquela vida. E todas as portas que se abrem eu agradeço por não ser a tua. E com toda a tua hipocrisia e desverdade, me vejo diante de um espelho em um quarto branco. Despida das minhas ilusões, das minhas crenças, eu começo a te esquecer. Eu começo a esquecer daquele tempo de dor e insanidade. Começo a pensar no agora. E o futuro não tem seu porta retrato na estante.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Bebo

Bebo-me toda, porque sem ti me restou silêncio. Escuto a vida que arde e o mundo que gira, sinto o tempo que não apaga as dores, que não desfaz os amores, que não desfez o meu.
Bebo-me toda porque sei que algo de fato se perdeu .
Quão difícil é saber da mesma lua que nos guiara, que continua a iluminar
nossos novos passos que já estão longe, que já se cansaram de andar.
 Perdi-me no teu abraço, sem vontade de voltar.
Quero-te todo, todo-te não posso ter. As respostas que nunca terei me tiram a vontade de ser. Não te sinto mais, não te toco mais, nada mais restou. Bebo-me para saber quem eu sou.
Mas ainda assim, em meus sonhos apareces confundindo-me, me enlouqueces Por não ter nada a me dar, bebo-me porque quero, sim, me afogar.

Nessa dureza que é a realidade da imperfeição de uma paixão que sem motivo de ser aparente, me deixou tão doente e levou meu coração. 

Pequeninha

São inesgotáveis as palavras que direi, pois sinto um vazio que jamais sentirei.
Nada me protege dessa dor que é te perder, sinto-a tão profunda, que de tão imunda, me joga pra fora do meu ser.
Seus pequenos olhos a me olhar, sua pele quente a me tocar, tudo se desfaz no tempo do meu sonhar.
Levo-te comigo na minha garganta, onde permaneces um nó que não me desce, insiste em me torturar.  Eu Nunca pedi para assim te amar.
Simplesmente esse sentimento se instaurou e não cansou de brotar.
Como me deixei tão ingenuamente levar?
Amei tão sozinha, me tornei tão pequeninha só para te contemplar.
E hoje quando te vi, Deus sabe o que eu sofri, de não poder mais te amar.
Dizem que o caminho machuca, que o chão tem espinhos, que o sol queima e o frio pode paralizar. Lembro-me dos verões contigo, do nosso abrigo todo no meu cuidar.
Lembro-me das noites que eu não dormia só pra poder te admirar.
E agora que sei que danças em outros abraços, te permites estar em outros laços, e em outras águas mergulhar
 eu que me demorei tempo demais, sinto agora toda a dor desse amor

que não que cessa de durar. 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

De outro tempo

Foi que a cortina fechou, então... o tempo parou
E nada mais O que fazer com as sobras desse amor tão fugaz? E as consequências do nosso enlace se desdobraram Dançaram e giraram no que restou de nós Nesse mundo de preto e branco,
Desse tempo de viver do recordar... Sabe... é que quando eu ando nas tuas ruas, me lembro das coisas tuas
E da tua mão na minha a encostar E eu que sempre quis mais sem que pudesses me dar Peguei tudo que não unia, o que já ruía E não tinha vontade de ser e... joguei de volta pra você E sem saber o porquê, você insistiu pro nosso amor voltar praquele mesmo lugar
Mas quem partiu fui eu, e o que restou, ficou e se refez,
E porque assim havia de ser,
Se refez sem você.

morangos

Foi num dia assim que li Morangos Mofados

Fazia um vento frio e os pingos da tormenta driblavam a proteção e faziam voar o guarda-chuva. As botas encharcadas e o coração doente, o ar gelado chicoteando o rosto como quem me mandava acordar dum sonho.
Foi num dia assim que vi que Caio havia perdido as vírgulas e me permiti perdê-las também. Escrever-te sem pausas, sem reticências, sem referências, sem filtros. Foi num dia assim que engoli os receios e despejei palavras. Foi num dia assim, numa tormenta assim, que verti palavras sobre aquele papel amassado.
Foi num dia assim que te pedi
Foi num dia assim que te perdi
Foi com um raio desses de atravessar o céu que ficamos só Caio, os morangos e eu.

domingo, 18 de setembro de 2016

Poesia sem querer

É chegada a hora de parar, meu bem.

De reconhecer algo além do verde absoluto dos teus olhos
[e do teu cheiro sufocante de castanhas
dar adeus à cicatriz e à tatuagem
deixar que o perfume de baunilha exista
sem pretender te encontrar

é hora de (re)conhecer a derrota
dar adeus aos teus olhos no horizonte
às nossas valsas ensaiadas
às promessas de casamento
aos quatro filhos de nomes prontos
[e ao quarto sem televisão instalada

vai, meu bem.
E volta quando quiser pra me fazer ridícula
olhando pra trás na porta do ônibus,
vasculhando as mensagens de voz no telefone
passando por aquela rua que um dia te abrigou

ainda moro no mesmo número
ainda uso o mesmo perfume
mas juro
é mero cacoete
força do hábito, anos a fio

vai que é chegada a hora
e aqui ainda tento me convencer:
parar há de ser melhor também pra mim


segunda-feira, 6 de junho de 2016

sem título

Falavas dos dedos compridos
Da voz rouca de declamar poesia
Do cheiro inconfundível de baunilha
Do desenho rendado sobre a pele clara
Falavas.

Falas?
não te ouço mais

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Vinteoito

É vinte e oito mais uma vez. Mais um abril.
Nesse abismo que se abre toda vez sob os pés
a única opção é se deixar cair.
Lentamente se render à queda do próprio corpo.
Viver o luto, lamber as feridas.
Esperar sua reconstrução.
Refazer-se.
Esquecer.
Para outro vinteoito me desfazer mais uma vez.


domingo, 24 de abril de 2016

Te olho

Quando já está tudo escuro e meu coração bate mais devagar como quem anda cansado, desistindo de lutar, vou olhar-te de longe nas espreitas do que me sobra. E fico mais feliz de poder te admirar assim sem saberes. Assim não te causo mal. E mesmo sem saberes, teus gostos e gestos me põem um brilho no olho e uma calmaria na alma. Sei que estás aí e na minha imaginação, a esperar por mim.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Silêncio

Não sei a quem visitas à noite. Nem o que bebes de manhã. Não pude conhecer teus hábitos. É só teu olhar que ficou em mim. E as músicas que ouvimos juntos passam por mim como fantasmas que gritam cada vez mais alto teu nome. Eu sei, vai ficar tudo bem, é o que Alabama Shakes diz.  Um dia vou te encontrar por acaso cruzando os corredores da faculdade ou em uma festa qualquer de tantas que gostamos de ir, ou quem sabe te encontro solitário, em um sábado de tarde, em um inverno frio, lendo algum livro que provavelmente está na minha estante. Porque somos feitos de coincidências, eu e tu, porque somos feitos de algo que chamo de identidade. Não entendo do nosso encontro, foi mais como um teste para mim. Acho que repito de ano e não aprendo a lição... Sei que não me esperas. Sei que não pensas em mim. Sei que em outros braços estás. Fico feliz. Mesmo. E fico pensando no quão feliz eu teria te feito também, naquele doce mês de agosto.

domingo, 11 de outubro de 2015

Sem mais, nem menos

Tenho a impressão que ele está voltando a ser como era antes. Irritações e momentos de grosserias com motivos estranhos. Ontem vendo TV, eu falei pra ele botar no canal das motos que ele queria ver a corrida. Estava feliz, mesmo com um momento delicado, estávamos ali, juntos, dividindo uma noite qualquer. E aí, abracei ele e disse te amo. Ele não sorriu. Nem me olhou. Estava sério. Compenetrado. No momento não percebi que era o final da corrida. Havia retirado os óculos e tenho forte miopia. Repeti baixinho perto do ouvido dele: "eu disse te amo"; emiti um risinho constrangido de quem tem medo do silêncio. Ai, Márcia, não tá vendo que tá acabando a corrida???? Poxa! 
No mesmo momento tomei uma certa distância no sofá. Fiquei dura, ouvindo aqueles roncos de moto fino de quem corre leve, de quem corre rápido. Mas não enxergava nada. Meus olhos embaçaram muito para ver qualquer coisa, na verdade. As lágrimas caíam com extrema facilidade. Meu peito apertava. Fazia tempos que não ouvia uma grosseria  daquelas dele. Um trauma súbito passou pelo meu corpo todo. Me arrepiando. Me pondo nos meus piores pesadelos. Por que ele estava assim? Seria minha culpa? Não. Não podemos botar a culpa no outro pelos nossos temperamentos tempestivos. Eu não pus, e bem que poderia. Fiquei refletindo nas nossas diferenças em ataques de fúria. Eu pareço louca. Fico indignada. Berro. Causo tumulto. Mas não sou grosseira assim, num momento de carinho, de ternura. Não estou certa, mas não percebo causar mágoas gratuitas. Mas isso, bem, é subjetivo e parcial. Eu reconheço que quanto menos esperneio, mais me fecho dentro da minha casca de indignação. O que incomoda, sei que incomoda ele profundamente. Mas fico me perguntando se ele sofre como eu sofro em momentos assim: de violência sem precedentes. Me pergunto se o peito dele aperta, se ele tem vontade de sumir. 
Não queria que ele me visse chorar. Então deslizei pra um cantinho do sofá e lá fiquei, encolhida, afundada nas minhas mágoas, sabia que o passado me visitava e esquecera de bater na porta. Se ao menos ele quisesse entender como me sinto. Se ao menos conseguisse me enxergar daquela maneira.. tão pequena, tão frágil. Foi aí que ele resmungou: não acredito que vais ficar assim. Agora a corrida acabou. Por que tu não esperou a corrida acabar? E eu, respondi, de maneira até meio estupidamente ingênua, que não tinha visto. E ele, te falta é atenção então. Naquela hora não achava que me faltava atenção. Achava que me faltava carinho, afeto, respeito, dedicação. Foi então que ele disse que eu demandava muito. E fiquei refletindo sobre isso também. Nessas horas a culpa sempre parecia minha. Senti que meu sonho tinha acabado ali. Ele voltara a ser como era antes. Um descuido e uma prepotência que eu jamais vi em ninguém. Já podia sentir falta dos dois meses que convivi com o seu melhor eu. Calmo e justo. Por quem eu tinha me apaixonado à terceira vista. Lembro que no terceiro dia que começava a falar com ele, sentia uma forte pulsão de largar tudo e correr para seus braços e ficar ali, adormecida,  junto de seu perfume e de seu calor para sempre. Foi paixão abrupta, foi devaneio, não foi parecido com nada do que já tinha provado. Era como se eu pudesse me apossar da alma dele, como se pudesse unir meus motivos com os dele com beleza e maestria. E tudo estaria explicado. O universo para mim se resumiria nos caminhos que trilharíamos juntos e isso bastaria. E foi em meios disso que chamo de o começo de nossa história que me perdi, me deixei levar, fugi do que eu conhecia de mim até então. E ontem, minha satisfação se dissipou no ar gelado da madrugada. Depois da tristeza, veio o medo de ele continuar assim. E que para mim, não haveria escolha a não ser me despedir. E dessa vez, para sempre. Mesmo eu, que não acredito em para sempres mais. Sei que não há mentira que repetida não se torne verdade. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Por que nós?

Ou por que não?


"fomos serenos num mundo veloz

nunca entendemos então por que nós

só mais ou menos"





Porque nesses dias todas as inquietações se transformam em música.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Flor de manjericão

Acumulei em diversos rascunhos todas as frases de efeito que poderia usar um dia para te escrever. Rabiscados à mão ou digitados na tela, encaro todas as sentenças que já não nos chamam mais. Por que insisto em te evocar? Rompi com minhas próprias regras ao permitir que te enraizasse naquelas músicas tão lindas e longas. Não consegui manter as barreiras de te fazer ser música sem significado algum e que jamais fosse sentir a necessidade de tocar novamente. Hoje elas tocam. São uma fila de músicas que somam mais de muitas horas, que foram ouvidas durante o breve sequestro que ainda relatarei um dia, que marcaram todas as despedidas que já tentamos ter, embora ainda não consiga entender como um abraço possa durar os sete minutos de uma música quase sem fim. Escrevo textos desconexos, frases sem liga, dramas sem sujeito... Todos vazios de não te precisar mais. Ainda me pego pensando o porquê de insistir nesses chamados sem retorno, nas ligações que não faço, nas revistas que compro e endereço erradas propositalmente, para que nunca cheguem às tuas mãos. Ainda me pergunto qual parte de mim não pode morrer quando te deixo à deriva e te abandono aos porões do meu pensamento e te ressuscito para sacudir, odiar e relegar mais uma vez. Ainda me pergunto porque lês minhas angústias com ar de observador, forçadas na ausência de um drama real com que me preocupar. Pergunto-me quanto de massagem no teu grande ego as minhas palavras perdidas podem oferecer. E volto ao fim reticente, ao início que não sei mais onde fica, às esquinas e músicas de sempre. Volto pra te ver passar. Volto pra não esquecer como foi me amar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Too Late

Era tarde, era tarde na minha vida e tu apareceste. Inebriada já, insensata, talvez, teus olhos que até hoje não sei de que cor eram refletiam ao mesmo tempo meu desespero e minha tranquilidade diante daquela noite, diante daquele bar. Acho que eu não esperava aquilo, talvez, eu não esperasse nada, mesmo. Contei os degraus pensando que me beijarias lá em cima. Às vezes fico pensando se eu leio bem as pessoas ou elas que são tremendamente previsíveis. Mas nem tudo estava previsto, ora, ora... se estivesse, provavelmente não estaria contando e recontando essa noite aqui.
A verdade é que tive muitas noites. Eu conheci muita gente. Não tantas quanto eu gostaria, mas o suficiente pra conseguir mensurar esta em especial. E eu vi tanta, mas tanta beleza e sinceridade no que aconteceu ali. Da minha maneira torta, eu consegui esquecer meu mundo lá fora. Meu passado. Meu futuro. A noite tinha uma dimensão de vida e morte simultaneamente. E cada copo que eu bebia, tinha gosto de liberdade.
Os fantasmas que me atordoavam, calaram. Meu riso se fez largo. Meus pés, te seguiam. E entre abraços e olhares, nos fundíamos ao lugar, à musica, à alegria. Elis era Piaf e cantava alto... e eu? Eu cantava mais alto ainda... A noite se fez dia no calor que nos unia. Eu mal entendia o teu olhar, de quem se surpreendia, de quem se encantava e sorria ao me ver sorrir. Poder encontrar conforto e semelhança em lugares vazios, naquele dia me mostrou mais do que eu podia enxergar, pois quando fui embora, vi que não estava preparada pra ser feliz assim. Eu tinha medo. Existia muita coisa presa aqui fora, na vida real, muitos nós, muitas conversas inacabadas e sentimentos confusos. Existia muito trabalho pra mim pra poder largar tudo e passar a viver assim, de mãos dadas com aquele desconhecido. Mas a ilusão é doce, me vestiu bem naquele momento. E agora, quando fora a hora, eu saberei reconhecer e procurar no lugar certo.

sábado, 15 de agosto de 2015

Me(i)a Culpa

É injusto dizer que de nós dois não restou nada, embora precise fazer força para trazer a tona as evocações que Ana me pede com tanta insistência por não crer na possibilidade que quase tudo tenha desaparecido nesse dilatar dos tempos. É injusto reduzir o que fomos (ou será o que somos?) a esse bloco de notas, ao tocador de músicas que repete sem cansar as faixas na tentativa de rememorar aquele gosto, ao vidro que guardava para lançar contra a luz e reproduzir fielmente a cor dos teus olhos e que já não tenho vontade de olhar.

Dividamos a culpa das injustiças, do afastamento, de todos os nossos desencontros. Assumo minha metade nas tantas vezes que silenciei tua boca com o dedo indicador para impedir teus lábios de pronunciarem um eu te amo. Assumo minha metade no orgulho que me fez imóvel quando deveria ter batido uma vez mais na tua porta - eu sei que estavas atrás dela me ouvindo chamar. Assumo minha metade sem culpa nas vezes em que enlouquecidamente te quis e busquei enquanto insistias para que eu fosse embora.

Peço-te a tua metade e cobro a conta pelos momentos em que olhei pra trás esperando te encontrar me buscando... não encontrei. A tua parte que me cabe nas inconsistências, nas idas e vindas tão frequentes e cronometradas quanto as cheias das marés inspiradas pela lua que se expande e contrai. A tua parte nas músicas que me levaram a loucura e que sei que fizeste de propósito. No passo derradeiro, no alcance da mão, no sequestro anunciado com a música ensurdecedora, me deixaste ir embora todas as vezes, deleitado na certeza de me ver voltar.

É injusto dizer que de nós dois não restou nada. Restou a conta em aberto, somas por acertar, restou o desencontro dos olhos que não se veem nem para equalizar as dívidas. Restou a vontade de te ver cais, de deixar de ser farol e passar, um dia quem sabe, a navegar com a certeza de te encontrar onde sempre foste insegurança. Restou a vontade de fazer o reverso, de em ti encontrar calmaria. Injusto, não?

terça-feira, 21 de julho de 2015

Descaso e Acaso

Ai, o mundo da materialidade! As pessoas se tornaram completamente descartáveis para as outras. E acredito que quando a gente entra nesse paradoxo, a gente reproduz a máquina. Para a maioria das pessoas basta um pouco, sem pedir muito, sem doar-se muito também.
Admiro meu jeito de combater isso. Mas às vezes não sei me colocar em primeiro lugar. Como se os problemas dos outros e a sensibilidade do outro me passasse por cima e eu esquecesse de mim mesma. Não consigo não me importar, não perguntar, apertar um botão de apagar e 'puff''. Tudo virou passado, pó, cinza. Não! Me recuso. Me recuso.
Eu gosto da maneira burra infelizmente de ser, gosto de reativar as coisas, de puxar pelo passado, de ver se aquela plantinha cresceu ou morreu. Simplesmente, também gosto de me ver no outro do passado. Nos traços que deixei no outro. Como um espelho que gravaria nosso eu antigo. Um lado narcisista não quer desaparecer no tempo e no espaço do esquecimento alheio. Porque assim, eu também me esqueceria de quem eu era? Ora, que besteira.
Quem é que precisa ser lembrado de quem é? Todos nós. Que podemos fazer... Por hora nos esquecemos de quem realmente somos. Nossas identidades ficam perdidas no ar. Nossas raízes flutuantes... Engraçado. Acredito que até o não perdoar é uma maneira de nos manter presos no passado, no conhecido. O conhecido é guardar mágoas, é não deixar ir. É querer remoer, querer se perder naquela imensidão de tristezas e decepções de um relacionamento falido. Mas, ora, falido por quê? Como disse hoje para a minha amiga, concordo com ela que haja sim decisões ditas erradas. E essas nos levam a lugares sombrios.
Mas, depois que fazemos essas escolhas e já estamos nesses lugares, o que fazer então? Não dá pra voltar. A única coisa que dá pra fazer, é seguir em frente. Pensando melhor, espero, para não repetir as mesmas escolhas. Que sejam erros novos. Que seja diferente.

domingo, 19 de julho de 2015

Clarice

[...] Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é.[...]
Clarice, sempre Clarice. (Lispector, claro).